sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Metalinguagem




Passei toda a minha vida implorando a atenção das pessoas. Nunca fui de fazer graças ou promover espetáculos para que pudesse ser notada. Ainda nova construí um casulo ao redor da minha alma e me escondi ali. De um jeito ou de outro gritava por socorro, mas as paredes grossas que me cercam abafavam todo o som que se rompia do meu interior. O tempo passou e não mudou muito em mim. Ainda mantenho minha vida entre muralhas que eu mesma construí. Às vezes percebo que esse egoísmo de euforias e tristezas me poupa da rejeição e me afasta do carinho das pessoas. Há dias em que penso que estar presa em mim mesma tem corroído minhas células, pouco a pouco, como um câncer – sou o próprio mal que me enfrenta pelos cantos. Não sei muito bem o que tenho e em qual proporção esse afastamento voluntário me isola das pessoas. Mas admito que muito já precisei de um colo de mãe e não tive, em muitas ocasiões quis um abraço de um irmão e não encontrei e já quis, várias vezes, um conselho sábio de pai, mas ele não estava ali. Hoje me pergunto se foram pequenos gestos dolorosos que me recolheram em um estado defensivo permanente ou se minha excessiva prontidão à batalha me fez ficar assim. Mas sei que tenho uma casca dura e um interior que se desfaz pela sua inconsistência. Amo veementemente, protejo cuidadosamente e me dedico inteiramente àquilo que me é importante. E disso nunca tive retorno. Ainda espero uma bajulação sincera, um olhar que acaricia o rosto e um bom dia, por mais insignificante que possa parecer, que me faça ter, verdadeiramente, uma semana diferente. Sou ainda a mocinha romântica do interior, sob a pele da mulher madura, moderna, que guia sua própria vida com tamanha independência. Sou a menina acanhada que não se sai muito bem nos diálogos com desconhecidos e sou, também, aquela que escreve sobre si, na inútil esperança que alguém possa enfim saber que EU ESTOU AQUI.