sábado, 23 de junho de 2012

Ausente


A vida parou. Ou fui eu? Paramos – a vida e eu.
Acordei e não havia novidades. Tudo estava inerte. O mesmo emprego, o mesmo marido, a filha de sempre – e a vida também.
Os amava ainda. Pelo menos ao marido e a filha. Mas perdi o tesão pela vida e ao emprego eu não queria mais.
Me troquei e não havia novidades. As roupas eram as mesmas e os sapatos também. Estavam novos ainda. Mas havia perdido a estima.
Trabalhei e não havia novidades. Ainda era invisível. Estava tudo ali, menos eu.
Fui dormir e não havia novidades. O marido estava lá e a filha no quarto ao lado, mas a vida estava ausente. Eu não sonhava mais.

terça-feira, 19 de junho de 2012

O sonho que tive esta noite


Caminhava em um breu, pela avenida Cristiano Machado, quando fui surpreendida por um assaltante. Voltava da igreja com apenas algumas moedas nas mãos, um celular no bolso e uma mochila vazia. Por um momento me lembrei que podia voar. Não precisava estar ali – eu era diferente. Retirei meus pés suavemente do chão e pairei pelo ar, envolvida numa estranha sensação de liberdade e insegurança. Descer significava me encontrar com a ameaça armada da violência urbana e subir conotava num apavorante cerco de fiação elétrica que estranhamente sobrepunha minhas dimensões. Havia um limite entre o céu e a terra, havia um limite de altitude, velocidade e direção. Era preciso estar ali, no meio de tudo isso, sem demasiada ambição e desistência. Me aplainei nesse trajeto enquanto minha mente se afundava nesse sonho avassalador. Era como uma mensagem da vida: é preciso ter disciplina, não desejar tanto acima e não retroceder. Ir à igreja não me impede de ter afrontas, o mundo é escuro e existem teias por todos os lados. Mas sou diferente. Eu posso voar.