sábado, 17 de novembro de 2012

Patrimônio

Eu poderia escrever três ou quatro páginas inteiras que não consegueria descrever o que essa imagem diz sobre mim. Ou, pelo menos, o que eu sinto sobre ela. 
O olhar frágil, cheio de decepção, pedindo um abrigo, uma atenção efêmera, que seja. A chuva. A pequenez. A inércia. Ser ignorado, invisível. A ausência do laço afetivo, a injustiça. O apelo. A tristeza. A insignificância.
E isso me faz pensar na a irmandade. No amor. E isso me faz lembrar, refletir... Me faz sentir, profundamente, a cumplicidade que inexiste, o respeito que faz falta, o elo que não se formou. 
Às vezes penso se toda essa distância vem da diferença de sexo, de idade ou de um mero menosprezo eventual. São nessas horas que sinto uma vontade imensa de dar a minha filha uma irmã: que seja, acima de tudo, sua amiga, companheira para a vida toda. Ou que fosse um menino, portanto. Mas que se molhasse por ela, e vice-versa. 
Que ambos se agarrassem no temporal, se encolhessem sobre o guarda-chuvas e, de mãos dadas, enfrentassem. E tenho medo de não conseguir. Tenho um medo muito grande que ela (ou o irmão) se molhe também. E tenho medo que sofram, medo que se distanciem. Medo que não se ajudem.
Família, prioridades, princípios. É o que quero passar para os meus filhos. Não tenho dinheiro, mas tenho valores. Esse é o nosso maior patrimônio.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

leilão de mim

Me enfeitei para a vida, fantasiei minhas vestis, colori minha face e não havia plateia. Preparei, por anos, a peça: o protagonista, o romance e a utopia. Estudei as cenas e as falas. Fiz da minha vida um sonho enquanto, ao meu redor, havia um emaranhado de realidades. Esculpi a menina inteligente, guerreira e apaixonada, quando o mundo carecia apenas de um ser humano - ainda que sem cultura, de mero esforço e pouco sentimento.  

Acordei 27 anos depois. Sobrara o palco, nada mais. Não havia The New York Times, nem príncipe. Não havia irmão-heroi, nem mãe. Percebi que o colo gostoso da avó se perdera na infância e que as amigas da horta seguiram suas próprias caminhadas. Não escrevi um livro, nem fiz jus ao cargo que me deram. Os tijolos que ajudei a colocar no trabalho não me servem nem para proteger do sol. O J se perdeu na sua própria insignificância. Apagou-se da memória, como a doença de Pick... De novas lembranças têm se fartado: um baú de futilidades, cheio de cupins. O "G" do Gustavo, o "P" de muitos outros pês... O J da escuridão.

Eu estava ali: diploma na mão, aliança no dedo e a pequena do lado. Mas não havia razão. Nem credo. Nem vontade. Não havia enredo, nem ingressos, nem holofotes. Havia um rosto com pequenas rugas. Não havia sorriso. Há dias não os vejo. Nem os sinto também. É como se a alma estivesse chorando. E às vezes paro e olho ao meu redor, feito um leão ferido que procura sua força em algum canto perdido. Mas não há. Estou moribunda, por aí.

O tempo passa. Ele é rápido. Me perdi nos ensaios quando deveria atuar. De tudo, entretanto, soubrou-me o drama, mas este nada vale - como eu. Hoje queria leiloar minha vida: minha casa, minhas roupas, meu carro, meu estudo, meu emprego, meu salário, meu peixe, pais, irmãos, parentes e amigos. Levaria comigo a filha e o marido. E começaria tudo outra vez.

Que arremate o interessado, porque eu vendo o lote inteiro.

domingo, 7 de outubro de 2012

Chance

"O mundo vai muito além disso aqui" - eu dizia a uma funcionaria, dia desses. Muito alem... É o que me faz, tantas vezes, fechar os olhos e viajar por aí. Transporto minha alma pelas vielas de Venice, pelas alamedas gigantes das ondas Irlandesas, pelas tumultuadas avenidas indianas, pelos milenares pilares chineses... É a vida! Tão cheia de amores, sabores e cores. É a vida que passa como um moinho. E cá estou (ainda). Abrem-se os olhos e ainda estou aqui.
Nunca me importei com moda, beleza, salão... Tive uma infância difícil. Me consumi de livros, escrita e utopias. E corri, enlouquecidamente, gritando pelos becos, pedindo à vida uma oportunidade. 
Silêncio, somente isso, além do meu próprio eco. 
Queria, muitas vezes, ter nascido de novo, tido portas maiores - um acesso ao menos que me permitisse tocar. Me ofereci veementemente para a vida, como um ator que se candidata à peça e não é visto. Não tive patrocínio. Deixei pelos cantos da estrada a força, o empenho e a dedicação. Voltei. Não me deixaram ultrapassar o portão. Virei a curva da montanha mas não rompi as linhas do horizonte. E ele não é belo, não mais. É aqui, é isso...Não tive chance. Estou fadada.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Sem porquês



"Quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como", disse Vitor Frankl – psiquiatra judeu, autor da fabulosa obra “Em Busca de Sentido”. Essa não é a primeira vez que cito ou escrevo sobre o livro. Esta é, aliás, uma das minhas literaturas preferidas. Retrata, não apenas o cotidiano no campo de Auschwitz, mas, a necessidade de termos uma razão para continuarmos a viver. E é este o motivo pelo qual estou parafraseando hoje: meu esgotamento momentâneo do “sentido”.
Acredito que os “porquês” que adquirimos em nossa existência, são proporcionalmente inversos à nossa idade. Quando nascemos, precisamos aprender a andar, falar, escrever... E mais adiante, os primeiros namorados aparecem e, também, a vontade da menina-moça de casar. Talvez por isso, quando uma criança morre, há quem diga: tinha uma vida toda pela frente. Uma vida inteira de “sentidos” e “porquês”.
Criamos o sonho da maternidade (a mulher, como no meu caso), idealizamos os filhos nas bonecas, projetamos a profissão. Estudamos, aprendemos a dirigir, abrimos a primeira conta-corrente, perdemos a virgindade. Mas, e quando já fizemos tudo isso (ou, pelo menos, parte de tudo isso)? É como olhar um horizonte interrompido – nada mais há, senão dois palmos à frente de nós mesmos. Hoje acordei e já não tinha mais objetivos. Tenho uma profissão, um emprego, uma filha, um marido, uma vida de classe média brasileira. E talvez não passe disso mais.
Já houve quem me chamasse de ingrata. Muitos, aliás. Mas para um sonhador, passos limitados sempre serão um Auschwitz para a alma. Não que eu queira largar “tudo” O que tenho, sair feito uma adolescente desregrada pelo mundo... Mudar, apenas, bastaria. Mudar sempre, melhorar sempre, tentar sempre. Sou a dona de um espírito aventureiro, na excessiva responsabilidade precoce. Tenho ambição e tenho medo, tenho coragem e precaução.
Hoje, procurei um “sentido” e não o encontrei. Tenho um marido bom, não melhor a cada dia. Sou uma pessoa boa, não melhor a cada dia. Tenho um dinheiro bom, não melhor a cada dia. Tenho uma profissão boa, não melhor a cada dia. De tudo, apenas, me salva a filha: pequena, como a minha fé. Mas cheia de vida pela frente. Ainda cheia de “sentidos” e “porquês”. Talvez eu pudesse segurar na beirada dela, e tentar consumir os sonhos, que ela ainda nem criou, para abastecer minha resiliência. Mas deixo para ela esse acúmulo de bençãos – migalhas de razões não vão me tirar do lugar.
Talvez, aceitando, a vida fique menos pior. Sem sentido não há melhora, apenas conformismo e inércia. O jeito é aceitar as ervilhas da sopa, preparar os pés para os trilho gelados e se entregar ao tempo, ao meio, campo... O “como” viver só pode ser suportado se tiver “por que”. Não há enfrentamento se não houver razão, nem ascensão se não houver "porquês". Decidi viver com o que tenho e me bastar com o que posso ter. Não é o que as pessoas fazem?

sexta-feira, 21 de setembro de 2012


Tive um sonho estranho. Eu morria, vagarosamente. Ainda não me lembro como, nem por que. Parecia-me algum acidente qualquer. Pouco a pouco, vi minha alma despedindo-se. Lembrava-me da minha filha e de como ficaria com a minha ausência. E quanto mais eu pensava, mais distante ia ficando, inclusive da preocupação. Era como se a vida, os problemas e as pessoas, fossem deixando de me pertencer. Por um instante me vi entre a luz e as trevas e sorri quando senti que descansaria com Deus. Mas, de repente, fui abduzida por um breu. Era tarde, pensei. Estava condenada à escuridão. Abriram-se, então, os meus olhos. Era manhã. Meu coração pulsava, meu corpo estava quente. Ainda havia uma chance (ou várias, talvez). E isso é algo que se deva falar - enquanto se possa falar. Por isso, digo: ainda há tempo. É preciso aproveitá-lo.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Mais ou menos


 Hoje eu queria uma cabine do tempo. Entraria nela e faria tudo, absolutamente tudo, diferente na minha vida. Ainda não decidi onde queria voltar, nem quando. Tive uma infância difícil, mas tenho saudade dela também. Talvez, se tivesse uma chance, uma única chance que seja,  faria uma profunda reflexão do erro principal, que me levou a toda essa frustração. Não sei se foram os traumas, o amadurecimento excessivamente precoce, as dificuldades financeiras, as amizades ruins... 
Hoje, se estivesse lá, com a mesma cabeça que tenho agora e a vivência que adquiri, teria sido mais forte, pensado um pouco mais em mim e menos nas pessoas que eu amo. Teria curtido mais os piques e me preocupado menos com os problemas dos adultos, que ainda não me pertenciam. Voltaria no dia em que Ana Clara, minha prima, chegou na casa da tia Lia, e curtiria bastante, porque agora que eu  conheço a verocidade do tempo, sei que é estranho vê-la nas redes sociais vestindo roupa de festa, depois de tê-la visto nascer. Teria dito palavras de carinho aos meus irmão a todo instante, para conseguir cultivar a união que não se formou.
Se pudesse voltar ao passado, diria à Dedê para aproveitar bastante os pais, que morreram tão cedo! Daria a ela conselhos importantes, que nunca me preocupei em falar. Teria sofrido menos com o lar desestrurado que tive, porque saberia que, no futuro, cada um segue o seu caminho e muitos não se importam com você. Teria me desapegado mais das pessoas e brincado bastante. Não deixaria de me mudar para os Estados Unidos, aos meus 14 anos de idade, por medo de deixar minha mãe. Teria olhado em frente, conhecido pessoas novas, um idioma novo... Teria construído minha própria independência financeira. 
Mas se pudesse voltar, verdadeiramente, acho que escolheria o dia em que caí. Quando deixei o ser mais importante de toda a minha história de vida: Deus. Vestiria de novo aquele uniforme azul e branco e O buscaria com fervor. Porque hoje eu sei, que depois que se saí da presença d'Ele, forma-se uma barreira do mal para que você não volte mais. E também descobri que se estivesse lá, poderia ter confiado mais, deixado de lado essa maldita ansiedade. 
Teria cuidado do meu jardim, para que as borboletas viessem até a mim. Não teria perdido tanto tempo correndo atrás de mariposas. E hoje, eu teria alguém que me chamasse para orar, que lutasse comigo. Que me ligasse sentindo saudade e me respeitasse como à igreja. Porque ele seria escolhido por Deus. Eu teria sido escolhida, e não o contrário. Por isso, não precisaria ficar implorando, descontroladamente, por um pouquinho de atenção. Minha vida hoje não seria mais ou menos.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Asfixia

Sou uma velha senhora em um rosto jovem. Sou o coração sensível na couraça da mulher que batalha. Um baú blindado com bronze, que se farta com seu próprio peso. Carrega em si uma alma leve, nobre, vazia. Se alimenta de lágrimas e de felicidade. Sou as ondas que vibram na firmeza da voz. Sou as ordens, a tirania. Sou o amplificador. Faço da poesia a marcha. Da marcha, a antipatia. Não sou ninguém, porque me escondo do mundo. Me escondo do mundo, porque ele me ignora. Por isso, me calo. Me asfixio no sangue dos pregos que em mim perfuraram. Um dia, se tornará tinta. Me sustentarão na parede. Faço arte. Logo, a dor que me mata, me ressucitará.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Administração: ciências humanas.




Que passamos, quase sempre, mais tempo no trabalho que em casa, já sabemos. E esse universo vai muito além das atividades profissionais. Aos meus (quase) vinte e sete anos, estou há dez na mesma empresa. Paralelamente, tive a oportunidade de passar por outros lugares: estágios, setores públicos, assessorias e televisões. Cada qual com suas peculiaridades, mas, de um modo geral, todas me fizeram ter a mesma ideia desse ambiente diversificado e, contraditoriamente, similar.
Não é possível prever com que tipo de pessoas vamos compartilhar essa carga horária que nos exigem para a remuneração mensal. Entretanto, alguns personagens acabam se tornando peças-chave desse enredo: o fofoqueiro, o tímido, o competente, o despojado, o falso, o puxa-sacos, o arrogante... Há quem tenha dois ou mais desses adjetivos. Mas eles estão ali, firmes na indescritível metamorfose humana.
É fato que uma unanimidade pacífica em uma empresa (principalmente as maiores) é um objetivo difícil. Nós, como pessoas, temos concepções, aprendizados e vivencias diferentes. Temos culturas diferentes. Naturalmente, ocupamos cargos diferentes. E essa é a questão fundamental para grande parte dos conflitos internos no ambiente trabalhista. A possibilidade de crescer profissionalmente acaba se tornando a busca primordial dos funcionários com maiores ambições. Há quem procure o sucesso, há quem faça disso a razão para se alcançar melhores condições financeiras, mas há aqueles que acabam ultrapassando valores pessoais por tornarem a conquista, uma forma de poder. E é aí que mora o perigo.
Patrões, empregados, subordinados ou empregadores. Não importa o termo. A relação entre as partes é primordial para desencadear ou prevenir problemas de relacionamento entre os colaboradores que acabam por diminuir a produtividade e, consequentemente, gerar prejuízos financeiros que se estendem a ambos: menos lucro, salários menores. Certa vez me disseram que, mais importante que a comunicação, é a supervisão das tarefas e acompanhamento de relatórios. Engana-se quem pensa assim.
Administração de empresas não é ciências exatas – ela constitui a categoria de humanas. Apesar de estarmos no século XXI, ainda não lidamos com robôs. A evolução tecnológica ainda depende diretamente do operário humano e este é passivo de comunicação. Muitas empresas já se atentaram para isso. Há aqueles que contratam jornaslistas graduados para avaliar o desempenho interno, emissão e recepção de informações e assessorar os interesses da empresa ao público externo. Não apenas gastam-se fortunas para isso, mas, eu, particularmente, já encontrei diversas instituições que exigem pós graduação para preencherem essas vagas.
Na minha breve e recheada caminhada profissional, notei que os setores públicos possuem menos problemas de relacionamento entre os servidores. Razão que acredito  se tratar do fato de que, nesses lugares, não há disputa por cargos superiores. A inserção do funcionário, na maioria das vezes, é feita por concurso público. A tal “cadeia da selva” é inexistente para eles. Não é preciso “matar” para sobreviver. Não é preciso romper ou ultrapassar limites que incluem respeito e hierarquia. Em contraponto, o desempenho desse trabalhador costuma ser menor – pelo fato da ausência de perspectivas e, é claro, pela dificuldade de exoneração.
Enquanto continuo nos setores privados, tento, efetivamente, lidar com as situações desagradáveis do proletariado. Mas, uma coisa tenho aprendido: fofoca só existe porque ouvido não é estéril, arrogância só existe porque não há quem dissemine a humildade, puxa-sacos só existe por há aquele que o recebe, só há falta de comunicação onde semeiam-se ilhas e poder só se torna poder, porque há quem ceda cargos de confiança para aqueles que têm ausência de valores. Grande parte disso vem do pico da pirâmide. Talvez fosse a hora de cortar o mal pelas pontas.

sábado, 14 de julho de 2012

O grito


Silêncio. Vácuo negro, sombrio e sem vida. Um tremor que se espalha, pouco a pouco, pelas ondas sonoras que circulam entre as entranhas da alma. É o sussurro profundo que geme, se encolhe e afaga as paredes do coração. É a arte de Van Gogh que mistura as tintas na tela, o óleo no dom, o pincel no sentimento e se expira pelos poros do descontentamento. Não importa o anos que transcorram, a fama que se imponha ou a conexão que se disponha, "o grito`, de Van Gogh,é o reflexo da surdez dos ouvidos que o cercavam ou a mudez dos lábios que o possuiam. São os limites vencidos, o tom que voou pelas formas da existência. Não tenho a estrutura de Picasso, nem a leveza de Da Vinci... Mas tenho o grito. Esse mesmo rosto desmoldado, assustado e fervente de clamor. Não tenho o nome, nem as cores. Tenho as letras. E o som abafado que as dou. Não há quem o possa ouvir. Não tem que o possa ver. Jamais será fruto de admiração. Mas a alma, em prosas, é extamente isso. Um mero pedido de socorro - tão imaginário quanto eu.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sem luz


Todos os dias, quando me levanto, escolho uma fantasia e aconchego minha alma entre os panos que me encobrem. Meu rosto, meu cheiro, meu medo e minha fragilidade se escondem entre as plumas da máscara da minha projeção. Tenho fama de dramática, antipática, depressiva e anti-social. Tenho fama de mimada, calada, rica, sem graça, sem vida... Tenho fama de ninguém, também. Cá estou, entre as letras dessa baboseira tola, atoa. Cá estou no trabalho dos outros, de passagem, sem maldade, traçando um caminho desgovernado e sem orientação. Cá estou, tentando ainda, sendo ainda e procurando... Alguém a quem não encontrei. Algo que não consigo ter. A mulher que não sei ser. Minhas paredes são como os jogos de espelho: me enchem, me diminuem. Me refletem, mas não me medem. Não existo, mas estou ali. Como a estrela que brilha, mas já se apagou.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

W.O para a vida


Não sei se a impotência é o principal sintoma da fraqueza, ou se a debilidade, em estado evoluído, nos faz impotentes. Perguntei-me, por alguns instantes, o que é isso que se passa aqui, nesse interior desgostoso, cheio de dúvidas e ressequido. Nada, além de mim mesma. Nada, além da mesmice que eu sou. Talvez a impotência seja isso: não poder, não conseguir, não querer – não sair do lugar. Por isso me ative a ela. Eu não posso, não consigo, não mais quero – nunca sai do lugar. Dei walkover para a vida: desisti.

sábado, 23 de junho de 2012

Ausente


A vida parou. Ou fui eu? Paramos – a vida e eu.
Acordei e não havia novidades. Tudo estava inerte. O mesmo emprego, o mesmo marido, a filha de sempre – e a vida também.
Os amava ainda. Pelo menos ao marido e a filha. Mas perdi o tesão pela vida e ao emprego eu não queria mais.
Me troquei e não havia novidades. As roupas eram as mesmas e os sapatos também. Estavam novos ainda. Mas havia perdido a estima.
Trabalhei e não havia novidades. Ainda era invisível. Estava tudo ali, menos eu.
Fui dormir e não havia novidades. O marido estava lá e a filha no quarto ao lado, mas a vida estava ausente. Eu não sonhava mais.

terça-feira, 19 de junho de 2012

O sonho que tive esta noite


Caminhava em um breu, pela avenida Cristiano Machado, quando fui surpreendida por um assaltante. Voltava da igreja com apenas algumas moedas nas mãos, um celular no bolso e uma mochila vazia. Por um momento me lembrei que podia voar. Não precisava estar ali – eu era diferente. Retirei meus pés suavemente do chão e pairei pelo ar, envolvida numa estranha sensação de liberdade e insegurança. Descer significava me encontrar com a ameaça armada da violência urbana e subir conotava num apavorante cerco de fiação elétrica que estranhamente sobrepunha minhas dimensões. Havia um limite entre o céu e a terra, havia um limite de altitude, velocidade e direção. Era preciso estar ali, no meio de tudo isso, sem demasiada ambição e desistência. Me aplainei nesse trajeto enquanto minha mente se afundava nesse sonho avassalador. Era como uma mensagem da vida: é preciso ter disciplina, não desejar tanto acima e não retroceder. Ir à igreja não me impede de ter afrontas, o mundo é escuro e existem teias por todos os lados. Mas sou diferente. Eu posso voar.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Seu Juvenil e eu


Ontem pela manhã, enquanto trabalhava, fui surpreendida por um senhor alegre, me chamando de Julinha. Não sou do tipo comunicativa e não tenho o costume de sair fazendo amigos por aí – pelo contrário. Me dividi entre a estranheza da situação e a vontade súbita de descobrir, enfim,  onde aquela pessoa simpática me conhecera, ao ponto de esbanjar tamanha intimidade. Não foi muito difícil, afinal, ele sabia – e me explicou com a maior facilidade. O tal “seu” Junvenil (uma colega de trabalho me ajudou com o nome) compartilhou comigo, há exatos dez anos, aulas de técnico em informática.
Um curso chato, que tomou dois meses dos meus sábados – é o que me lembro. E me lembro ainda de um senhor que, bastante interessado, enchia o professor de perguntas, atrasava as aulas e me rendia um tempo livre para me arrastar nos jogos de paciência. E é aí que entra a ironia da vida. Os resmungos que expeli e as vezes em que repudiei, comigo mesma, aquele senhor de idade avançada que buscava tão somente vencer, me tomaram um dia inteiro de reflexão.
_ Larguei a informática, me contou sorridente. Agora, estou me formando em engenharia civil, no UNI BH. É que já trabalho na área, precisava do diploma , explicou.
 E eu, do outro lado do vidro, por um instante percebi que os limites iam além da informática, do curso e de mim.  
_ E você, ainda está aí? Ele quis saber.
Sim, estou. Na mesma cadeira, no mesmo emprego, carregando a bagagem daquele cursinho de informática que fizemos, pensei. Conquistei um diploma de jornalismo, mas ainda estou aqui.
E o velho senhor, cujo nome esqueci no mesmo dia, tinha a memória melhor que a minha. Aquela adolescente que outrora o xingou pela mente, anda meio esquecida também. Amanhã, se o vir novamente, não saberei quem é. Mas não me esquecerei que o mundo dá voltas – somos nós que ficamos inertes.

sábado, 5 de maio de 2012

O que os outros pensam de mim?

"Você é tímido, mas os outros o consideram arrogante. Por que, afinal, existe sempre uma lacuna entre a forma como nos enxergamos e como as pessoas nos veem?" Inicia-se a fabulosa matéria de capa escrita por Rafael Tonon, na revista Vida Simples deste mês. A razão por eu ter pagado nada menos que doze reais no exemplar? Meu excessivo sincronismo com a chamada principal: A pessoa que você acredita ser não é a mesma que o mundo enxerga.
_ Minhas amigas te acham metida. Minha mãe dizia, inapropriadamente, na minha infância retraida. Não sei se o comportamento é hereditário mas hoje passo a mesma coisa com a minha filha. Nas apresentações da escola é a única que não dança e as palhaçadas típicas da idade só estão presentes quando o círculo de pessoas tem um alto grau de intimidade. E isso é ruim. Eu sei, porque sofro. Não é algo que queria ter passado pelos genes. Daí minha paixão pelas letras - uma forma irrestrita de expressão, uma liberdade incondicional que me permite ser, falar e ilustar o retrato da minha alma. 
Sempre me chamei de "cabeça dura de miolo mole". Hoje, aos 26 anos, ainda me permito nomear assim. Sou a essência da fragilidade humana aconchegada em uma casca dura. Não tenho facilidade de entrosamento social mas isso não me extingue ter carinho com as pessoas - um afago interno, pessoal e inexprimível. Por isso sempre carreguei a fama de chata. Os sapatos que me calçam não compreendem o tamanho dos meus pés. Poupo palavras, mas não poupo amor. 
Hoje é um dia que eu queria ser diferente. Queria abrir meu peito com faca e revelar ao mundo o que se passa aqui. Mas ainda acho que isso pouco importa e, talvez, essa seja uma das razões por eu ter criado um mausoléu para a minha alma - por acreditar piamente na irrelevância da minha existência.
Certa vez ouvi, de forma irônica, meu irmão dizer que "me diminuo o tempo inteiro" e isso o dava preguiça. Em mim também, pensei. Mas sou pequena demais para dizer a ele. E pequena demais para que me vejam. E ainda menor para que consiga mostrar quem sou eu. E isso, meu caro, dá pigritia.
O trabalho é o lugar onde passamos a maior parte do nosso tempo vital. E não era de se esperar que fosse também o local onde a relação essência e aparência fosse mais difícil. Estamos em um tempo onde grande parte dos problemas cotidianos nas empresas são "resolvidos" pelos meios eletrônicos. Desde uma conversa formal a um problema intangível, são resolvidos por e-mails, chats ou sistemas de comunicações digitais. As pessoas não se importam mais em ouvir e isso, cada vez mais, tem me feito cavar um buraco profundo nesse eu desconhecido que há dentro da minha imagem rude.
Às vezes digo que não me importo com o que as pessoas pensam e, de fato, há um quê de irrelevância no "achismo" absoluto. Carrego um conflito diário pela imagem fidedigna de mim enquanto há quem, facilmente, se consolide pela aparêcia efêmera de uma face pré-moldada. E isso me faz ver que a identidade exposta deve ser preservada e o conceito que as pessoas fazem sobre nós ajuda a nos constituir mas, cabe encerrar com a colocação de Tonon quando diz: o que não vale é perder a autenticidade em busca de uma aprovação irrestrita.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Pés no chão


Num desses momentos de nostalgia me lembrei das árvores que subi na infância (muitas árvores, por sinal). Lá do alto conseguia enxergar além dos montes, cruzava fronteiras, voava, pairava pela grande imaginação dos pequenos olhos de criança. Não era dificil conhecer o mundo, os passos eram curtos mas os sonhos imensos o suficiente para me fazer sair dali. Muitas cabanas de folha de bananeira se tornaram mansões e grandes pratos cozinhei nas minhas panelinhas de aço inox. Fazemos um projeto paralelo da realidade sem, de fato, conhecermos as restrições dessa brincadeira no cotidiano adulto. E hoje, um pouco mais crescida e com as mesmas utopias de duas décadas atrás, sinto falta de desenhar minha própria história, desfazer os erros, criar os enredos e mudar os finais quantas vezes achar necessário. Troquei o sabor das comidas de galhos secos e a fragilidade das paredes dos bananais pelo cheiro palpável e os tijolos concretos, mas deixei o horizonte infinito pelas limitações do que eu posso tocar. Sonhei ser médica e ter um Fiat Uno. Sonhei muito, sonhei pequeno. Cresci demais - mais que os meus sonhos. Sou proporcionalmente maior que eles, mas não posso alcança-los. Meus pés estão no chão e meus sonhos pelo ar.

terça-feira, 17 de abril de 2012

confiança

Observei no sinal uma senhora que se aventurava entre os carros, com passos frágeis. Um rapaz, educamente, estendeu-lhe os braços, oferecendo ajuda, mas a idosa, temerosa, se encolheu com gesto defensivo. Tão raro quanto ser gentil hoje em dia, é conseguir confiar. E a pobre senhora estava certa. A nobreza do gesto não supera mais a insegurança que nos cerca.

sábado, 14 de abril de 2012

irmãos

Depois que temos filhos, começamos a perceber com mais maturidade os erros e acertos dos nossos pais. Tento, cautelosamente, evitar aquilo que tenha me afetado e realizar o que tenha me feito bem. Muitas vezes reflito no passado, na infância, e procuro entender parte dessa trajetória que me trouxe até aqui. Nossos atos hoje são eternamente responsáveis pela humanidade de amanhã. De tudo isso, aprendi que educar é preciso e que ser rígido nos ajuda a formar adultos melhores. Percebi que dizer não é muito importante, principalmente quando feito no momento certo e da forma necessária. Mas o que mais me chamou a atenção foi a maneira como um lar estruturado pode ser fundamental para uma existência plena no futuro. Notei que alguns pedaços da nossa história podem se perder com o tempo e que a família, acima de qualquer outra coisa, deve ser ensinada como o bem mais precioso que possuimos. Isso eu aprendi com a vida. E passei a sentir falta de um segundo filho quando me lembrei dos meus piques, das brigas e da cumplicidade que tive com meus irmãos nos meus primeiros anos - e a suma importância que isso teve para mim. Foi quando pude ver que "éramos três" e hoje já não somos mais. Lembrei-me das lágrimas que derramei quando li "Éramos seis" e conclui que, para alguns, a morte não é a responsável pela perda. Há amores que nos deixam, amigos que se afastam, irmãos que nos esquecem, ainda vivos, porque talvez o amor não fosse sólido o suficiente para ser preservado. Ou talvez, meramente, esteja no canto da prateleira, guardado. Faz parte desse conto. Esse é um erro que decidi não transportar para a minha nova geração. Porque a saudade que sinto é tamanha, que pretendo criar uma barreira de vidro que una os corações dos meus filhos. Nos meus critérios da maternidade inclui um item: que sejam irmãos.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Arte

A vida é como um sopro. Ela vem, ela vai. Ela aquece, ela refresca. Traz e leva. Fecunda sementes e desfaz plantações. Hoje sou a fragilidade, apenas isso. Sempre sonhei ser como a árvore: firme e soberana. Sou, entretanto, a simples pluma do jardim - nem bela, nem forte. Tenho me desfeito no hálito fétido da existência. De concreto só me há a inconsistência. Talvez alguém se esbarre com os fragmentos da esperança e coloquem-nos em um quadro para que me vejam. Sou pequena, suave, comum... Mas tenho arte.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Anciã



Não costumo temer a velhice nem sou do tipo de mulher que se preocupa com as rugas do rosto, pelo contrário. Minhas marcas de expressão, que surgem timidamente com o passar dos anos, representam toda a luta de uma história e a beleza sutil da maturidade que se aproxima. Sempre acreditei que a segurança e a força que possuímos em nosso interior é capaz de sobressair-se entre a fragilidade física que o tempo determina. Minha experiência de vida, inclusive as negativas, me serviram de aprendizado e as exibo como um troféu, jamais com o repúdio da ausência da juventude. Envelhecer é um dom. O lamentável mesmo é perdermos a pureza da infância e graça do perdão da criança que apanha e retribui com um sorriso imaculado. Disso eu sinto falta. Seria perfeito se nos tornássemos sábios anciãos e pudéssemos perpetuar o coração que outrora era livre de tamanho lamaçal.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Metalinguagem




Passei toda a minha vida implorando a atenção das pessoas. Nunca fui de fazer graças ou promover espetáculos para que pudesse ser notada. Ainda nova construí um casulo ao redor da minha alma e me escondi ali. De um jeito ou de outro gritava por socorro, mas as paredes grossas que me cercam abafavam todo o som que se rompia do meu interior. O tempo passou e não mudou muito em mim. Ainda mantenho minha vida entre muralhas que eu mesma construí. Às vezes percebo que esse egoísmo de euforias e tristezas me poupa da rejeição e me afasta do carinho das pessoas. Há dias em que penso que estar presa em mim mesma tem corroído minhas células, pouco a pouco, como um câncer – sou o próprio mal que me enfrenta pelos cantos. Não sei muito bem o que tenho e em qual proporção esse afastamento voluntário me isola das pessoas. Mas admito que muito já precisei de um colo de mãe e não tive, em muitas ocasiões quis um abraço de um irmão e não encontrei e já quis, várias vezes, um conselho sábio de pai, mas ele não estava ali. Hoje me pergunto se foram pequenos gestos dolorosos que me recolheram em um estado defensivo permanente ou se minha excessiva prontidão à batalha me fez ficar assim. Mas sei que tenho uma casca dura e um interior que se desfaz pela sua inconsistência. Amo veementemente, protejo cuidadosamente e me dedico inteiramente àquilo que me é importante. E disso nunca tive retorno. Ainda espero uma bajulação sincera, um olhar que acaricia o rosto e um bom dia, por mais insignificante que possa parecer, que me faça ter, verdadeiramente, uma semana diferente. Sou ainda a mocinha romântica do interior, sob a pele da mulher madura, moderna, que guia sua própria vida com tamanha independência. Sou a menina acanhada que não se sai muito bem nos diálogos com desconhecidos e sou, também, aquela que escreve sobre si, na inútil esperança que alguém possa enfim saber que EU ESTOU AQUI.