segunda-feira, 28 de junho de 2010

De quem é a culpa?

E então, de quem é a culpa?
Outro dia parei, e refleti nas palavras do técnico Dunga, em sua coletiva após o transtorno com a poderosa rede Globo. Não coloco em questão os palavrões despejados pelo técnico, extremamente sem sentido, sem respeito e sem compostura de alguém que representa um país em um campeonato esportivo como a copa do mundo. O que me chamou a atenção foi ouvi-lo dizer que "para mim, é mais uma oportunidade para mostrar ao meu pai o que aprendi com tudo o que ele me ensinou. Que tem que ter posição, coerência, transparência, dignidade. E pedir desculpas quando erra." Sim, pedir desculpas quando erra. Não me importa se foi para a torcida, para a Globo, para o jornalista. Pedir desculpas quando erra, é a chave da minha reflexão. Hoje postei um conto magnífico do Artur Azevedo, que li aos meus 17 anos de idade, e jamais consegui esquecer. Ele retrata a busca incessante pelo poder, pela posição, pela razão. A maneira como quase sempre assumimos um erro para ganharmos prestígio, e usamos desse próprio erro para despejarmos em alguém nossas frustrações pessoais, nossa falta de humildade, com o intuito de mantermos nossa pose de poderio e competência vã. Daí a razão dessa insanidade que temos vivido no trânsito, no trabalho, na família. É que despejamos de cima para baixo toda a ignorância que nos dão. Repassamos mais os fatos que os artefatos. Reproduzimos o que recebemos e não o que produzimos. E no final, não é em nós que a humildade está. É no pobre cão, que recebe os chutes e ainda lambe graciosamente os pés que o agrediram, porque o amor, apenas, lhe é suficiente. O poder não está no cargo que ocupamos, no direito que temos de exercermos a crueldade ou exigirmos com rigor àqueles que nos são subordinados. A humildade não consiste no fato de reconhecer com palavras uma atitude indevida, mas em aceitar solenemente que a repreensão foi cabível, e fazê-la de aprendizado e amadurecimento. Se a terra não fosse fértil, fofoca não daria frutos, soberba não daria posição, estupidez não daria sofrimento. Temos de esterelizar nossa alma.
De quem é a culpa?
De quem não sabe assumir a própria culpa.

Aonde vamos?


De cima para baixo

"Naquele dia o ministro chegou de mau humor ao seu gabinete e mandou chamar o diretor - geral da secretaria.
- Estou furioso! - exclamou o conselheiro. - Por sua causa passei uma vergonha diante de sua majestade o imperador! O senhor mandou-me na pasta um decreto de nomeação sem o nome do funcionário nomeado!
- É verdade, passou-me, não sei como isso foi...
(...)
O ministro deu-lhe as costas e encolheu os ombros, dizendo:
- Bom, mande reformar esta porcaria.

O diretor geral saiu, fazendo muitas mensuras, e chegando no seu gabinete, mandou chamar o chefe da 3ª seção que o encontrou fulo de cólera.
- Estou furioso! Por sua causa passei por uma vergonha diante do senhor ministro!
- Por minha causa?
- O Sr. mandou-me na pasta um decreto sem o nome do funcionário nomeado!
E atirou-lhe o papel que caiu no chão.
-Queira vossa senhoria desculpar, Sr. diretor...são coisas que acontecem... havia tanto serviço... e todo tão urgente...
(...)

O chefe da 3ª seção retirou-se confundido e foi ter à mesa do amanuense que tão mal copiara o decreto:
- Estou furioso senhor Godinho! Por sua causa passei por uma vergonha diante do Sr. diretor geral.
- Por minha causa?
- O senhor é um empregado inepto, desidioso, desmazelado, incorrigível! Este decreto não tem o nome do funcionário nomeado!
E atirou o papel que bateu no peito do amanuense.
- O expediente foi tanto que não tive tempo de reler o que escrevi!
(...)

Acabado o serviço, tocou a campainha.
Apareceu um contínuo.
-Por sua causa passei por uma vergonha diante do chefe da seção!
- Por minha causa?
- Sim, por sua causa! Se você ontem não tivesse levado tanto tempo a trazer-me o caderno de papel imperial que lhe pedi, não teria eu passado a limpo este decreto com tanta pressa que comi o nome do nomeado!
(...)

O contínuo saiu dali e foi vingar-se num servente preto, que cochilava no corredor da secretaria.
- Estou furioso! Por tuda causa passei pela vergonha de ser repreendido por um bigorrilhas!
- Por minha causa?
- Sim, quando te mandei ontem buscar na portaria aquele caderno de papel imperial, por que demoraste tanto?
- Porque...
- Cale a boca! Isto aqui é um andar muito direitinho, entendes?
(...)

O preto não redarguiu.
O pobre diabo não tinha ninguém abaixo de si, em quem pudesse desforrar-se da agressão do contínuo; entretanto, quando depois de jantar, sem vontade, no frege-moscas, entrou no pardieiro em que morava, deu um tremendo pontapé no seu cão.
O mísero animal que vinha alegre dar-lhe as boas vindas, grunhiu, grunhiu, grunhiu, e voltou a lamber-lhe humildemente os pés.
O cão pagou pelo servente, pelo contínuo, pelo amanuense, pelo chefe de seção, pelo diretor-geral e pelo ministro! "

Artur de Azevedo - Contos Escolhidos

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Momento

Muito já chorei, muito já sofri, muita angústia vivi, mas não fui privada de momentos inesquecíveis, pessoas especiais, felicidades eternamente relembráveis. É que cada vez que estamos para baixo, com o ego sofrido e a mente desesperançosa, pensamos que os limites estão cerrados, e que não há como escapar. Em minha vida, já chorei de dor, já tive muitas gripes, já precisei tomar soro na veia e fazer cirurgia. E em cada uma delas pensei que nunca havia vivido dor tão grande como aquela. Já chorei por amores não correspondidos, já briguei com amigas, perdi pessoas importantes que cruzaram meu caminho. E ainda assim, a tristeza que tive ou a dor que senti, são memórias vagas em meus pensamentos. Tudo isso que sofremos, que vivemos e pensamos ser angustia permanente, não passa de uma ventania que sopra e arrepia a pele. E quando a ventania cessar e o sol se exibir expledoroso nas alturas, lamentaremos o frescor do vento que partiu. A vida é um recorte de momentos. Nada se eterniza, senão o que é importante relembrar.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Não me importa a ladeira que eu suba, o frio que eu sinta ou o desânimo que me acometa. O que não posso é olhar para trás. Quanto maior o topo, maior a ventania. O cansaço só aparece quando já percorremos caminho suficiente para nos aproximar de nossos objetivos. Eu vou vencer.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

Clarisse Lispector

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Lú,

O tempo passa. Sei que daqui a alguns (poucos) anos, estará dando seus primeiros rasantes na vida. Cairá. Alguns tombos serão mais fortes que os outros. E eu, estarei como espectadora. Claro, sempre estarei apta a ajudar. Minhas mãos estarão sempre prontas, mas nem sempre será o melhor. Os tombos são grandes professores. E apesar de tudo o que já aprendi com os meus, sei que vê-la dar seus tropeços doerá muito mais em mim do que todas as dores que eu já vivi. Fico aqui, me lembrando de quando fui para o hospital, com uma barriga gigante... Um jejum que quase me matou de tanta sede... Mas nada foi maior que a ansiedade de te ter ao meu lado, em meus braços... Um bebezão, cheia de pelinhos pelo corpo, ainda tão frágil e pequena.... 14 de junho de 2008, 8:37 da manhã, minha vida nunca mais seria a mesma. Sei que não entende essas palavras, mas ainda assim as escrevo para você, simplesmente porque sei que você existe. Porque sei que está ali, dormindo com toda a pureza que um ser humano pode ter. Porque sei, que acordarei em cada noite da minha vida para te cobrir, e com esse ritual maluco que tenho, colocarei as mãos em seu peitinho, tentando sentir sua respiração, como faço desde que veio ao mundo. Porque sei, que minhas noites jamais serão como antes, porque sei que preciso estar atenta para que mal algum te acometa.
Filha, só Deus sabe o que há em meu peito, e como esse amor não se compara a nenhum outro. Estava aqui, olhando essa foto, e me lembrando de seus movimentos dentro de mim. Quando te tiraram da minha barriga, foi doloroso me acostumar sem você, virando, de um lado para o outro, em seu cantinho de aconchego. Sabia que estava ali, que era perfeita, mas o elo que nos fazia uma só havia se rompido. As vezes me pego pensando nesses momentos que só eu sei que tivemos, e como foram bons! Cada vez que você mexia, meu coração se apalpava, sim, você estava bem!
Deus sabe como te amei antes mesmo de saber que estava em meu ventre. Hoje te vejo andando de fraldinha, correndo pela casa e gritando "mamãe"!!! Vejo que o tempo realmente passa. E breve será uma menininha linda, e então uma moça de corpo formado, uma mulher de cabeça-feita.... E minha menininha de fraldinhas não correrá mais pela casa e talvez nem me chame mais de mamãe. E sei que lamentarei todos os minutos, todos os segundos que não pude estar com você. Estou aqui, lutando contra os minutos para postar no blog antes da meia noite, porque durante todo o dia estive fora, trabalhando, estudando.... E são os últimos minutos dessa data... Sim, seu aniversário. Minha menininha. Minha pequena. Te amo muito filha. E por mais que eu tente fazer tudo certo, sei que erro e ainda vou errar muito. Só espero que meus erros não superem meus acertos. Que consiga te dar pelo menos um pouco de maturidade, honestidade, nobreza, e quem sabe um tantinho de felicidade também....
O bebezinho que cabia na palma da minha mão cresceu. Hoje me dá dor nas costas, escolhe suas próprias roupas, sua própria comida, e o canal que quer assistir na tv. E só tem dois aninhos, apenas. Não queria que o tempo passasse. Queria te ter para sempre aqui, nos meus braços, me chamando pelos cantos, se escondendo de mim.
Tudo o que posso fazer é desejar que Deus te abençoe. Que te livre desse mundo tão perigoso e cheio de coisas ruins. Que Deus te ponha na palma das mãos dEle, e que te faça ser, para sempre a criança dos olhos dEle.
Te amo muito filha. Você é meu amor maior.
Mamãe

terça-feira, 8 de junho de 2010

Lições.... Para o dia de hoje... Para a vida.

"A humildade não está na pobreza, não está na indigência, na penúria, na necessidade, na nudez e nem na fome. A humildade está na pessoa que, tendo o direito de reclamar, julgar, reprovar, e tomar qualquer atitude compreensível no brio pessoal, e ainda assim abençoa."

"Desprezo da parte de alguém é a aula da vida para aquisição de humildade"

(Emmanuel "Pérolas de luz" )

"O mar é grande porque se coloca abaixo do nível dos rios"

(Autor desconhecido )

"Nunca se viu egoísmo que não se queixe de ingratidão"

(Emmanuel "Pérolas de Luz")

domingo, 6 de junho de 2010

Tudo



Filha....
Tudo...
Minha...
Vida...

Andando em circulos


As vezes sinto que estamos andando em circulos. Não há como quebrar paradigmas. Não há como sucumbir as muralhas da mente, nem do coração. Não nos damos a chance de ser feliz. Somos prisioneiros de nós mesmos, feito cachorros que tentam abocanhar seus próprios rabos. Quem haverá de nos livrar desse cárcere? As mesmas mãos que nos aprisionam.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Aqui

Estava aqui, agora, bem longe e ao mesmo tempo simplesmente "aqui"! Nesse mundinho fechado, pensando, trabalhando, aqui.... E então, me chega o Tião (sim, aquele velho amigo cinegrafista que citei um dia desses).... Veio me fazer um elogio. Descobriu que tenho uma filha, e isso o fez admirar.
_Trabalhar em dois empregos, estudar a noite, e ainda uma filhinha pequena?
_Sim, bem pequeninha mesmo, vai fazer dois aninhos.
E contei das muitas lágrimas que derramo no volante, enquanto deixo para trás a pequena em prantos, os bracinhos esticados e carinha de abandono.
_Precisando de mim, para qualquer coisa nessa vida, seja aqui, seja lá fora, basta chamar o Tião. O trabalho dignifica, você vai superar tudo isso, Deus nos permite passar por isso mas a conquista vem a frente. E você, sempre com esse sorriso no rosto...
E então agradeci.
A ele, pela admiração sincera, pelas palavras sábias. A Deus, pela oportunidade, pelo trabalho, pela dignidade.
E por estar aqui.