sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Primavera
domingo, 21 de agosto de 2011
Escolha
Um dia você se dá conta dos seus erros e decide corrigi-los. Resolve fazer a coisa certa, resgatar a essência da sua origem – a pureza, força e retidão da infância. E você se entrega de corpo, alma e espírito. Mas então, você começa a perceber que talvez seja muito tarde para retomar valores que independem de você. E você percebe que é hora de mudar seu objetivo, traçar novos caminhos, perseguir focos diferentes.
Você passa a entender que algumas pessoas nunca te pertenceram de fato e que todo o amor que você dedicou algum dia, talvez não tenha representado nada. Então você se torna uma pessoa mais sensata, menos utópica e um tanto perseverante. Você trabalha mais, aproveita menos, sonha menos. Em contrapartida, passa a acreditar em si mesmo, em Deus. Você sente seu corpo cansado, sua mente exausta. E mais a frente, alguns meses para a graduação, alguns anos para a prosperidade, algum tempo para a felicidade e uma vida para a sabedoria.
Você passa seus finais de semana trabalhando, até de noite. Quase não vê sua filha. E quando te sobra tempo, acorda bem cedo para ir à igreja – é preciso se lembrar de oferecer à Ele um pouco do que temos também. Você se arruma, arruma a casa, arruma o café, arruma a criança. E ela, acaba escolhendo o vestido mais amarrotado do armário. Você passa a roupa também. Passa na padaria. Enfrenta uma fila gigantesca para deixá-la na escolhinha da igreja, e uma nova fila para retirá-la de lá. A filha chora, esperneia, todo mundo olha. Ela quer ir embora dali. E você, depois, a leva no shopping.
Ela pede batata, você compra batata. Ela pede pizza, você compra pizza. Ela quer sorvete, você compra sorvete. Ela quer ir ao parque, você diz que não, ela chora, todo mundo olha. Ela quer pirulito, ela chora, todo mundo olha. Você aproveita o “passeio” para comprar umas peças de roupa para ela – se você não fizer isso ela não terá o que vestir. E você perde mais um tempo do seu raro instante de folga na fila, para pagar as compras. Enquanto isso, você começa a se preocupar com o que deve no fim do mês, e no mês que vem, e no ano que vem também. E por falar em comprar, é dia de supermercado.
Novas filas, novos afazeres. E a pequena, é claro, contribuindo com um desnecessário coco na calça. Então você tem que se preocupar com o mau cheio da criança, as sacolas, a conta. E você sobe dois andares carregando o peso e a filha “cagada”.
Você a repreende, pega a fama de carrasco e ela chama pelo pai – ele é o amigo dela, o grande herói de tudo isso. Você dá nela um banho e decide colocá-la na banheira, com dezenas de brinquedos. Quem sabe assim você consegue descansar um pouco. E quando você começa a respirar, ela faz coco na sua banheira toda. Novo banho, nova limpeza.
Aí você se lembra que as compras ainda estão no chão da sala, você precisa guardá-las. E quando está quase acabando, você deixa os ovos caírem no chão da cozinha. E quando você termina de arrumar tudo, a pequena grita que fez coco de novo (putz, está com dor de barriga?!). Aí você a limpa e resolve escrever um pouco. Enquanto isso, os vizinhos fazem um churrasco. O som batuca alto, as vozes se misturam a estafa que sussurra no peito. As mãos fedem ovos, as unhas fedem fezes. E você pensa... Sim, a vida é feita de escolhas.
Algumas pessoas preferem a vida mais fácil, o caminho mais curto. Outras optam pelo trajeto mais longo, entretanto, mais seguro. Escolher a Deus, a família e ao trabalho, não é algo que se possa lamentar. E você decide olhar para a frente, ainda que te tenham abandonado no meio de tudo isso, você é capaz de prosseguir sozinho. Tudo passa. Menos a justiça. Não há por que retroceder. Vai dar tudo certo.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Seja feliz
domingo, 14 de agosto de 2011
Fé
O filho perguntava, insistentemente, ao pai, o que era a fé. O pai sempre tentava achar uma maneira de descrever à criança o significado da palavra, mas nunca conseguia encontrar uma maneira clara para isso. Em uma ocasião, ele arrumava as ferramentas no alçapão e o filho, lá de cima, o gritou. Então, ele decidiu aproveitar o momento para mostrá-lo como funciona a fé. Ele o ordenou que pulasse em seus braços e o menino, amedrontado, respondia: pai, eu não te vejo, está muito escuro aí em baixo. E o pai, bastante confiante, disse: Mas eu te vejo, perfeitamente. Confia em mim que eu te seguro. O pequeno, então, saltou. O pai o amparou e lhe disse: filho, isso é a fé. Você não sabia onde eu realmente estava, não podia me enxergar, nem me tocar. Ainda assim você acreditou, teve atitude e se lançou – e eu te protegi.
E assim, eu tenho aprendido que a fé é exatamente aquilo que não podemos ver. É sabermos que, ainda que tudo pareça turvo e perigoso, estamos seguros. É acreditar que há muito mais para nós do que possamos projetar. Venho percebendo que o medo ou a escolha do palpável, quase sempre, nos impedem de dar um passo a frente. É preciso ter coragem, ter certeza de que vai dar certo e de que, para isso, não é preciso termos provas – basta nos lançar. Tenho esvaziado, pouco a pouco, essa carga ansiosa que trazia dentro de mim. E pelo caminho, venho percebendo que as preocupações, quase sempre, nos impedem de apreciar as peculiaridades que a vida nos oferece. Há muito mais que um trânsito intenso, que um casamento desfeito ou um dia extremamente cansativo. Há, sobre mim, um céu resplandecente e, sobre ele, um Deus forte, fiel e poderoso. Ao meu redor existem pessoas carentes como eu, que necessitam tão somente receber um pouquinho do carinho que espero tanto e não encontro. Por que não, dar ao invés de receber? Por que não, plantar as flores, ao invés de lamentar a escassez da primavera? Chega uma hora, que é preciso mudar. É preciso pensar um pouco menos, sentir um pouco menos e fazer um pouco mais. Em um momento de nossas vidas, precisamos ouvir a voz que nos convida, ter certeza de que, ainda que me pareça tão distante e imperceptível, é preciso abrir os braços, deixar soprar a brisa no rosto e nos lançar em queda livre. Porque, finalmente, lá em baixo, haverá um solo firme, um braço estendido, um sorriso cativante. Ele estará lá, me dizendo: filha, eu te chamei e você me ouviu. Jamais te deixaria esmorecer. Ainda que não possa me tocar, eu estou aqui. Deixa-me te guiar, confia em mim. Isso se chama fé.
domingo, 7 de agosto de 2011
Eutanásia
Fico aqui, chorando por horas. A pequena dorme, na cama – segura em seus sonhos de princesa. Vejo os minutos passarem, na tela do computador. Tem virado rotina esse ritual de lágrimas, o moletom molhado. Já nem sei se quero mais falar com alguém sobre isso – só quero sentir, aliviar a dor do peito no meu espaço particular, nessa atmosfera vazia. Nem quero mais alguém, nem ninguém. Não quero mais me apaixonar, não quero mais me arrumar, nem quero mais pensar se quero ou não tudo isso.Hoje é um dia diferente. Mais uns minutos, apenas, e terei oficialmente, 26 anos. Não sei por que completamos uma idade sem que tenhamos o que comemorar. Deveria ser proibido por lei. Ou ao menos, deveriam criar uma portaria que legalizasse a ausência profissional em dias de aniversários tristes. Apareceria terça-feira, sem que ninguém se lembrasse dessa existência perturbadora que me tornei.
Estou aqui, tentando me encorajar para tudo isso, para essa vida, esses novos doze meses que me surgem, ainda mais árduos e pesarosos. As pessoas não entendem, tenho fama de quem reclama e só faz palavras de fadiga. Essa é uma parte da necessidade que sentimos de boicotar a alma, no lisonjeio dos paliativos que arrumamos – alguns, na bebida, outros nas drogas e eu na escrita. O melhor de tudo isso, é que acabo sendo “socialmente aceitável”. Do tipo que não falta o trabalho, nem se joga na cama num marasmo depressivo. Não tomo remédios, sou absurdamente contra ansiolíticos. Prefiro ver as coisas de perto, encarar a vida de frente e, nos intervalos da batalha, afundar-me nesse oceano que jorra do peito. Submirjo meu corpo moribundo nesse lamaçal de dor, prendo a respiração, mordo meus braços, tento exteriorizar o sofrimento que grita por socorro dentro de mim. E no final, me canso, apago as luzes da casa e adormeço.
Amanhã é um novo dia. Um novo de tudo isso aí. Um novo aniversário, uma nova jornada, uma nova angustia, uma nova tentativa. Não sei como algumas pessoas sobrevivem com tanta facilidade. Mas tenho tentado bastante. Quero chorar o quanto for preciso, clamar o quanto for necessário, viver o quanto for suficiente. Quero amar, até que a dor o esgote, ou que eu faça uma eutanásia dessa lamúria toda. Cravaram-me o peito e me mantém aqui, me arrastando pelo fio que me prende – ainda que eu saiba, que não há mais chance pra mim.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Ausência

De repente, você não tem mais a quem contar as chateações do trabalho, no final do expediente.
Você não tem um ombro para chorar, ou uma pessoa que simplesmente te ouça, quando você só quer jogar conversa fora.
Você passa a rir sozinha, enquanto assiste a uma comédia na TV.
Não tem com quem dividir as guloseimas, nem discutir o final do filme de suspense.
Você não compartilha mais as gargalhadas das manotas que presencia.
Não tem como quem repartir o sucesso, nem com quem comemorar as conquistas.
Você passa a chegar em casa e a comer qualquer coisa.
Deixa de ter os mimos de quem te levava um café na cama e já não pode dormir até mais tarde no domingo.
Você guarda para si as brigas no trânsito, aprende a resolver os problemas, tem de lidar com o mecânico, administrar as finanças e cuidar do supermercado.
Você se vê olhando, sozinha, pacotes de viagens para as férias - não há com quem repartir as ideias.
A cama parece ainda maior - a ausência de alguém se mistura ao encolher das pernas, no cantinho da parede.
O despertador toca e você procura, entre as frestas dos olhos, a quem chamar.
Você não tem a quem mostrar seus resultados médicos, nem tem por que se alegrar por eles.
A longevidade deixa de ser uma felicitação e passa a se arrastar como um dever de casa.
Você não tem a quem dar boa noite, nem bom dia, e os dias já nem são tão bons assim - as noites, muito menos.
Você já nem se importa mais com o cara que te paquera na rua, porque o mais importante mesmo, era a pitadinha de ciúmes que sentiam de você.
Você não tem a quem chamar de amor, nem a quem enviar torpedos - não há qualquer emoção no toque do seu celular.
Você deixa de ter aniversário, aniversário de casamento, de namoro, dia dos namorados, natal e ano novo.
Agora, você só quer olhar para a frente. Ao lado, não há nada - nem ninguém.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Renovo
O que mais me espanta, não é a vida – nem Deus. Esses são os menos culpados nessa história toda. Nunca tive dificuldade em assumir os fracassos das minhas decisões – pelo menos não para mim, no meu silêncio particular. A vida é uma terra fértil. Deus é o sol que fecunda as sementes, a água que rega as raízes, a madrugada que cultiva o orvalho. Somos integralmente responsáveis por aquilo que plantamos. Muitas vezes me peguei na ânsia de cavar mais fundo, me esconder nas profundezas desse jardim sem cores. Tenho, entretanto, ceifado frutos coerentes, buscando amadurecer os caules sem que as aves de rapina os devorem. Não sei quão duradoura será e semeadura e se algum dia prosperará . Tenho salpicado os grãos pelas beiradas da estrada, ainda que saiba que, algumas plantas, necessitam de anos para se consolidar. Ainda que não me sirva de abrigo, as árvores que eu criar serão sombra para a paixão em um dia ensolarado. Que ela seja, pelo menos, o auxilio do renovo – que não me pertença, mas seja parte de mim.
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