sexta-feira, 28 de maio de 2010

Há de ter um lugar...

Há de ter um lugar, onde o tempo há de parar
Onde a paz se faz real e o irreal amor não há não
Sei que há pois Deus diz e eu não posso duvidar
Mesmo que eu não possa imaginar (...)
(...)Há de ter um lugar onde lágrimas não rolarão (...)
(Kim - Santo lugar)

Transição

A vida é um complexo transitório. Iniciamos tudo isso no ventre de nossas mães, com milímetros, centímetros... Tudo extremamente desconhecido e novo. Toda essa adaptação é digna de um processo doloroso, que se chama aprendizado. O instestino sofre ao se acostumar com alimentos novos. Os tombos são inevitáveis nos primeiros passos. As primeiras palavras soam tortas. As primeiras atitudes merecem ser corrigidas pelos pais. O primeiro beijo nem sempre é o mais perfeito. E então surge o primeiro namorado, que nem sempre será o último. E o casamento abre as portas para uma maré de adaptações de convivência e criações distintas, e estas, nem sempre são superadas. E então, nos tornamos pais, sofremos com a falta de experiência. Abdicamos nossas vidas e nos cansamos disso também. Separamo-nos. E então sofremos. E um novo trajeto se abre, novas adaptações, novas fases, novos aprendizados... Novas dores, novos amores, nova transição... Até que passe... E se faça de novo.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

seja vivo enquanto dure...

Hoje não fui à aula. Não tive. Não estive. Cheguei em casa e me submergi em uma banheira de água quente com uma casca de sangue fervente. Inundei meus poros, fiz cair a pressão, afoguei a gripe como um assassino em seu ápice de fúria. E cá estou, despejando o resto dessa amargura que sufoca a alma. Nada de tão cruel ou tão anormal que não se enquadre nesse século de anormalidades. Nada que supere a selva, a elfa. Não me sinto bipolar, nem depressiva, nem agressiva talvez. Sou apenas uma jovem cansada. Sou apenas um pouco cheia demais do que posso suportar. Sou apenas um pouco vazia demais do que deveria ter. Do que gostaria de ter. Sou apenas uma perda brusca de tempo, em busca de um tempo que não sei se um dia poderei desfrutar. A infância da minha filha. A beleza que será sucumbida pelas rugas da fadiga. E então já não mais terei, nem serei, nem poderei. Não verei esse frio na barriga que não quero morrer sem reviver. O fogo da paixão, o sentimento da emoção. A vergonha do primeiro encontro, o prazer do primeiro beijo. Essa conquista diária que pensei existir. Bora Bora. Embora.... Não faça tanto... Não tente tanto... Não seja assim, utópico demais, porém relevante. Que o tempo não passe, que o tempo pare... Que o tempo volte, que o tempo vá... Que me elabore o amor... e com ele me traga a paixão... Que seja vivo enquanto dure... e que dure, enquanto estiver vivo... Que me faça viver.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Viva!

As vezes a vida nos surpreende....
Esquecemos essa correria fadigante, paramos, e mergulhamos na simplicidade do sorriso, na pureza da infância, nos detalhes dessa arte emoldurada da vida....
E notamos o quanto é importante ter amigos...
E como um simples gesto pode significar alguma coisa para alguém.


E percebemos que podemos sonhar....
Que os contos ainda existem... Que as fadas e os doendes estão ali, cercados da magia de uma imaginação...



Passamos, mesmo que por um momento breve, a degustar desse paraíso pessoal: a vida e eu e nada mais.




E o mais engraçado de tudo isso, é a maneira como os olhares conseguem prender imagens sem que o tempo possa desfazer. Ela está ali, cercada de cores, cercada de esplendor. Tudo perfeito demais. O verde e o azul, a pátria! E esse ar que afaga o rosto nos mostrando que estamos ainda mais vivos do que poderíamos imaginar...


... Que ainda podemos ser criança...

E que existem motivos....


Para a felicidade simples....





Sim, ela existe. Está ali, recheada de cor e sabor. Recheada de dengo, recheada de apego, recheada de amor. A vida pode ser ao mesmo tempo rígida e também exuberante. Não é preciso ir longe para notar tudo isso....






Basta perceber.
Esticar os braços, abraçar verdadeiramente.
Ela está ali.
Viva. (!)










quinta-feira, 20 de maio de 2010

Do lado de lá

Um dia, queria saber como é ver a vida lá de cima. Queria estar nos palanques dos políticos, nos palcos dos artistas, nos altares dos louváveis. Queria poder estar no andar reservado, na mesa separada, nos sacos que tantos gostam de puxar. Queria um dia ceder favor, ceder dinheiro, ceder posição. Queria ensinar ao invés de aprender, falar ao invés de me calar, decidir ao invés de inexistir. Queria ver as câmeras do lado de lá. Queria formar e não ser formada, dormir sem pensar em contas, comprar, comprar muito. E então, trocaria de rosto, de carro, de casa e de posição. Deixaria essa alma cansada pra trás e me tornaria uma pessoa melhor. Não que a "elevação" me comprasse a nobreza de espírito, mas teria tempo para polir meus conceitos pessoais. A rigidez da alma e a aspereza de espírito dependem muito do lugar que ocupamos no mundo. A vida é sempre vista de joelhos. Há os que estão ajoelhados, e os que estão de pé.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Motorista nessa terra de desordem


Motorista nessa terra de desordem

Lá vem o motorista nessa terra de desordem. Na rua, um pedestre parado, esperando o sinal abrir. Não está na calçada onde deveria, deve ter pressa em partir. Lá vem o motorista estressado, esperando a manobra do caminhão. E lá perto um ajudante manobrista, parece um malabarista. Mexe os braços, pára tudo. O que está atrás buzina, o que está na frete chinga, o que está do lado tenta passar. O caminhão estaciona, o motorista nervoso aciona, e tudo volta a andar. E então, mais a frente, o catador de papéis. Andando calmamente, parece não se importar. E lá vem o motorista, tentando não mais parar.
O taxista, atrás de seu ganha-pão, encosta ali mesmo na pista. O passageiro entra, a família também. Guarda as malas, guarda a bolsa, o periquito e o papagaio. O motorista vai pro lado, tentando se desviar, o motoqueiro surge do nada, feito uma bomba a estourar. Se arrisca entre um e outro, tentando não se atrasar.
O ônibus do ponto a frente, está cá na pista da esquerda, e lá vem o trocador, com o braço pra fora, pedindo o famoso favor. É preciso deixar passar, se não quer se estrapolar, um gigante e um pequenino, não há como confrontar.
E lá vem o motorista, dessa terra de desordem, passa aqui, passa acolá, tentando não se zangar. Passa as ruas e as pessoas, veículos e motociclista. Cada qual em seu destino, sem saber quem vai chegar.
Juju

Escolha

Últimamente tenho me pegado em um ímpeto de melancolia que nem eu mesma sei por que. Ou sei, talvez. A diferença toda é que tenho dado mais atenção a coisas que antes me passavam despercebidas. Tenho sentido falta da minha filha, tenho sentido falta de resultados, tenho sentido falta de mim. Estou em mais uma daquelas bifurcações da estrada, quando tudo parecia perfeitamente sistemático. As placas, a distância, o destino. Hoje parei, pensei, cogitei. Mas ainda não escolhi.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Aprendendo

Hoje chorei. Há pouco chorei.
Sair de casa e deixar a filha chorando, com os bracinhos esticados, nos passando uma terível sensação de abandono....
Trabalhar, trabalhar feito louca e trabalhar novamente...
Aturar... (...)
Por um momento fiquei olhando esse espetáculo, esse show de descontentamentos...
Cigarros, gritos, soberbas... (...)
Onde chegaremos afinal? Quem queremos ser, aliás?
Nem mesmo nós sabemos. Não sabemos sequer o que somos.
Fui questionada por um cinegrafista hoje se tenho aprendido em meu estágio.
Sim, muita coisa - respondi. A mais preciosa delas se chama paciência - completei.
"A paciência é saber esperar calmamente e alegremente aquilo que lhe é devido", disse-me o Tião. E finalizou dizendo: "Os grandes guerreiros são feitos pela convivência com tiranos".
Não sabia o que dizer. Não havia o que dizer.
Silêncio... (...)
Será que tudo isso vale a pena?
Não sei.
Hoje não foi um bom dia.
Amanhã talvez, o que me é devido esteja mais próximo.
Amanhã talvez, seja mais guerreira que fui hoje.
Amanhã os tiranos estarão lá.
Amanhã talvez, eu aprenda um pouco mais.

sábado, 8 de maio de 2010

Dia das mães











Eu sabia, ela estava ali. Ela me dizia. Me chamava pelas entranhas, como o batucar do peito que já soava junto a alma. Foi a mais maravilhosa notícia, a mais preciosa conquista. Eu sabia, nada seria como antes. Seria deliberadamente diferente. Não mais dormir, não mais sentir a aquietação do peito, ter uma preocupação constante e um medo aterrorizante de que algo ruim aconteça. Uma angústia recompensante, um desconforto prazeiroso. O tão dito "padecer no paraíso". Ainda me lembro dos 5 milímetros que existia em meu ventre, não possuía nem braços, nem pernas, nem nariz, nem formato, mas tinha um pequeno coração que batia valente, me dizendo que estava viva, que já existia em mim. Todo esse trajeto desgastante da gravidez foi o mais ansioso de toda a minha vida. Nunca, em meus 24 anos de vida, vi 9 meses se passarem tão lentamente como estes. Talvez pudesse ter aproveitado mais essa união misteriosa da gestação, se não tivesse tanta pressa em tê-la em meus braços. Uma pressa conflitante com o medo que tinha de ter um parto prematuro. Mais uma dessas contradições da maternidade. E hoje, cá estou, chorando o tempo que se foi, chorando o tempo que tenho vivido, chorando o tempo que ainda vou viver. Porque ser mãe é mesmo assim, um sentimento magnífico e inexplicável. Queremos que o tempo passe, que o tempo fique, que o tempo volte. Queremos o passado, o presente e o futuro dos filhos. Queremos os filhos todinhos pra gente, pra vida nada. Queremos os filhos eternizados, guardados, embrulhados em nossos colos aconchegantes. E quando vemos, a vida os leva, a vida os fazem sentir esse ímpeto de nostalgia, essa abundância de sentimento inacabável....
Mãe.......
Não há o que dizer.
Perco as palavras.
Deixo de existir.
Feliz dia das mães.






sexta-feira, 7 de maio de 2010

Sentida

Estou aqui, nas amarras da vida. Trabalhando, estudando, lamentando. Para quê? Ou melhor, para quem? Para nada, nem para ninguém. Para me esvaziar ainda mais desse vazio. Minha maior recompensa é chegar em minha casa e ser agraciada com o sorriso sincero de minha pequena jóia. Meu maior tesouro, menos guardado e menos dedicado. Sinto saudades... Sinto.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Não sabemos viver


Mas...

Desejamos muito ter filhos, mas passamos mais tempo com os outros do que com eles...
Queremos uma casa nova, mas ficamos mais tempo na rua do que no lar...
Sonhamos com um marido que nos ame, e gastamos todo o nosso tempo despejando nossa raiva ao nosso derredor...
Ajuntamos nossas economias para o carro do ano, e poucas são as vezes que saímos para dar um passeio com a família...
Não queremos envelhecer, mas gastamos nossa juventude por dinheiro, e no final, já não temos mais forças para desfruta-lo...
Colocamos todo o nosso empenho em nossa realização profissional, e o desgaste físico é superior ao prazer de se fazer o que gosta....
Temos medo da morte, mas não sabemos viver.

domingo, 2 de maio de 2010

A lucidez perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer,
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que,
que faço dessa lucidez?
Sei também que essa minha lucidez
pode se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que,
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação -
resignada à realidade
essa clareza de realidade
é um risco

Apagai pois, minha flama, Deus
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me de novo a consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto
eu consisto
Amém.

(Clarisse Lispector)

Não quero consistir
de modos possíveis
quero me alcançar
e me afastar da lucidez vazia
essa clareza de realidade
é um risco
eu não consisto
eu não consito
Amém

Juju

Romance

Procurei alguém...
Ele era bonito, tinha olhos azuis.
Procurei alguém....
Ele era alto, tinha cheiro másculo.
Procurei alguém...
Ele era inteligente, bem sucedido.
Procurei alguém...
Ele era médico e economista.
Procurei alguém carinhoso, bondoso, cheio de amor para mim.
Procurei...
Alguém?
Li romance demais.
Acordei.

Inocência

Ela vai crescer
E vai ser como nós....
Que fique a imagem singela
a face bela
a educação desejável...
Que fique pelo menos com uma parte da inocência...
E todo esse resto de maldade
Se torne em lição...
que a faça virtude e sobrevivência