domingo, 9 de junho de 2013

Respeito

     Desde a infância, quando me perguntavam de qual qualidade mais gostava, eu dizia: o respeito. Ainda hoje penso que o respeito é, de todas, a maior virtude que uma pessoa pode ter. Conviver com as diferenças não é uma tarefa fácil, mas pode ser capaz de mudar o mundo, disseminar o amor, criar a paz, abrandar conflitos e perpetuar gratidão.
     O corpo humano é o maior exemplo que temos neste aspecto. Me admiro com a sintonia perfeita com que órgãos, tecidos, ossos e membros conseguem trabalhar - ainda que todos sejam diferentes e únicos, são essenciais para o bom funcionamento do conjunto todo. Nenhum trabalha sozinho. Nenhum é menosprezado ou tratado com insignificância. 
     O cérebro, apesar de dotar-se de inteligência e liderança, não se manteria vivo sem um coração. Os dedos, apesar de inúmeros, são, por sua vez, diferentes - cada um com suas próprias digitais e igualmente importantes para uma boa realização de tarefas. O corpo humano se respeita e, portanto, se ama. O corpo humano se respeita e, portanto, é grato pela cooperação de cada parte. O corpo humano se respeita e, portanto, vive em paz. O copo humano se respeita e, portanto, sofre quando algo adoece - ainda que seja uma pequena célula, uma minúscula enzima, um microscópico anticorpo...
     Respeitar-se nem sempre significa estar de acordo com que o outro faz. Eu, particularmente, não concordo com relacionamentos homossexuais. Entretanto, nunca desrespeitei quem tem esse tipo de opção sexual. Tenho amigos gays e amigas lésbicas, e amo a todos eles tanto quanto aos heterossexuais. Não discuto ou tento impor minha opinião e isso, para mim, se chama respeito. Pensar diferente e aceitar diferenças. Aceitar que minhas crenças religiosas nem sempre serão condizentes com as das demais pessoas. Enquanto eu tiver espaço para demonstrar minha fé, a usarei. Quando minha fé ultrapassar os limites da tolerância e aceitação do próximo, me recolherei.
     Muitos religiosos são vistos com maus olhos por causa do fanatismo que, afinal, é uma grande representação do desrespeito daqueles que tentam impor, de todas as formas, doutrinas espirituais pela goela das pessoas. Não há melhor amostra de Deus do que o próprio exemplo. E seria bem mais fácil se esse tal respeito, sendo praticado junto a um comportamento semelhante daquilo que se prega, dissesse todas as palavras que os insistentes e intolerantes fanáticos tentam dissuadir por aí... 
     Sou do tipo que não acredita no padre que ensina sobre o casamento, nem no pobre que prega sobre a prosperidade ou no doente que fala de um Jesus que cura... E tão pouco daria ouvidos a alguém que, tendo manifestado total desinteresse em sua pregação, insiste em me dizer palavras que ultrapassam o limite do respeito e passam a se tornar incomodo. Deus, por si só, já é o maior exemplo do respeito. Ele não nos obriga a fazer o que é certo, tão pouco a buscá-lo ou obedece-lo. Pelo contrário. Deixou-nos o ensinamento. Mostrou-nos o que é certo e errado e, então, deu-nos o livre arbítrio para escolhermos aquilo que quisermos. Somos livres, apesar do amor que Ele sente por nós. Simplesmente porque, apesar de ter dado a própria vida em prol dos seus filhos, respeita suas decisões.
     
     Escrever

     Gosto muito de escrever. Já senti a escrita como parte de mim - maneira sutil e excessivamente perturbadora de mostrar meus sentimentos. Já escrevi textos jornalísticos, acadêmicos, cômicos, poesias... Mas, alguns deles trouxeram uma entonação de profunda dor e tristeza. Jamais escrevi para dramatizar minha vida ou expor minha intimidade, pelo contrário. Escrever, para mim, é uma espécie de ar, calmante, força de expressão... Se não escrevo, não falo. Se não falo, guardo. Se guardo, sofro. Portanto, escrever alivia parte de algum sofrimento meu. 
     Há algum tempo venho deixando gradativamente de escrever. A principal razão é a falta de respeito. Não quero público, nem plateia... Somente um espaço aberto onde pudesse abrir minha alma. Se os que ali passassem se interessassem, teria prazer no aconchego de um olhar ou na carícia de uma mensagem deixada carinhosamente... Mas se, de todos, nada ficasse manifesto, não me importaria. Porque escrever me faz pulsar e, para isso, é preciso, tão somente, de mim mesma. Caí na bobeira de usar redes sociais para isso... E, pouco a pouco, percebi que esse tal respeito não existe ali também. 
     As pessoas preocupam-se muito mais em criticar o que se escreve do que em oferecer ajuda, conversar, se calar, afastar-se... Há algo no ser humano que o incita a julgar, opinar, ultrapassar limites... Seria tão mais fácil tentar entender o que se passa e, ainda que não concordássemos, cercar o espaço em torno do sofrimento alheio para que os envolvidos colham da suas próprias decisões. Essa foi uma das razões pela qual exclui, pesarosamente, boa parte das coisas que postei em redes sociais. Nossas manifestações de alegria, tristeza ou meros dizeres sem qualquer valor, levam às pessoas apenas o encorajamento ao desrespeito e disso eu não preciso mais.

 Respeitando

     Já fui taxada de egoísta por não me intrometer na vida dos meus familiares. Não sou imune a dor de outrem, tão pouco ao que sentem ou passam meus parentes e amigos. O que nunca concordei foi com a intromissão e o desrespeito. Não cabe a mim avaliar ou apontar o certo e o errado nas decisões amorosas das pessoas, salvo quando elas próprias me pedirem opinião. 
     Não cabe a mim condenar ou julgar as escolhas feitas ou muito menos tentar dissuadir o que foi construído para que prevalecesse aquilo que EU acredito. Cabe a mim, no máximo, alertar, caso perceba algo mais grave e, após isso, apoiar. Somos adultos, maduros o suficiente para tomarmos nossas próprias decisões, ainda que sejam erradas e incoerentes. E, independentemente do que aconteça, optarei pelo respeito. E isso significa estar de braços abertos quando algo der errado, oferecer meu colo e, novamente, apoiar. Apoiar, quantas vezes for preciso. Porque isso se chama RESPEITO. E respeitar não é interferir... É dar amor, semear a paz, cultivar gratidão... Essa é a razão pela qual admiro tanto essa palavra.




sábado, 17 de novembro de 2012

Patrimônio

Eu poderia escrever três ou quatro páginas inteiras que não consegueria descrever o que essa imagem diz sobre mim. Ou, pelo menos, o que eu sinto sobre ela. 
O olhar frágil, cheio de decepção, pedindo um abrigo, uma atenção efêmera, que seja. A chuva. A pequenez. A inércia. Ser ignorado, invisível. A ausência do laço afetivo, a injustiça. O apelo. A tristeza. A insignificância.
E isso me faz pensar na a irmandade. No amor. E isso me faz lembrar, refletir... Me faz sentir, profundamente, a cumplicidade que inexiste, o respeito que faz falta, o elo que não se formou. 
Às vezes penso se toda essa distância vem da diferença de sexo, de idade ou de um mero menosprezo eventual. São nessas horas que sinto uma vontade imensa de dar a minha filha uma irmã: que seja, acima de tudo, sua amiga, companheira para a vida toda. Ou que fosse um menino, portanto. Mas que se molhasse por ela, e vice-versa. 
Que ambos se agarrassem no temporal, se encolhessem sobre o guarda-chuvas e, de mãos dadas, enfrentassem. E tenho medo de não conseguir. Tenho um medo muito grande que ela (ou o irmão) se molhe também. E tenho medo que sofram, medo que se distanciem. Medo que não se ajudem.
Família, prioridades, princípios. É o que quero passar para os meus filhos. Não tenho dinheiro, mas tenho valores. Esse é o nosso maior patrimônio.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

leilão de mim

Me enfeitei para a vida, fantasiei minhas vestis, colori minha face e não havia plateia. Preparei, por anos, a peça: o protagonista, o romance e a utopia. Estudei as cenas e as falas. Fiz da minha vida um sonho enquanto, ao meu redor, havia um emaranhado de realidades. Esculpi a menina inteligente, guerreira e apaixonada, quando o mundo carecia apenas de um ser humano - ainda que sem cultura, de mero esforço e pouco sentimento.  

Acordei 27 anos depois. Sobrara o palco, nada mais. Não havia The New York Times, nem príncipe. Não havia irmão-heroi, nem mãe. Percebi que o colo gostoso da avó se perdera na infância e que as amigas da horta seguiram suas próprias caminhadas. Não escrevi um livro, nem fiz jus ao cargo que me deram. Os tijolos que ajudei a colocar no trabalho não me servem nem para proteger do sol. O J se perdeu na sua própria insignificância. Apagou-se da memória, como a doença de Pick... De novas lembranças têm se fartado: um baú de futilidades, cheio de cupins. O "G" do Gustavo, o "P" de muitos outros pês... O J da escuridão.

Eu estava ali: diploma na mão, aliança no dedo e a pequena do lado. Mas não havia razão. Nem credo. Nem vontade. Não havia enredo, nem ingressos, nem holofotes. Havia um rosto com pequenas rugas. Não havia sorriso. Há dias não os vejo. Nem os sinto também. É como se a alma estivesse chorando. E às vezes paro e olho ao meu redor, feito um leão ferido que procura sua força em algum canto perdido. Mas não há. Estou moribunda, por aí.

O tempo passa. Ele é rápido. Me perdi nos ensaios quando deveria atuar. De tudo, entretanto, soubrou-me o drama, mas este nada vale - como eu. Hoje queria leiloar minha vida: minha casa, minhas roupas, meu carro, meu estudo, meu emprego, meu salário, meu peixe, pais, irmãos, parentes e amigos. Levaria comigo a filha e o marido. E começaria tudo outra vez.

Que arremate o interessado, porque eu vendo o lote inteiro.

domingo, 7 de outubro de 2012

Chance

"O mundo vai muito além disso aqui" - eu dizia a uma funcionaria, dia desses. Muito alem... É o que me faz, tantas vezes, fechar os olhos e viajar por aí. Transporto minha alma pelas vielas de Venice, pelas alamedas gigantes das ondas Irlandesas, pelas tumultuadas avenidas indianas, pelos milenares pilares chineses... É a vida! Tão cheia de amores, sabores e cores. É a vida que passa como um moinho. E cá estou (ainda). Abrem-se os olhos e ainda estou aqui.
Nunca me importei com moda, beleza, salão... Tive uma infância difícil. Me consumi de livros, escrita e utopias. E corri, enlouquecidamente, gritando pelos becos, pedindo à vida uma oportunidade. 
Silêncio, somente isso, além do meu próprio eco. 
Queria, muitas vezes, ter nascido de novo, tido portas maiores - um acesso ao menos que me permitisse tocar. Me ofereci veementemente para a vida, como um ator que se candidata à peça e não é visto. Não tive patrocínio. Deixei pelos cantos da estrada a força, o empenho e a dedicação. Voltei. Não me deixaram ultrapassar o portão. Virei a curva da montanha mas não rompi as linhas do horizonte. E ele não é belo, não mais. É aqui, é isso...Não tive chance. Estou fadada.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Sem porquês



"Quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como", disse Vitor Frankl – psiquiatra judeu, autor da fabulosa obra “Em Busca de Sentido”. Essa não é a primeira vez que cito ou escrevo sobre o livro. Esta é, aliás, uma das minhas literaturas preferidas. Retrata, não apenas o cotidiano no campo de Auschwitz, mas, a necessidade de termos uma razão para continuarmos a viver. E é este o motivo pelo qual estou parafraseando hoje: meu esgotamento momentâneo do “sentido”.
Acredito que os “porquês” que adquirimos em nossa existência, são proporcionalmente inversos à nossa idade. Quando nascemos, precisamos aprender a andar, falar, escrever... E mais adiante, os primeiros namorados aparecem e, também, a vontade da menina-moça de casar. Talvez por isso, quando uma criança morre, há quem diga: tinha uma vida toda pela frente. Uma vida inteira de “sentidos” e “porquês”.
Criamos o sonho da maternidade (a mulher, como no meu caso), idealizamos os filhos nas bonecas, projetamos a profissão. Estudamos, aprendemos a dirigir, abrimos a primeira conta-corrente, perdemos a virgindade. Mas, e quando já fizemos tudo isso (ou, pelo menos, parte de tudo isso)? É como olhar um horizonte interrompido – nada mais há, senão dois palmos à frente de nós mesmos. Hoje acordei e já não tinha mais objetivos. Tenho uma profissão, um emprego, uma filha, um marido, uma vida de classe média brasileira. E talvez não passe disso mais.
Já houve quem me chamasse de ingrata. Muitos, aliás. Mas para um sonhador, passos limitados sempre serão um Auschwitz para a alma. Não que eu queira largar “tudo” O que tenho, sair feito uma adolescente desregrada pelo mundo... Mudar, apenas, bastaria. Mudar sempre, melhorar sempre, tentar sempre. Sou a dona de um espírito aventureiro, na excessiva responsabilidade precoce. Tenho ambição e tenho medo, tenho coragem e precaução.
Hoje, procurei um “sentido” e não o encontrei. Tenho um marido bom, não melhor a cada dia. Sou uma pessoa boa, não melhor a cada dia. Tenho um dinheiro bom, não melhor a cada dia. Tenho uma profissão boa, não melhor a cada dia. De tudo, apenas, me salva a filha: pequena, como a minha fé. Mas cheia de vida pela frente. Ainda cheia de “sentidos” e “porquês”. Talvez eu pudesse segurar na beirada dela, e tentar consumir os sonhos, que ela ainda nem criou, para abastecer minha resiliência. Mas deixo para ela esse acúmulo de bençãos – migalhas de razões não vão me tirar do lugar.
Talvez, aceitando, a vida fique menos pior. Sem sentido não há melhora, apenas conformismo e inércia. O jeito é aceitar as ervilhas da sopa, preparar os pés para os trilho gelados e se entregar ao tempo, ao meio, campo... O “como” viver só pode ser suportado se tiver “por que”. Não há enfrentamento se não houver razão, nem ascensão se não houver "porquês". Decidi viver com o que tenho e me bastar com o que posso ter. Não é o que as pessoas fazem?

sexta-feira, 21 de setembro de 2012


Tive um sonho estranho. Eu morria, vagarosamente. Ainda não me lembro como, nem por que. Parecia-me algum acidente qualquer. Pouco a pouco, vi minha alma despedindo-se. Lembrava-me da minha filha e de como ficaria com a minha ausência. E quanto mais eu pensava, mais distante ia ficando, inclusive da preocupação. Era como se a vida, os problemas e as pessoas, fossem deixando de me pertencer. Por um instante me vi entre a luz e as trevas e sorri quando senti que descansaria com Deus. Mas, de repente, fui abduzida por um breu. Era tarde, pensei. Estava condenada à escuridão. Abriram-se, então, os meus olhos. Era manhã. Meu coração pulsava, meu corpo estava quente. Ainda havia uma chance (ou várias, talvez). E isso é algo que se deva falar - enquanto se possa falar. Por isso, digo: ainda há tempo. É preciso aproveitá-lo.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Mais ou menos


 Hoje eu queria uma cabine do tempo. Entraria nela e faria tudo, absolutamente tudo, diferente na minha vida. Ainda não decidi onde queria voltar, nem quando. Tive uma infância difícil, mas tenho saudade dela também. Talvez, se tivesse uma chance, uma única chance que seja,  faria uma profunda reflexão do erro principal, que me levou a toda essa frustração. Não sei se foram os traumas, o amadurecimento excessivamente precoce, as dificuldades financeiras, as amizades ruins... 
Hoje, se estivesse lá, com a mesma cabeça que tenho agora e a vivência que adquiri, teria sido mais forte, pensado um pouco mais em mim e menos nas pessoas que eu amo. Teria curtido mais os piques e me preocupado menos com os problemas dos adultos, que ainda não me pertenciam. Voltaria no dia em que Ana Clara, minha prima, chegou na casa da tia Lia, e curtiria bastante, porque agora que eu  conheço a verocidade do tempo, sei que é estranho vê-la nas redes sociais vestindo roupa de festa, depois de tê-la visto nascer. Teria dito palavras de carinho aos meus irmão a todo instante, para conseguir cultivar a união que não se formou.
Se pudesse voltar ao passado, diria à Dedê para aproveitar bastante os pais, que morreram tão cedo! Daria a ela conselhos importantes, que nunca me preocupei em falar. Teria sofrido menos com o lar desestrurado que tive, porque saberia que, no futuro, cada um segue o seu caminho e muitos não se importam com você. Teria me desapegado mais das pessoas e brincado bastante. Não deixaria de me mudar para os Estados Unidos, aos meus 14 anos de idade, por medo de deixar minha mãe. Teria olhado em frente, conhecido pessoas novas, um idioma novo... Teria construído minha própria independência financeira. 
Mas se pudesse voltar, verdadeiramente, acho que escolheria o dia em que caí. Quando deixei o ser mais importante de toda a minha história de vida: Deus. Vestiria de novo aquele uniforme azul e branco e O buscaria com fervor. Porque hoje eu sei, que depois que se saí da presença d'Ele, forma-se uma barreira do mal para que você não volte mais. E também descobri que se estivesse lá, poderia ter confiado mais, deixado de lado essa maldita ansiedade. 
Teria cuidado do meu jardim, para que as borboletas viessem até a mim. Não teria perdido tanto tempo correndo atrás de mariposas. E hoje, eu teria alguém que me chamasse para orar, que lutasse comigo. Que me ligasse sentindo saudade e me respeitasse como à igreja. Porque ele seria escolhido por Deus. Eu teria sido escolhida, e não o contrário. Por isso, não precisaria ficar implorando, descontroladamente, por um pouquinho de atenção. Minha vida hoje não seria mais ou menos.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Asfixia

Sou uma velha senhora em um rosto jovem. Sou o coração sensível na couraça da mulher que batalha. Um baú blindado com bronze, que se farta com seu próprio peso. Carrega em si uma alma leve, nobre, vazia. Se alimenta de lágrimas e de felicidade. Sou as ondas que vibram na firmeza da voz. Sou as ordens, a tirania. Sou o amplificador. Faço da poesia a marcha. Da marcha, a antipatia. Não sou ninguém, porque me escondo do mundo. Me escondo do mundo, porque ele me ignora. Por isso, me calo. Me asfixio no sangue dos pregos que em mim perfuraram. Um dia, se tornará tinta. Me sustentarão na parede. Faço arte. Logo, a dor que me mata, me ressucitará.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Administração: ciências humanas.




Que passamos, quase sempre, mais tempo no trabalho que em casa, já sabemos. E esse universo vai muito além das atividades profissionais. Aos meus (quase) vinte e sete anos, estou há dez na mesma empresa. Paralelamente, tive a oportunidade de passar por outros lugares: estágios, setores públicos, assessorias e televisões. Cada qual com suas peculiaridades, mas, de um modo geral, todas me fizeram ter a mesma ideia desse ambiente diversificado e, contraditoriamente, similar.
Não é possível prever com que tipo de pessoas vamos compartilhar essa carga horária que nos exigem para a remuneração mensal. Entretanto, alguns personagens acabam se tornando peças-chave desse enredo: o fofoqueiro, o tímido, o competente, o despojado, o falso, o puxa-sacos, o arrogante... Há quem tenha dois ou mais desses adjetivos. Mas eles estão ali, firmes na indescritível metamorfose humana.
É fato que uma unanimidade pacífica em uma empresa (principalmente as maiores) é um objetivo difícil. Nós, como pessoas, temos concepções, aprendizados e vivencias diferentes. Temos culturas diferentes. Naturalmente, ocupamos cargos diferentes. E essa é a questão fundamental para grande parte dos conflitos internos no ambiente trabalhista. A possibilidade de crescer profissionalmente acaba se tornando a busca primordial dos funcionários com maiores ambições. Há quem procure o sucesso, há quem faça disso a razão para se alcançar melhores condições financeiras, mas há aqueles que acabam ultrapassando valores pessoais por tornarem a conquista, uma forma de poder. E é aí que mora o perigo.
Patrões, empregados, subordinados ou empregadores. Não importa o termo. A relação entre as partes é primordial para desencadear ou prevenir problemas de relacionamento entre os colaboradores que acabam por diminuir a produtividade e, consequentemente, gerar prejuízos financeiros que se estendem a ambos: menos lucro, salários menores. Certa vez me disseram que, mais importante que a comunicação, é a supervisão das tarefas e acompanhamento de relatórios. Engana-se quem pensa assim.
Administração de empresas não é ciências exatas – ela constitui a categoria de humanas. Apesar de estarmos no século XXI, ainda não lidamos com robôs. A evolução tecnológica ainda depende diretamente do operário humano e este é passivo de comunicação. Muitas empresas já se atentaram para isso. Há aqueles que contratam jornaslistas graduados para avaliar o desempenho interno, emissão e recepção de informações e assessorar os interesses da empresa ao público externo. Não apenas gastam-se fortunas para isso, mas, eu, particularmente, já encontrei diversas instituições que exigem pós graduação para preencherem essas vagas.
Na minha breve e recheada caminhada profissional, notei que os setores públicos possuem menos problemas de relacionamento entre os servidores. Razão que acredito  se tratar do fato de que, nesses lugares, não há disputa por cargos superiores. A inserção do funcionário, na maioria das vezes, é feita por concurso público. A tal “cadeia da selva” é inexistente para eles. Não é preciso “matar” para sobreviver. Não é preciso romper ou ultrapassar limites que incluem respeito e hierarquia. Em contraponto, o desempenho desse trabalhador costuma ser menor – pelo fato da ausência de perspectivas e, é claro, pela dificuldade de exoneração.
Enquanto continuo nos setores privados, tento, efetivamente, lidar com as situações desagradáveis do proletariado. Mas, uma coisa tenho aprendido: fofoca só existe porque ouvido não é estéril, arrogância só existe porque não há quem dissemine a humildade, puxa-sacos só existe por há aquele que o recebe, só há falta de comunicação onde semeiam-se ilhas e poder só se torna poder, porque há quem ceda cargos de confiança para aqueles que têm ausência de valores. Grande parte disso vem do pico da pirâmide. Talvez fosse a hora de cortar o mal pelas pontas.

sábado, 14 de julho de 2012

O grito


Silêncio. Vácuo negro, sombrio e sem vida. Um tremor que se espalha, pouco a pouco, pelas ondas sonoras que circulam entre as entranhas da alma. É o sussurro profundo que geme, se encolhe e afaga as paredes do coração. É a arte de Van Gogh que mistura as tintas na tela, o óleo no dom, o pincel no sentimento e se expira pelos poros do descontentamento. Não importa o anos que transcorram, a fama que se imponha ou a conexão que se disponha, "o grito`, de Van Gogh,é o reflexo da surdez dos ouvidos que o cercavam ou a mudez dos lábios que o possuiam. São os limites vencidos, o tom que voou pelas formas da existência. Não tenho a estrutura de Picasso, nem a leveza de Da Vinci... Mas tenho o grito. Esse mesmo rosto desmoldado, assustado e fervente de clamor. Não tenho o nome, nem as cores. Tenho as letras. E o som abafado que as dou. Não há quem o possa ouvir. Não tem que o possa ver. Jamais será fruto de admiração. Mas a alma, em prosas, é extamente isso. Um mero pedido de socorro - tão imaginário quanto eu.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sem luz


Todos os dias, quando me levanto, escolho uma fantasia e aconchego minha alma entre os panos que me encobrem. Meu rosto, meu cheiro, meu medo e minha fragilidade se escondem entre as plumas da máscara da minha projeção. Tenho fama de dramática, antipática, depressiva e anti-social. Tenho fama de mimada, calada, rica, sem graça, sem vida... Tenho fama de ninguém, também. Cá estou, entre as letras dessa baboseira tola, atoa. Cá estou no trabalho dos outros, de passagem, sem maldade, traçando um caminho desgovernado e sem orientação. Cá estou, tentando ainda, sendo ainda e procurando... Alguém a quem não encontrei. Algo que não consigo ter. A mulher que não sei ser. Minhas paredes são como os jogos de espelho: me enchem, me diminuem. Me refletem, mas não me medem. Não existo, mas estou ali. Como a estrela que brilha, mas já se apagou.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

W.O para a vida


Não sei se a impotência é o principal sintoma da fraqueza, ou se a debilidade, em estado evoluído, nos faz impotentes. Perguntei-me, por alguns instantes, o que é isso que se passa aqui, nesse interior desgostoso, cheio de dúvidas e ressequido. Nada, além de mim mesma. Nada, além da mesmice que eu sou. Talvez a impotência seja isso: não poder, não conseguir, não querer – não sair do lugar. Por isso me ative a ela. Eu não posso, não consigo, não mais quero – nunca sai do lugar. Dei walkover para a vida: desisti.

sábado, 23 de junho de 2012

Ausente


A vida parou. Ou fui eu? Paramos – a vida e eu.
Acordei e não havia novidades. Tudo estava inerte. O mesmo emprego, o mesmo marido, a filha de sempre – e a vida também.
Os amava ainda. Pelo menos ao marido e a filha. Mas perdi o tesão pela vida e ao emprego eu não queria mais.
Me troquei e não havia novidades. As roupas eram as mesmas e os sapatos também. Estavam novos ainda. Mas havia perdido a estima.
Trabalhei e não havia novidades. Ainda era invisível. Estava tudo ali, menos eu.
Fui dormir e não havia novidades. O marido estava lá e a filha no quarto ao lado, mas a vida estava ausente. Eu não sonhava mais.

terça-feira, 19 de junho de 2012

O sonho que tive esta noite


Caminhava em um breu, pela avenida Cristiano Machado, quando fui surpreendida por um assaltante. Voltava da igreja com apenas algumas moedas nas mãos, um celular no bolso e uma mochila vazia. Por um momento me lembrei que podia voar. Não precisava estar ali – eu era diferente. Retirei meus pés suavemente do chão e pairei pelo ar, envolvida numa estranha sensação de liberdade e insegurança. Descer significava me encontrar com a ameaça armada da violência urbana e subir conotava num apavorante cerco de fiação elétrica que estranhamente sobrepunha minhas dimensões. Havia um limite entre o céu e a terra, havia um limite de altitude, velocidade e direção. Era preciso estar ali, no meio de tudo isso, sem demasiada ambição e desistência. Me aplainei nesse trajeto enquanto minha mente se afundava nesse sonho avassalador. Era como uma mensagem da vida: é preciso ter disciplina, não desejar tanto acima e não retroceder. Ir à igreja não me impede de ter afrontas, o mundo é escuro e existem teias por todos os lados. Mas sou diferente. Eu posso voar.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Seu Juvenil e eu


Ontem pela manhã, enquanto trabalhava, fui surpreendida por um senhor alegre, me chamando de Julinha. Não sou do tipo comunicativa e não tenho o costume de sair fazendo amigos por aí – pelo contrário. Me dividi entre a estranheza da situação e a vontade súbita de descobrir, enfim,  onde aquela pessoa simpática me conhecera, ao ponto de esbanjar tamanha intimidade. Não foi muito difícil, afinal, ele sabia – e me explicou com a maior facilidade. O tal “seu” Junvenil (uma colega de trabalho me ajudou com o nome) compartilhou comigo, há exatos dez anos, aulas de técnico em informática.
Um curso chato, que tomou dois meses dos meus sábados – é o que me lembro. E me lembro ainda de um senhor que, bastante interessado, enchia o professor de perguntas, atrasava as aulas e me rendia um tempo livre para me arrastar nos jogos de paciência. E é aí que entra a ironia da vida. Os resmungos que expeli e as vezes em que repudiei, comigo mesma, aquele senhor de idade avançada que buscava tão somente vencer, me tomaram um dia inteiro de reflexão.
_ Larguei a informática, me contou sorridente. Agora, estou me formando em engenharia civil, no UNI BH. É que já trabalho na área, precisava do diploma , explicou.
 E eu, do outro lado do vidro, por um instante percebi que os limites iam além da informática, do curso e de mim.  
_ E você, ainda está aí? Ele quis saber.
Sim, estou. Na mesma cadeira, no mesmo emprego, carregando a bagagem daquele cursinho de informática que fizemos, pensei. Conquistei um diploma de jornalismo, mas ainda estou aqui.
E o velho senhor, cujo nome esqueci no mesmo dia, tinha a memória melhor que a minha. Aquela adolescente que outrora o xingou pela mente, anda meio esquecida também. Amanhã, se o vir novamente, não saberei quem é. Mas não me esquecerei que o mundo dá voltas – somos nós que ficamos inertes.

sábado, 5 de maio de 2012

O que os outros pensam de mim?

"Você é tímido, mas os outros o consideram arrogante. Por que, afinal, existe sempre uma lacuna entre a forma como nos enxergamos e como as pessoas nos veem?" Inicia-se a fabulosa matéria de capa escrita por Rafael Tonon, na revista Vida Simples deste mês. A razão por eu ter pagado nada menos que doze reais no exemplar? Meu excessivo sincronismo com a chamada principal: A pessoa que você acredita ser não é a mesma que o mundo enxerga.
_ Minhas amigas te acham metida. Minha mãe dizia, inapropriadamente, na minha infância retraida. Não sei se o comportamento é hereditário mas hoje passo a mesma coisa com a minha filha. Nas apresentações da escola é a única que não dança e as palhaçadas típicas da idade só estão presentes quando o círculo de pessoas tem um alto grau de intimidade. E isso é ruim. Eu sei, porque sofro. Não é algo que queria ter passado pelos genes. Daí minha paixão pelas letras - uma forma irrestrita de expressão, uma liberdade incondicional que me permite ser, falar e ilustar o retrato da minha alma. 
Sempre me chamei de "cabeça dura de miolo mole". Hoje, aos 26 anos, ainda me permito nomear assim. Sou a essência da fragilidade humana aconchegada em uma casca dura. Não tenho facilidade de entrosamento social mas isso não me extingue ter carinho com as pessoas - um afago interno, pessoal e inexprimível. Por isso sempre carreguei a fama de chata. Os sapatos que me calçam não compreendem o tamanho dos meus pés. Poupo palavras, mas não poupo amor. 
Hoje é um dia que eu queria ser diferente. Queria abrir meu peito com faca e revelar ao mundo o que se passa aqui. Mas ainda acho que isso pouco importa e, talvez, essa seja uma das razões por eu ter criado um mausoléu para a minha alma - por acreditar piamente na irrelevância da minha existência.
Certa vez ouvi, de forma irônica, meu irmão dizer que "me diminuo o tempo inteiro" e isso o dava preguiça. Em mim também, pensei. Mas sou pequena demais para dizer a ele. E pequena demais para que me vejam. E ainda menor para que consiga mostrar quem sou eu. E isso, meu caro, dá pigritia.
O trabalho é o lugar onde passamos a maior parte do nosso tempo vital. E não era de se esperar que fosse também o local onde a relação essência e aparência fosse mais difícil. Estamos em um tempo onde grande parte dos problemas cotidianos nas empresas são "resolvidos" pelos meios eletrônicos. Desde uma conversa formal a um problema intangível, são resolvidos por e-mails, chats ou sistemas de comunicações digitais. As pessoas não se importam mais em ouvir e isso, cada vez mais, tem me feito cavar um buraco profundo nesse eu desconhecido que há dentro da minha imagem rude.
Às vezes digo que não me importo com o que as pessoas pensam e, de fato, há um quê de irrelevância no "achismo" absoluto. Carrego um conflito diário pela imagem fidedigna de mim enquanto há quem, facilmente, se consolide pela aparêcia efêmera de uma face pré-moldada. E isso me faz ver que a identidade exposta deve ser preservada e o conceito que as pessoas fazem sobre nós ajuda a nos constituir mas, cabe encerrar com a colocação de Tonon quando diz: o que não vale é perder a autenticidade em busca de uma aprovação irrestrita.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Pés no chão


Num desses momentos de nostalgia me lembrei das árvores que subi na infância (muitas árvores, por sinal). Lá do alto conseguia enxergar além dos montes, cruzava fronteiras, voava, pairava pela grande imaginação dos pequenos olhos de criança. Não era dificil conhecer o mundo, os passos eram curtos mas os sonhos imensos o suficiente para me fazer sair dali. Muitas cabanas de folha de bananeira se tornaram mansões e grandes pratos cozinhei nas minhas panelinhas de aço inox. Fazemos um projeto paralelo da realidade sem, de fato, conhecermos as restrições dessa brincadeira no cotidiano adulto. E hoje, um pouco mais crescida e com as mesmas utopias de duas décadas atrás, sinto falta de desenhar minha própria história, desfazer os erros, criar os enredos e mudar os finais quantas vezes achar necessário. Troquei o sabor das comidas de galhos secos e a fragilidade das paredes dos bananais pelo cheiro palpável e os tijolos concretos, mas deixei o horizonte infinito pelas limitações do que eu posso tocar. Sonhei ser médica e ter um Fiat Uno. Sonhei muito, sonhei pequeno. Cresci demais - mais que os meus sonhos. Sou proporcionalmente maior que eles, mas não posso alcança-los. Meus pés estão no chão e meus sonhos pelo ar.

terça-feira, 17 de abril de 2012

confiança

Observei no sinal uma senhora que se aventurava entre os carros, com passos frágeis. Um rapaz, educamente, estendeu-lhe os braços, oferecendo ajuda, mas a idosa, temerosa, se encolheu com gesto defensivo. Tão raro quanto ser gentil hoje em dia, é conseguir confiar. E a pobre senhora estava certa. A nobreza do gesto não supera mais a insegurança que nos cerca.

sábado, 14 de abril de 2012

irmãos

Depois que temos filhos, começamos a perceber com mais maturidade os erros e acertos dos nossos pais. Tento, cautelosamente, evitar aquilo que tenha me afetado e realizar o que tenha me feito bem. Muitas vezes reflito no passado, na infância, e procuro entender parte dessa trajetória que me trouxe até aqui. Nossos atos hoje são eternamente responsáveis pela humanidade de amanhã. De tudo isso, aprendi que educar é preciso e que ser rígido nos ajuda a formar adultos melhores. Percebi que dizer não é muito importante, principalmente quando feito no momento certo e da forma necessária. Mas o que mais me chamou a atenção foi a maneira como um lar estruturado pode ser fundamental para uma existência plena no futuro. Notei que alguns pedaços da nossa história podem se perder com o tempo e que a família, acima de qualquer outra coisa, deve ser ensinada como o bem mais precioso que possuimos. Isso eu aprendi com a vida. E passei a sentir falta de um segundo filho quando me lembrei dos meus piques, das brigas e da cumplicidade que tive com meus irmãos nos meus primeiros anos - e a suma importância que isso teve para mim. Foi quando pude ver que "éramos três" e hoje já não somos mais. Lembrei-me das lágrimas que derramei quando li "Éramos seis" e conclui que, para alguns, a morte não é a responsável pela perda. Há amores que nos deixam, amigos que se afastam, irmãos que nos esquecem, ainda vivos, porque talvez o amor não fosse sólido o suficiente para ser preservado. Ou talvez, meramente, esteja no canto da prateleira, guardado. Faz parte desse conto. Esse é um erro que decidi não transportar para a minha nova geração. Porque a saudade que sinto é tamanha, que pretendo criar uma barreira de vidro que una os corações dos meus filhos. Nos meus critérios da maternidade inclui um item: que sejam irmãos.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Arte

A vida é como um sopro. Ela vem, ela vai. Ela aquece, ela refresca. Traz e leva. Fecunda sementes e desfaz plantações. Hoje sou a fragilidade, apenas isso. Sempre sonhei ser como a árvore: firme e soberana. Sou, entretanto, a simples pluma do jardim - nem bela, nem forte. Tenho me desfeito no hálito fétido da existência. De concreto só me há a inconsistência. Talvez alguém se esbarre com os fragmentos da esperança e coloquem-nos em um quadro para que me vejam. Sou pequena, suave, comum... Mas tenho arte.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Anciã



Não costumo temer a velhice nem sou do tipo de mulher que se preocupa com as rugas do rosto, pelo contrário. Minhas marcas de expressão, que surgem timidamente com o passar dos anos, representam toda a luta de uma história e a beleza sutil da maturidade que se aproxima. Sempre acreditei que a segurança e a força que possuímos em nosso interior é capaz de sobressair-se entre a fragilidade física que o tempo determina. Minha experiência de vida, inclusive as negativas, me serviram de aprendizado e as exibo como um troféu, jamais com o repúdio da ausência da juventude. Envelhecer é um dom. O lamentável mesmo é perdermos a pureza da infância e graça do perdão da criança que apanha e retribui com um sorriso imaculado. Disso eu sinto falta. Seria perfeito se nos tornássemos sábios anciãos e pudéssemos perpetuar o coração que outrora era livre de tamanho lamaçal.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Metalinguagem




Passei toda a minha vida implorando a atenção das pessoas. Nunca fui de fazer graças ou promover espetáculos para que pudesse ser notada. Ainda nova construí um casulo ao redor da minha alma e me escondi ali. De um jeito ou de outro gritava por socorro, mas as paredes grossas que me cercam abafavam todo o som que se rompia do meu interior. O tempo passou e não mudou muito em mim. Ainda mantenho minha vida entre muralhas que eu mesma construí. Às vezes percebo que esse egoísmo de euforias e tristezas me poupa da rejeição e me afasta do carinho das pessoas. Há dias em que penso que estar presa em mim mesma tem corroído minhas células, pouco a pouco, como um câncer – sou o próprio mal que me enfrenta pelos cantos. Não sei muito bem o que tenho e em qual proporção esse afastamento voluntário me isola das pessoas. Mas admito que muito já precisei de um colo de mãe e não tive, em muitas ocasiões quis um abraço de um irmão e não encontrei e já quis, várias vezes, um conselho sábio de pai, mas ele não estava ali. Hoje me pergunto se foram pequenos gestos dolorosos que me recolheram em um estado defensivo permanente ou se minha excessiva prontidão à batalha me fez ficar assim. Mas sei que tenho uma casca dura e um interior que se desfaz pela sua inconsistência. Amo veementemente, protejo cuidadosamente e me dedico inteiramente àquilo que me é importante. E disso nunca tive retorno. Ainda espero uma bajulação sincera, um olhar que acaricia o rosto e um bom dia, por mais insignificante que possa parecer, que me faça ter, verdadeiramente, uma semana diferente. Sou ainda a mocinha romântica do interior, sob a pele da mulher madura, moderna, que guia sua própria vida com tamanha independência. Sou a menina acanhada que não se sai muito bem nos diálogos com desconhecidos e sou, também, aquela que escreve sobre si, na inútil esperança que alguém possa enfim saber que EU ESTOU AQUI.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ano ímpar

2011 foi um ano ímpar. E isso, pelo menos, não é ruim. O que é ímpar não se divide, não tem igual, não há simetria. Não quero outro desses. É preciso admitir: há muitos benefícios na dor. Um deles é o aprendizado e, não nego, esse eu recebi bastante.

Foi no fundo, lá embaixo, desse abismo todo, que tirei um tempo para Deus. Ele é sempre nossa última possibilidade, a alternativa reserva da vida. E isso eu também aprendi. Deus não é apenas um ser paralelo que está sempre aposto para atender ao aflito - Ele é perfeito demais para ser deixado de lado. Comecei a perceber que, no meu angustiante cotidiano urbano, tinha tempo para quase tudo. A alguns me dedicava um pouco mais, a outros um pouco menos. Sempre me lembrava de ligar para a filha, ir ao salão, assistir um filme com as amigas ou passar um dia de folga inteiro dormindo, meramente. Mas, a Deus pedia desculpas: É muita correria, Senhor.

Não dou muita bola pra esse tal misticismo. Já brinquei que o número onze, talvez, seja um carma da numerologia, entretanto, eu tenho comigo aquela pitada de racionalidade - ela me faz reconhecer que minha vida é a colheita da semeadura e os frutos podem vir no ano 11, 12 ou 13... Eles sempre aparecem, não há como evitar.

Esse ano, colhi as conseqüências de um bocado de soberba, recebi o resultado de um comportamento rixoso, comi da semente podre que cultivei e me apeguei no descaso que eu mesma ofereci a Deus. Foi um ano de desgostos. Um período em que gripei a cada mês, gritei a cada mês, na voz oculta da alma. Um ano de enxaquecas, um ano de tristezas. O dinheiro foi escasso, o prazer foi escasso, lágrimas abundantes... Há quem chame isso de exagero, há quem chame de drama, há quem se compadeça, há quem seja indiferente... Eu, particularmente, ignoro. Porque 2011 foi, realmente, um ano professor.

Ele me ensinou a me importar menos com o que as pessoas pensam e a cuidar mais do meu próprio jardim. Me fez ver a sutil diferença entre independencia e auto-suficiência. Nossa capacidade de vencer não está ligada a outrém, apesar de não sermos suficientemente tolerantes à contínua solidão. Somos livres de escolha e dirigentes da própria força, mas precisamos da existência - para existir.
Meus nove meses de separação me geraram e sei que hoje, ainda, engatinho. Há um longo caminho pela frente. Ainda é preciso aprender os passos, as palavras, a maturidade e a sabedoria. Tenho fé que 2012 será um ano melhor, ainda sem carregar a utopia do renovo das comemorações. Os problemas não se foram, muitos ainda permanecem, de pior ou melhor proporção. Há os que foram sanados, os que não trouxeram qualquer proveito e os que serviram de lição. O que importa, porém, é saber que o interior vem sendo tratado, e um espírito iluminado clareia qualquer escuridão.

Não me incomoda ser chamada de careta, quadrada ou políticamente correta. Mas é com prazer que acordo às 6h da manhã para falar com Deus, que me acolheu, prontamente, quando eu mais precisei. E é tentando fazer a coisa certa, ser a pessoa certa, tendo a plena convicção de que só temos condições de cobrar quando, antes, cumprimos com nossos deveres, que venho banindo, gradativamente, aquilo que não me era benéfico.

Aprendi a valorizar mais a família, a aceitar as pessoas como elas são. Tenho respirado fundo no trânsito, antes de chingar. Pouco a pouco, tenho perdido inquietudes, deixado pela estrada meus anseios. Me acometi de uma certeza estranha de que tudo vai dar certo. E continuo, sim, falando o que penso, preservando minha sinceridade. Sorrio quando quero, não quando me é oportuno, ainda que isso desagrade à multidões. Trato bem àquele que prezo, não por conveniência, mas pela importância que esse alguém representa para mim. Bajuladores ainda não preencheram a lista dos meus favoritos...

É nesse 2012 que entro... Com erros e acertos, fé e atitude, trabalho e retidão. Porque descobri que tudo isso aí, com uma pitadinha de humildade, é muito mais convicente que o choro do necessitado. E Ele, antes de ser amor, sabe o que é ser justiça. Isso, também, 2011 me ensinou. Despeço-me com alívio, carrego, portanto, minha gratidão.

Seja bem-vindo, 2012.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Bem x mal


Nunca perdi alguém de grande estima. Meu avô materno morreu, eu era muito nova, não sabia bem o que estava acontecendo. Ao meu avô paterno nunca fui muito ligada. Os dois foram os de maior afinidade, que vi partir da minha vida. Agora, aos vinte e seis anos, estou sentindo uma dor sufocante, acho que a mesma dor da morte – porém, sem que ninguém tenha, de fato, deixado de viver. É como se existissem dois seres: alguém que você conheceu um dia e alguém que você não sabe quem é. E isso, para mim, traz um sofrimento tão intenso quanto a própria morte. Vejo, a cada dia, a doçura do sorriso, a pureza do olhar, as palavras serenas e a cumplicidade do afago – e tudo isso gira e embrulha minha mente, como uma camada espessa que me impede de tocar. O que tenho, porém, é um tanto de futilidade, uma vida vazia, uma felicidade tola. Como a infância que cresce, deixa de existir. E tudo o que nos resta é uma realidade mórbida, uma expressão desconhecida, uma face envelhecida. Toda a beleza do passado, a gentileza, o abraço e aquele toque da família, se perdeu pelas fumaças pretas que se exalam das almas poluídas. Restaram as carcaças de um ser estranho, os resquícios de um coração gelado. E no final de todo o enredo, a vilã pegou a estrada do bem e o mocinho se perdeu na escuridão. Faz parte da modernidade a ausência da ordem cronologicamente esperada – mas o final continua sendo o mesmo: cores ao bem, nude ao mal.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Abandono

Recolhi-me na minha insignificância humana. Joguei-me no colo de Deus, como uma filha remida, falida, sofrida. Choro, compulsivamente – agora, apenas diante d’Ele. Fui abandonada, por culpa do meu próprio engano. Entreguei a minha vida e o meu coração e recebi em troca a indiferença – e este, meu caro, é o sentimento mais doloroso que alguém possa carregar. Recolhi os retalhos do amor que se espalharam pelo chão. Eles voam por aí, perdidos, como pétalas sem qualquer valor. Gastei todas as minhas sementes em um solo duro e infértil. Desperdicei meu tudo, minha alma, a um peito vazio, a um sentimento nulo. Restou-me, apenas, o afago de Deus. Ele sabe o quanto amei e quanto desprezo recebi. Entre os soluços que me abafam, digo: papai, cuida de mim. E, pela primeira vez, tenho certeza que não estou sozinha. Ele não vai me deixar, nem finge me amar para enfim, me mostrar que era tudo fantasia. O menos palpável dos seres é Aquele que me dá a mais concreta certeza há alguém que cuida de você. O homem que tanto amei me deixou sozinha na estrada. E os passos, que lá estavam, não eram meus. Era de Deus, que me carregava no colo e dizia: Não temas, eu sou contigo.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Nascer de novo

Já errei muito na minha vida – e ainda hoje, erro também. Mas tenho percebido que a dádiva mais importante que possuímos – enquanto estamos vivos – são os dons do arrependimento e do perdão. Quase sempre nós, seres humanos, não sabemos perdoar. Carregamos no peito a lamúria da mágoa, por anos. A mágoa, entretanto, é como uma ferida aberta no peito, que cultivamos e não deixamos cicatrizar. Ainda que outra pessoa a tenha feito, quem a carrega tem de suportar suas causas e sua existência. Tenho aprendido a diferença entre o arrependimento e o remorso. No primeiro caso, há a dor de algo que não deveria ter sido feito e atitude simultânea, de não o cometê-lo novamente. No segundo caso, porém, essa dor existe, mas apenas como um incômodo na consciência. Ainda assim, algum dia, o deslize volta a ser feito. E o perdão, em sua extraordinária perfeição, depende de um pesar sincero, depende que os erros não voltem a acontecer. Sempre disse à Deus, em minhas orações, que perdão não se pede, se conquista. Não há maneira melhor de mostrar a alguém um pedido verdadeiro de desculpas, do que na amostra real de que aquilo não foi, nem será cometido outra vez. Em meus vinte e seis anos de idade, já fiz e vivi um pouco de cada coisa. Já fui uma criança feliz e infeliz, já tive berço de ouro e passei fome, já fui a adolescente rebelde e a filha exemplo, já namorei firme e gandaiei com as amigas, já casei e me divorciei. Isso tudo é passado. Minha vida pregressa acabou. Apesar das coisas consistentes que fiz, decidi criar um novo ponto de partida, um novo nascimento, uma nova história. Porque descobri que a vida é escrita a caneta - e o homem dificilmente consegue apagar da memória, aquilo que cometemos ou registramos em nossa trajetória. Mas Deus arranca as páginas do livro, nos dá um bloco imenso, cheio de folhas em branco. Então, nos entrega a caneta e diz: Vá, e não peques mais.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Primavera

Costumamos enfatizar muitas coisas em nossas vidas, em uma proporção desnecessária. Em muitos instantes do meu dia me pego agindo como uma lida com a morte. Sim, para a morte não há jeito, há lembranças, saudade, choro e sofrimento. É um pouco como uma paixão platônica da TV, que você assiste e não pode alcançar. Ainda hoje, seis meses após a separação, me pego girando no dedo a aliança. Me recordo de momentos, em cada lugar conhecido – nos restaurantes, shopping, supermercados e locadoras. Mas a pior parte mesmo é a noite, quando o silêncio preenche os cantos da casa. E no meio de todo esse espaço vago, escuto vozes, vasilhas, passos, pessoas. Fantasmas. O passado virou um fantasma, que me assombra pelas beiradas. Exatamente como a morte. Não há ressurreição, é muito mais distante do que eu possa alcançar. Sobram-me apenas as recordações. Aí, eu me lembro que o tempo não volta e que não devemos esperar que alguém parta, para que possamos fazer tudo diferente. Então, eu respiro bem fundo, enxugo as lágrimas e olho pra frente. E começo a perceber, que enquanto tenho desperdiçado minhas pétalas sobre o peito gélido de um túmulo, deveria estar cultivando flores para o meu jardim. A primavera está chegando, e os vivos poderão apreciá-la.

domingo, 21 de agosto de 2011

Escolha

Um dia você se dá conta dos seus erros e decide corrigi-los. Resolve fazer a coisa certa, resgatar a essência da sua origem – a pureza, força e retidão da infância. E você se entrega de corpo, alma e espírito. Mas então, você começa a perceber que talvez seja muito tarde para retomar valores que independem de você. E você percebe que é hora de mudar seu objetivo, traçar novos caminhos, perseguir focos diferentes.

Você passa a entender que algumas pessoas nunca te pertenceram de fato e que todo o amor que você dedicou algum dia, talvez não tenha representado nada. Então você se torna uma pessoa mais sensata, menos utópica e um tanto perseverante. Você trabalha mais, aproveita menos, sonha menos. Em contrapartida, passa a acreditar em si mesmo, em Deus. Você sente seu corpo cansado, sua mente exausta. E mais a frente, alguns meses para a graduação, alguns anos para a prosperidade, algum tempo para a felicidade e uma vida para a sabedoria.

Você passa seus finais de semana trabalhando, até de noite. Quase não vê sua filha. E quando te sobra tempo, acorda bem cedo para ir à igreja – é preciso se lembrar de oferecer à Ele um pouco do que temos também. Você se arruma, arruma a casa, arruma o café, arruma a criança. E ela, acaba escolhendo o vestido mais amarrotado do armário. Você passa a roupa também. Passa na padaria. Enfrenta uma fila gigantesca para deixá-la na escolhinha da igreja, e uma nova fila para retirá-la de lá. A filha chora, esperneia, todo mundo olha. Ela quer ir embora dali. E você, depois, a leva no shopping.

Ela pede batata, você compra batata. Ela pede pizza, você compra pizza. Ela quer sorvete, você compra sorvete. Ela quer ir ao parque, você diz que não, ela chora, todo mundo olha. Ela quer pirulito, ela chora, todo mundo olha. Você aproveita o “passeio” para comprar umas peças de roupa para ela – se você não fizer isso ela não terá o que vestir. E você perde mais um tempo do seu raro instante de folga na fila, para pagar as compras. Enquanto isso, você começa a se preocupar com o que deve no fim do mês, e no mês que vem, e no ano que vem também. E por falar em comprar, é dia de supermercado.

Novas filas, novos afazeres. E a pequena, é claro, contribuindo com um desnecessário coco na calça. Então você tem que se preocupar com o mau cheio da criança, as sacolas, a conta. E você sobe dois andares carregando o peso e a filha “cagada”.

Você a repreende, pega a fama de carrasco e ela chama pelo pai – ele é o amigo dela, o grande herói de tudo isso. Você dá nela um banho e decide colocá-la na banheira, com dezenas de brinquedos. Quem sabe assim você consegue descansar um pouco. E quando você começa a respirar, ela faz coco na sua banheira toda. Novo banho, nova limpeza.

Aí você se lembra que as compras ainda estão no chão da sala, você precisa guardá-las. E quando está quase acabando, você deixa os ovos caírem no chão da cozinha. E quando você termina de arrumar tudo, a pequena grita que fez coco de novo (putz, está com dor de barriga?!). Aí você a limpa e resolve escrever um pouco. Enquanto isso, os vizinhos fazem um churrasco. O som batuca alto, as vozes se misturam a estafa que sussurra no peito. As mãos fedem ovos, as unhas fedem fezes. E você pensa... Sim, a vida é feita de escolhas.

Algumas pessoas preferem a vida mais fácil, o caminho mais curto. Outras optam pelo trajeto mais longo, entretanto, mais seguro. Escolher a Deus, a família e ao trabalho, não é algo que se possa lamentar. E você decide olhar para a frente, ainda que te tenham abandonado no meio de tudo isso, você é capaz de prosseguir sozinho. Tudo passa. Menos a justiça. Não há por que retroceder. Vai dar tudo certo.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Seja feliz

Eu vou aprender. Eu estou aprendendo. Tudo é uma questão de tempo. Tento, instintivamente, repetir na mente, a cada segundo. Vai passar. Tudo passa – insisto. O estômago gira, como uma roda gigante em velocidade avançada. Sim, é um aprendizado. Mas a indiferença dói. E a gente tenta entreabrir os dedos, deixar escapar por eles esse pó de sentimentalismo barato. Quem precisa disso? Quem precisa, afinal, do amor? Quem precisa do amor ingrato? Desse eu não preciso – ninguém há de precisar. Ele se foi, há muito. Nunca esteve aqui. Nunca foi apoiado. Nunca teve forças para lutar, portanto, nunca teve existência, senão submissão moribunda. Abre os olhos, menina. Enxuga o rosto, se olha no espelho. Que vá, e seja feliz.

domingo, 14 de agosto de 2011


O filho perguntava, insistentemente, ao pai, o que era a fé. O pai sempre tentava achar uma maneira de descrever à criança o significado da palavra, mas nunca conseguia encontrar uma maneira clara para isso. Em uma ocasião, ele arrumava as ferramentas no alçapão e o filho, lá de cima, o gritou. Então, ele decidiu aproveitar o momento para mostrá-lo como funciona a fé. Ele o ordenou que pulasse em seus braços e o menino, amedrontado, respondia: pai, eu não te vejo, está muito escuro aí em baixo. E o pai, bastante confiante, disse: Mas eu te vejo, perfeitamente. Confia em mim que eu te seguro. O pequeno, então, saltou. O pai o amparou e lhe disse: filho, isso é a fé. Você não sabia onde eu realmente estava, não podia me enxergar, nem me tocar. Ainda assim você acreditou, teve atitude e se lançou – e eu te protegi.


E assim, eu tenho aprendido que a fé é exatamente aquilo que não podemos ver. É sabermos que, ainda que tudo pareça turvo e perigoso, estamos seguros. É acreditar que há muito mais para nós do que possamos projetar. Venho percebendo que o medo ou a escolha do palpável, quase sempre, nos impedem de dar um passo a frente. É preciso ter coragem, ter certeza de que vai dar certo e de que, para isso, não é preciso termos provas – basta nos lançar. Tenho esvaziado, pouco a pouco, essa carga ansiosa que trazia dentro de mim. E pelo caminho, venho percebendo que as preocupações, quase sempre, nos impedem de apreciar as peculiaridades que a vida nos oferece. Há muito mais que um trânsito intenso, que um casamento desfeito ou um dia extremamente cansativo. Há, sobre mim, um céu resplandecente e, sobre ele, um Deus forte, fiel e poderoso. Ao meu redor existem pessoas carentes como eu, que necessitam tão somente receber um pouquinho do carinho que espero tanto e não encontro. Por que não, dar ao invés de receber? Por que não, plantar as flores, ao invés de lamentar a escassez da primavera? Chega uma hora, que é preciso mudar. É preciso pensar um pouco menos, sentir um pouco menos e fazer um pouco mais. Em um momento de nossas vidas, precisamos ouvir a voz que nos convida, ter certeza de que, ainda que me pareça tão distante e imperceptível, é preciso abrir os braços, deixar soprar a brisa no rosto e nos lançar em queda livre. Porque, finalmente, lá em baixo, haverá um solo firme, um braço estendido, um sorriso cativante. Ele estará lá, me dizendo: filha, eu te chamei e você me ouviu. Jamais te deixaria esmorecer. Ainda que não possa me tocar, eu estou aqui. Deixa-me te guiar, confia em mim. Isso se chama fé.

domingo, 7 de agosto de 2011

Eutanásia

Fico aqui, chorando por horas. A pequena dorme, na cama – segura em seus sonhos de princesa. Vejo os minutos passarem, na tela do computador. Tem virado rotina esse ritual de lágrimas, o moletom molhado. Já nem sei se quero mais falar com alguém sobre isso – só quero sentir, aliviar a dor do peito no meu espaço particular, nessa atmosfera vazia. Nem quero mais alguém, nem ninguém. Não quero mais me apaixonar, não quero mais me arrumar, nem quero mais pensar se quero ou não tudo isso.
Hoje é um dia diferente. Mais uns minutos, apenas, e terei oficialmente, 26 anos. Não sei por que completamos uma idade sem que tenhamos o que comemorar. Deveria ser proibido por lei. Ou ao menos, deveriam criar uma portaria que legalizasse a ausência profissional em dias de aniversários tristes. Apareceria terça-feira, sem que ninguém se lembrasse dessa existência perturbadora que me tornei.

Estou aqui, tentando me encorajar para tudo isso, para essa vida, esses novos doze meses que me surgem, ainda mais árduos e pesarosos. As pessoas não entendem, tenho fama de quem reclama e só faz palavras de fadiga. Essa é uma parte da necessidade que sentimos de boicotar a alma, no lisonjeio dos paliativos que arrumamos – alguns, na bebida, outros nas drogas e eu na escrita. O melhor de tudo isso, é que acabo sendo “socialmente aceitável”. Do tipo que não falta o trabalho, nem se joga na cama num marasmo depressivo. Não tomo remédios, sou absurdamente contra ansiolíticos. Prefiro ver as coisas de perto, encarar a vida de frente e, nos intervalos da batalha, afundar-me nesse oceano que jorra do peito. Submirjo meu corpo moribundo nesse lamaçal de dor, prendo a respiração, mordo meus braços, tento exteriorizar o sofrimento que grita por socorro dentro de mim. E no final, me canso, apago as luzes da casa e adormeço.

Amanhã é um novo dia. Um novo de tudo isso aí. Um novo aniversário, uma nova jornada, uma nova angustia, uma nova tentativa. Não sei como algumas pessoas sobrevivem com tanta facilidade. Mas tenho tentado bastante. Quero chorar o quanto for preciso, clamar o quanto for necessário, viver o quanto for suficiente. Quero amar, até que a dor o esgote, ou que eu faça uma eutanásia dessa lamúria toda. Cravaram-me o peito e me mantém aqui, me arrastando pelo fio que me prende – ainda que eu saiba, que não há mais chance pra mim.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Ausência


De repente, você não tem mais a quem contar as chateações do trabalho, no final do expediente.
Você não tem um ombro para chorar, ou uma pessoa que simplesmente te ouça, quando você só quer jogar conversa fora.
Você passa a rir sozinha, enquanto assiste a uma comédia na TV.
Não tem com quem dividir as guloseimas, nem discutir o final do filme de suspense.
Você não compartilha mais as gargalhadas das manotas que presencia.
Não tem como quem repartir o sucesso, nem com quem comemorar as conquistas.
Você passa a chegar em casa e a comer qualquer coisa.
Deixa de ter os mimos de quem te levava um café na cama e já não pode dormir até mais tarde no domingo.
Você guarda para si as brigas no trânsito, aprende a resolver os problemas, tem de lidar com o mecânico, administrar as finanças e cuidar do supermercado.
Você se vê olhando, sozinha, pacotes de viagens para as férias - não há com quem repartir as ideias.
A cama parece ainda maior - a ausência de alguém se mistura ao encolher das pernas, no cantinho da parede.
O despertador toca e você procura, entre as frestas dos olhos, a quem chamar.
Você não tem a quem mostrar seus resultados médicos, nem tem por que se alegrar por eles.
A longevidade deixa de ser uma felicitação e passa a se arrastar como um dever de casa.
Você não tem a quem dar boa noite, nem bom dia, e os dias já nem são tão bons assim - as noites, muito menos.
Você já nem se importa mais com o cara que te paquera na rua, porque o mais importante mesmo, era a pitadinha de ciúmes que sentiam de você.
Você não tem a quem chamar de amor, nem a quem enviar torpedos - não há qualquer emoção no toque do seu celular.
Você deixa de ter aniversário, aniversário de casamento, de namoro, dia dos namorados, natal e ano novo.
Agora, você só quer olhar para a frente. Ao lado, não há nada - nem ninguém.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Renovo

O que mais me espanta, não é a vida – nem Deus. Esses são os menos culpados nessa história toda. Nunca tive dificuldade em assumir os fracassos das minhas decisões – pelo menos não para mim, no meu silêncio particular. A vida é uma terra fértil. Deus é o sol que fecunda as sementes, a água que rega as raízes, a madrugada que cultiva o orvalho. Somos integralmente responsáveis por aquilo que plantamos. Muitas vezes me peguei na ânsia de cavar mais fundo, me esconder nas profundezas desse jardim sem cores. Tenho, entretanto, ceifado frutos coerentes, buscando amadurecer os caules sem que as aves de rapina os devorem. Não sei quão duradoura será e semeadura e se algum dia prosperará . Tenho salpicado os grãos pelas beiradas da estrada, ainda que saiba que, algumas plantas, necessitam de anos para se consolidar. Ainda que não me sirva de abrigo, as árvores que eu criar serão sombra para a paixão em um dia ensolarado. Que ela seja, pelo menos, o auxilio do renovo – que não me pertença, mas seja parte de mim.

domingo, 31 de julho de 2011

Causa perdida


Um dia você anuncia o divórcio. A família dele, parece festejar o novo “status” de relacionamento. A dela, lamenta. Alguns amigos apóiam, outros, discordam – há os que se calam. Há quem te chame para sair, fazer compras, preencher seu tempo e não permitir que se afunde no vazio do desgosto. Há quem te aconselhe a voltar e quem te incentive a curtir a solteirice. No meio de tudo isso, ele e ela. Ambos confusos e aparentemente certos da decisão. Tudo se mistura, num emaranhado de opiniões. Ainda que escasso, lá no último canto da alma, sempre existe a tristeza da perda, a destruição do lar. Então, os dias se passam, cada qual vai se adaptando a nova vida – ainda que ela se resuma num mundo vazio, desfeito e sem sentido.


Os “amigos” dele combinam as “peladas” semanais, os parentes se encarregam de indicar as amigas. Ele já nem sabe mais se deveria ter se casado algum dia, começa a acreditar que o relacionamento foi um erro. Ele acorda a hora que quer, não precisa se preocupar em pagar as contas ou ser incomodado no meio da madrugada com os choros da criança. Os colegas ressurgem do nada, como se a esposa tivesse sido um furacão que desfez todo um vínculo da infância. Ele se programa para as férias na praia, para as morenas do litoral e as festas com a família, que há tanto não eram curtidas com tanta liberdade.


Ela, esporadicamente, se desfaz dos resquícios das lembranças. Tenta tirar do aparamento objetos que marcaram, de alguma forma, o período em que estiveram juntos. Passa a trabalhar mais, ser responsável por quase tudo, a dormir menos, carregar a criança e as sacolas do supermercado. A família liga – insiste em querer contribuir para a reconstrução do casamento. Ela sabe que não é tão simples. As palavras doem, as recordações doem – não existe o que fazer. Ela tenta colocar seu foco nos estudos e na profissão. As amigas, solícitas, amparam, independente de qual seja a decisão – o mais importante é que ela seja feliz. Se não quer farra, vejamos um filme, não quer ficar em casa, vamos às compras. E os dias se passam, colando retalhos num coração ferido.

O final de semana acaba. Ela senta e respira fundo. Mais uma semana que começa. Mais um dia, mais um mês. Ela já nem pensa em se casar de novo, não olha pros lados na rua nem se importa tanto em se arrumar. O tempo que sobra é para filha ou para adormecer no sofá – pensando ou escondendo-se da enxaqueca constante.

Somos como um rosto de argila. Cada palma que nos toca deixa suas digitais, reproduzem seu reflexo, criam rugas. Somos frutos do meio. Conseguimos, rapidamente, esquecer-nos da solidez de uma família, dos almoços, dos passeios, das ficuldades enfrentadas e superadas - sempre em cumplicidade. Entramos para o time vazio que só quer mais um para tentar se aquecer. E no final, não apenas acreditamos nele, como passamos a pensar como ele. Deveríamos ser como membros de um júri, nos afastar do mundo, nos trancar na esterilidade de informações – ter uma decisão sem moldes. Persuadiram o juiz e eu, perdi a causa.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Solidão

Estou em cima da paineira, mais alta que o muro, observadora muda. A cada hora trocando de selva, de galho, de visão e acompanhamento. Não quero me mexer, não quero voar, tenho medo da amplitude, ainda mais incerta que a ilha que me posto. Aconchego minha alma num espaço vago, há muito mais do que eu possa preencher. Sou a valsa legítima, desacompanhada, em um salão sem música, sem cerimônia e sem convidados. Só me resta a dança sóbria e o eco que me conforta nas doces palavras que eu mesma me dirijo. Sinto o afago do peito que me afasta da realidade fria - me afundo na astúcia dos meus sonhos íntimos, infímos, peculiares. Me desperto na presteza de quem se desliga da verdade, do meu mundo de prazer fictício. Não há com quem dividir o sol, nem apreciar a lua ou contrar as estrelas do céu. Fecho as cortinas, aninho os cobertores da cama e me ajeito entre as pernas que se encolhem. Nada mais há - adormeço, na mais profunda solidão.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Katrina - Luísa e eu


Estava tudo ali, na mais perfeita simetria. A cama, rigorosamente feita, sem rugas. As almofadas, enfileiradas, formavam uma seqüência impecável. Os quadros no lugar, os móveis no lugar, a vida no lugar. As toalhas no banheiro, alvas, denotavam a existência de uma família – éramos três. Sempre tive uma preocupação excessiva com as portas da casa – parte de um medo perturbador de uma invasão inesperada. Enquanto me preocupava em trancar as fechaduras, esqueci-me de conferir as janelas. Um certo dia, uma ventania entrou pelas frestas, derrubou minhas plantas, quebrou meus vasos, desfez minha ordem. Carregou para longe objetos de valor. Transtornou minha história. Espalhou fotografias pelo ar, como partículas que se desmembram pela eternidade. Restou-me entre a bagunça. Eu, os retalhos, os resquícios do furacão Katrina. Já nem me importa tanto, se pagaram gurus para enviar o vento, se afrouxaram as gretas que os deixaram entrar, se fizeram tanto, tanto esforço, tanto apelo, para toda essa devastação. Já nem me importa se me enganei na falsa força de quem não teme inveja, de quem não teme os votos contra e se, nessa confiança enfadonha, me esqueci de me cercar com escudos de proteção. Me importa, agora, respirar bem fundo, sugar todo o fôlego que me resta, catar os cacos com a pá e reconstruir toda essa limpidez. A coragem da construção é menos necessária que a perseverança do recomeço. Mas preciso tentar. Enquanto formos duas. Enquanto houver uma razão que me importe tanto.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Último suspiro


Hoje foi mais um dia daqueles – como qualquer outro. Um dia em busca de um sentido. Um dia comum, incomum. A melhor parte de tudo isso é nomeá-lo sexta-feira. É esse pouquinho de descanso em que nos agarramos – nos motiva a prosseguir. Hoje foi um dia em que recolhi com meu cesto de feira, um bocado de tristeza. Tristeza colhida no pé, fresca, pronta para ser servida. Reuni no meu peito as lágrimas que cultivei por aí, as lágrimas que cultivaram, as lágrimas que inundam a alma. E cá estou, mergulhada num rio profundo – já nem sei separar as fontes. Continuo nadando e tento não olhar para trás. Tento não medir o trajeto que me falta – uma mente cansada desmotiva o corpo. Pela primeira vez, em um tempo incontável, queria curar o mundo, sarar as feridas que deixei por aí, doar sorrisos pras amigas. Queria adiantar o tempo, voltar o tempo, estar no tempo. Queria que as coisas fossem mais fáceis. Queria comprar um tiquinho de felicidade, nem que tivesse que trabalhar por horas e dias e noites e anos... Repartiria para uns dois ou três. Deixaria um tanto no meu peito. Só queria, Deus, de volta, meus sonhos. Queria ler aqueles gibis de romance da adolescência e acreditar na magia de tudo isso. Queria costurar no pensamento meu vestido de noiva, fazê-lo e refazê-lo quantas vezes for preciso sem ter que me preocupar com a alfaiataria. Queria deitar na cama e sentir o cheiro da esperança. Fecharia as janelas da casa, vedaria as gretas, respiraria todo esse aroma até a última partícula de oxigênio. Só, enfim, na última gota, entregaria meus pulmões.