terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ano ímpar

2011 foi um ano ímpar. E isso, pelo menos, não é ruim. O que é ímpar não se divide, não tem igual, não há simetria. Não quero outro desses. É preciso admitir: há muitos benefícios na dor. Um deles é o aprendizado e, não nego, esse eu recebi bastante.

Foi no fundo, lá embaixo, desse abismo todo, que tirei um tempo para Deus. Ele é sempre nossa última possibilidade, a alternativa reserva da vida. E isso eu também aprendi. Deus não é apenas um ser paralelo que está sempre aposto para atender ao aflito - Ele é perfeito demais para ser deixado de lado. Comecei a perceber que, no meu angustiante cotidiano urbano, tinha tempo para quase tudo. A alguns me dedicava um pouco mais, a outros um pouco menos. Sempre me lembrava de ligar para a filha, ir ao salão, assistir um filme com as amigas ou passar um dia de folga inteiro dormindo, meramente. Mas, a Deus pedia desculpas: É muita correria, Senhor.

Não dou muita bola pra esse tal misticismo. Já brinquei que o número onze, talvez, seja um carma da numerologia, entretanto, eu tenho comigo aquela pitada de racionalidade - ela me faz reconhecer que minha vida é a colheita da semeadura e os frutos podem vir no ano 11, 12 ou 13... Eles sempre aparecem, não há como evitar.

Esse ano, colhi as conseqüências de um bocado de soberba, recebi o resultado de um comportamento rixoso, comi da semente podre que cultivei e me apeguei no descaso que eu mesma ofereci a Deus. Foi um ano de desgostos. Um período em que gripei a cada mês, gritei a cada mês, na voz oculta da alma. Um ano de enxaquecas, um ano de tristezas. O dinheiro foi escasso, o prazer foi escasso, lágrimas abundantes... Há quem chame isso de exagero, há quem chame de drama, há quem se compadeça, há quem seja indiferente... Eu, particularmente, ignoro. Porque 2011 foi, realmente, um ano professor.

Ele me ensinou a me importar menos com o que as pessoas pensam e a cuidar mais do meu próprio jardim. Me fez ver a sutil diferença entre independencia e auto-suficiência. Nossa capacidade de vencer não está ligada a outrém, apesar de não sermos suficientemente tolerantes à contínua solidão. Somos livres de escolha e dirigentes da própria força, mas precisamos da existência - para existir.
Meus nove meses de separação me geraram e sei que hoje, ainda, engatinho. Há um longo caminho pela frente. Ainda é preciso aprender os passos, as palavras, a maturidade e a sabedoria. Tenho fé que 2012 será um ano melhor, ainda sem carregar a utopia do renovo das comemorações. Os problemas não se foram, muitos ainda permanecem, de pior ou melhor proporção. Há os que foram sanados, os que não trouxeram qualquer proveito e os que serviram de lição. O que importa, porém, é saber que o interior vem sendo tratado, e um espírito iluminado clareia qualquer escuridão.

Não me incomoda ser chamada de careta, quadrada ou políticamente correta. Mas é com prazer que acordo às 6h da manhã para falar com Deus, que me acolheu, prontamente, quando eu mais precisei. E é tentando fazer a coisa certa, ser a pessoa certa, tendo a plena convicção de que só temos condições de cobrar quando, antes, cumprimos com nossos deveres, que venho banindo, gradativamente, aquilo que não me era benéfico.

Aprendi a valorizar mais a família, a aceitar as pessoas como elas são. Tenho respirado fundo no trânsito, antes de chingar. Pouco a pouco, tenho perdido inquietudes, deixado pela estrada meus anseios. Me acometi de uma certeza estranha de que tudo vai dar certo. E continuo, sim, falando o que penso, preservando minha sinceridade. Sorrio quando quero, não quando me é oportuno, ainda que isso desagrade à multidões. Trato bem àquele que prezo, não por conveniência, mas pela importância que esse alguém representa para mim. Bajuladores ainda não preencheram a lista dos meus favoritos...

É nesse 2012 que entro... Com erros e acertos, fé e atitude, trabalho e retidão. Porque descobri que tudo isso aí, com uma pitadinha de humildade, é muito mais convicente que o choro do necessitado. E Ele, antes de ser amor, sabe o que é ser justiça. Isso, também, 2011 me ensinou. Despeço-me com alívio, carrego, portanto, minha gratidão.

Seja bem-vindo, 2012.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Bem x mal


Nunca perdi alguém de grande estima. Meu avô materno morreu, eu era muito nova, não sabia bem o que estava acontecendo. Ao meu avô paterno nunca fui muito ligada. Os dois foram os de maior afinidade, que vi partir da minha vida. Agora, aos vinte e seis anos, estou sentindo uma dor sufocante, acho que a mesma dor da morte – porém, sem que ninguém tenha, de fato, deixado de viver. É como se existissem dois seres: alguém que você conheceu um dia e alguém que você não sabe quem é. E isso, para mim, traz um sofrimento tão intenso quanto a própria morte. Vejo, a cada dia, a doçura do sorriso, a pureza do olhar, as palavras serenas e a cumplicidade do afago – e tudo isso gira e embrulha minha mente, como uma camada espessa que me impede de tocar. O que tenho, porém, é um tanto de futilidade, uma vida vazia, uma felicidade tola. Como a infância que cresce, deixa de existir. E tudo o que nos resta é uma realidade mórbida, uma expressão desconhecida, uma face envelhecida. Toda a beleza do passado, a gentileza, o abraço e aquele toque da família, se perdeu pelas fumaças pretas que se exalam das almas poluídas. Restaram as carcaças de um ser estranho, os resquícios de um coração gelado. E no final de todo o enredo, a vilã pegou a estrada do bem e o mocinho se perdeu na escuridão. Faz parte da modernidade a ausência da ordem cronologicamente esperada – mas o final continua sendo o mesmo: cores ao bem, nude ao mal.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Abandono

Recolhi-me na minha insignificância humana. Joguei-me no colo de Deus, como uma filha remida, falida, sofrida. Choro, compulsivamente – agora, apenas diante d’Ele. Fui abandonada, por culpa do meu próprio engano. Entreguei a minha vida e o meu coração e recebi em troca a indiferença – e este, meu caro, é o sentimento mais doloroso que alguém possa carregar. Recolhi os retalhos do amor que se espalharam pelo chão. Eles voam por aí, perdidos, como pétalas sem qualquer valor. Gastei todas as minhas sementes em um solo duro e infértil. Desperdicei meu tudo, minha alma, a um peito vazio, a um sentimento nulo. Restou-me, apenas, o afago de Deus. Ele sabe o quanto amei e quanto desprezo recebi. Entre os soluços que me abafam, digo: papai, cuida de mim. E, pela primeira vez, tenho certeza que não estou sozinha. Ele não vai me deixar, nem finge me amar para enfim, me mostrar que era tudo fantasia. O menos palpável dos seres é Aquele que me dá a mais concreta certeza há alguém que cuida de você. O homem que tanto amei me deixou sozinha na estrada. E os passos, que lá estavam, não eram meus. Era de Deus, que me carregava no colo e dizia: Não temas, eu sou contigo.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Nascer de novo

Já errei muito na minha vida – e ainda hoje, erro também. Mas tenho percebido que a dádiva mais importante que possuímos – enquanto estamos vivos – são os dons do arrependimento e do perdão. Quase sempre nós, seres humanos, não sabemos perdoar. Carregamos no peito a lamúria da mágoa, por anos. A mágoa, entretanto, é como uma ferida aberta no peito, que cultivamos e não deixamos cicatrizar. Ainda que outra pessoa a tenha feito, quem a carrega tem de suportar suas causas e sua existência. Tenho aprendido a diferença entre o arrependimento e o remorso. No primeiro caso, há a dor de algo que não deveria ter sido feito e atitude simultânea, de não o cometê-lo novamente. No segundo caso, porém, essa dor existe, mas apenas como um incômodo na consciência. Ainda assim, algum dia, o deslize volta a ser feito. E o perdão, em sua extraordinária perfeição, depende de um pesar sincero, depende que os erros não voltem a acontecer. Sempre disse à Deus, em minhas orações, que perdão não se pede, se conquista. Não há maneira melhor de mostrar a alguém um pedido verdadeiro de desculpas, do que na amostra real de que aquilo não foi, nem será cometido outra vez. Em meus vinte e seis anos de idade, já fiz e vivi um pouco de cada coisa. Já fui uma criança feliz e infeliz, já tive berço de ouro e passei fome, já fui a adolescente rebelde e a filha exemplo, já namorei firme e gandaiei com as amigas, já casei e me divorciei. Isso tudo é passado. Minha vida pregressa acabou. Apesar das coisas consistentes que fiz, decidi criar um novo ponto de partida, um novo nascimento, uma nova história. Porque descobri que a vida é escrita a caneta - e o homem dificilmente consegue apagar da memória, aquilo que cometemos ou registramos em nossa trajetória. Mas Deus arranca as páginas do livro, nos dá um bloco imenso, cheio de folhas em branco. Então, nos entrega a caneta e diz: Vá, e não peques mais.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Primavera

Costumamos enfatizar muitas coisas em nossas vidas, em uma proporção desnecessária. Em muitos instantes do meu dia me pego agindo como uma lida com a morte. Sim, para a morte não há jeito, há lembranças, saudade, choro e sofrimento. É um pouco como uma paixão platônica da TV, que você assiste e não pode alcançar. Ainda hoje, seis meses após a separação, me pego girando no dedo a aliança. Me recordo de momentos, em cada lugar conhecido – nos restaurantes, shopping, supermercados e locadoras. Mas a pior parte mesmo é a noite, quando o silêncio preenche os cantos da casa. E no meio de todo esse espaço vago, escuto vozes, vasilhas, passos, pessoas. Fantasmas. O passado virou um fantasma, que me assombra pelas beiradas. Exatamente como a morte. Não há ressurreição, é muito mais distante do que eu possa alcançar. Sobram-me apenas as recordações. Aí, eu me lembro que o tempo não volta e que não devemos esperar que alguém parta, para que possamos fazer tudo diferente. Então, eu respiro bem fundo, enxugo as lágrimas e olho pra frente. E começo a perceber, que enquanto tenho desperdiçado minhas pétalas sobre o peito gélido de um túmulo, deveria estar cultivando flores para o meu jardim. A primavera está chegando, e os vivos poderão apreciá-la.

domingo, 21 de agosto de 2011

Escolha

Um dia você se dá conta dos seus erros e decide corrigi-los. Resolve fazer a coisa certa, resgatar a essência da sua origem – a pureza, força e retidão da infância. E você se entrega de corpo, alma e espírito. Mas então, você começa a perceber que talvez seja muito tarde para retomar valores que independem de você. E você percebe que é hora de mudar seu objetivo, traçar novos caminhos, perseguir focos diferentes.

Você passa a entender que algumas pessoas nunca te pertenceram de fato e que todo o amor que você dedicou algum dia, talvez não tenha representado nada. Então você se torna uma pessoa mais sensata, menos utópica e um tanto perseverante. Você trabalha mais, aproveita menos, sonha menos. Em contrapartida, passa a acreditar em si mesmo, em Deus. Você sente seu corpo cansado, sua mente exausta. E mais a frente, alguns meses para a graduação, alguns anos para a prosperidade, algum tempo para a felicidade e uma vida para a sabedoria.

Você passa seus finais de semana trabalhando, até de noite. Quase não vê sua filha. E quando te sobra tempo, acorda bem cedo para ir à igreja – é preciso se lembrar de oferecer à Ele um pouco do que temos também. Você se arruma, arruma a casa, arruma o café, arruma a criança. E ela, acaba escolhendo o vestido mais amarrotado do armário. Você passa a roupa também. Passa na padaria. Enfrenta uma fila gigantesca para deixá-la na escolhinha da igreja, e uma nova fila para retirá-la de lá. A filha chora, esperneia, todo mundo olha. Ela quer ir embora dali. E você, depois, a leva no shopping.

Ela pede batata, você compra batata. Ela pede pizza, você compra pizza. Ela quer sorvete, você compra sorvete. Ela quer ir ao parque, você diz que não, ela chora, todo mundo olha. Ela quer pirulito, ela chora, todo mundo olha. Você aproveita o “passeio” para comprar umas peças de roupa para ela – se você não fizer isso ela não terá o que vestir. E você perde mais um tempo do seu raro instante de folga na fila, para pagar as compras. Enquanto isso, você começa a se preocupar com o que deve no fim do mês, e no mês que vem, e no ano que vem também. E por falar em comprar, é dia de supermercado.

Novas filas, novos afazeres. E a pequena, é claro, contribuindo com um desnecessário coco na calça. Então você tem que se preocupar com o mau cheio da criança, as sacolas, a conta. E você sobe dois andares carregando o peso e a filha “cagada”.

Você a repreende, pega a fama de carrasco e ela chama pelo pai – ele é o amigo dela, o grande herói de tudo isso. Você dá nela um banho e decide colocá-la na banheira, com dezenas de brinquedos. Quem sabe assim você consegue descansar um pouco. E quando você começa a respirar, ela faz coco na sua banheira toda. Novo banho, nova limpeza.

Aí você se lembra que as compras ainda estão no chão da sala, você precisa guardá-las. E quando está quase acabando, você deixa os ovos caírem no chão da cozinha. E quando você termina de arrumar tudo, a pequena grita que fez coco de novo (putz, está com dor de barriga?!). Aí você a limpa e resolve escrever um pouco. Enquanto isso, os vizinhos fazem um churrasco. O som batuca alto, as vozes se misturam a estafa que sussurra no peito. As mãos fedem ovos, as unhas fedem fezes. E você pensa... Sim, a vida é feita de escolhas.

Algumas pessoas preferem a vida mais fácil, o caminho mais curto. Outras optam pelo trajeto mais longo, entretanto, mais seguro. Escolher a Deus, a família e ao trabalho, não é algo que se possa lamentar. E você decide olhar para a frente, ainda que te tenham abandonado no meio de tudo isso, você é capaz de prosseguir sozinho. Tudo passa. Menos a justiça. Não há por que retroceder. Vai dar tudo certo.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Seja feliz

Eu vou aprender. Eu estou aprendendo. Tudo é uma questão de tempo. Tento, instintivamente, repetir na mente, a cada segundo. Vai passar. Tudo passa – insisto. O estômago gira, como uma roda gigante em velocidade avançada. Sim, é um aprendizado. Mas a indiferença dói. E a gente tenta entreabrir os dedos, deixar escapar por eles esse pó de sentimentalismo barato. Quem precisa disso? Quem precisa, afinal, do amor? Quem precisa do amor ingrato? Desse eu não preciso – ninguém há de precisar. Ele se foi, há muito. Nunca esteve aqui. Nunca foi apoiado. Nunca teve forças para lutar, portanto, nunca teve existência, senão submissão moribunda. Abre os olhos, menina. Enxuga o rosto, se olha no espelho. Que vá, e seja feliz.

domingo, 14 de agosto de 2011


O filho perguntava, insistentemente, ao pai, o que era a fé. O pai sempre tentava achar uma maneira de descrever à criança o significado da palavra, mas nunca conseguia encontrar uma maneira clara para isso. Em uma ocasião, ele arrumava as ferramentas no alçapão e o filho, lá de cima, o gritou. Então, ele decidiu aproveitar o momento para mostrá-lo como funciona a fé. Ele o ordenou que pulasse em seus braços e o menino, amedrontado, respondia: pai, eu não te vejo, está muito escuro aí em baixo. E o pai, bastante confiante, disse: Mas eu te vejo, perfeitamente. Confia em mim que eu te seguro. O pequeno, então, saltou. O pai o amparou e lhe disse: filho, isso é a fé. Você não sabia onde eu realmente estava, não podia me enxergar, nem me tocar. Ainda assim você acreditou, teve atitude e se lançou – e eu te protegi.


E assim, eu tenho aprendido que a fé é exatamente aquilo que não podemos ver. É sabermos que, ainda que tudo pareça turvo e perigoso, estamos seguros. É acreditar que há muito mais para nós do que possamos projetar. Venho percebendo que o medo ou a escolha do palpável, quase sempre, nos impedem de dar um passo a frente. É preciso ter coragem, ter certeza de que vai dar certo e de que, para isso, não é preciso termos provas – basta nos lançar. Tenho esvaziado, pouco a pouco, essa carga ansiosa que trazia dentro de mim. E pelo caminho, venho percebendo que as preocupações, quase sempre, nos impedem de apreciar as peculiaridades que a vida nos oferece. Há muito mais que um trânsito intenso, que um casamento desfeito ou um dia extremamente cansativo. Há, sobre mim, um céu resplandecente e, sobre ele, um Deus forte, fiel e poderoso. Ao meu redor existem pessoas carentes como eu, que necessitam tão somente receber um pouquinho do carinho que espero tanto e não encontro. Por que não, dar ao invés de receber? Por que não, plantar as flores, ao invés de lamentar a escassez da primavera? Chega uma hora, que é preciso mudar. É preciso pensar um pouco menos, sentir um pouco menos e fazer um pouco mais. Em um momento de nossas vidas, precisamos ouvir a voz que nos convida, ter certeza de que, ainda que me pareça tão distante e imperceptível, é preciso abrir os braços, deixar soprar a brisa no rosto e nos lançar em queda livre. Porque, finalmente, lá em baixo, haverá um solo firme, um braço estendido, um sorriso cativante. Ele estará lá, me dizendo: filha, eu te chamei e você me ouviu. Jamais te deixaria esmorecer. Ainda que não possa me tocar, eu estou aqui. Deixa-me te guiar, confia em mim. Isso se chama fé.

domingo, 7 de agosto de 2011

Eutanásia

Fico aqui, chorando por horas. A pequena dorme, na cama – segura em seus sonhos de princesa. Vejo os minutos passarem, na tela do computador. Tem virado rotina esse ritual de lágrimas, o moletom molhado. Já nem sei se quero mais falar com alguém sobre isso – só quero sentir, aliviar a dor do peito no meu espaço particular, nessa atmosfera vazia. Nem quero mais alguém, nem ninguém. Não quero mais me apaixonar, não quero mais me arrumar, nem quero mais pensar se quero ou não tudo isso.
Hoje é um dia diferente. Mais uns minutos, apenas, e terei oficialmente, 26 anos. Não sei por que completamos uma idade sem que tenhamos o que comemorar. Deveria ser proibido por lei. Ou ao menos, deveriam criar uma portaria que legalizasse a ausência profissional em dias de aniversários tristes. Apareceria terça-feira, sem que ninguém se lembrasse dessa existência perturbadora que me tornei.

Estou aqui, tentando me encorajar para tudo isso, para essa vida, esses novos doze meses que me surgem, ainda mais árduos e pesarosos. As pessoas não entendem, tenho fama de quem reclama e só faz palavras de fadiga. Essa é uma parte da necessidade que sentimos de boicotar a alma, no lisonjeio dos paliativos que arrumamos – alguns, na bebida, outros nas drogas e eu na escrita. O melhor de tudo isso, é que acabo sendo “socialmente aceitável”. Do tipo que não falta o trabalho, nem se joga na cama num marasmo depressivo. Não tomo remédios, sou absurdamente contra ansiolíticos. Prefiro ver as coisas de perto, encarar a vida de frente e, nos intervalos da batalha, afundar-me nesse oceano que jorra do peito. Submirjo meu corpo moribundo nesse lamaçal de dor, prendo a respiração, mordo meus braços, tento exteriorizar o sofrimento que grita por socorro dentro de mim. E no final, me canso, apago as luzes da casa e adormeço.

Amanhã é um novo dia. Um novo de tudo isso aí. Um novo aniversário, uma nova jornada, uma nova angustia, uma nova tentativa. Não sei como algumas pessoas sobrevivem com tanta facilidade. Mas tenho tentado bastante. Quero chorar o quanto for preciso, clamar o quanto for necessário, viver o quanto for suficiente. Quero amar, até que a dor o esgote, ou que eu faça uma eutanásia dessa lamúria toda. Cravaram-me o peito e me mantém aqui, me arrastando pelo fio que me prende – ainda que eu saiba, que não há mais chance pra mim.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Ausência


De repente, você não tem mais a quem contar as chateações do trabalho, no final do expediente.
Você não tem um ombro para chorar, ou uma pessoa que simplesmente te ouça, quando você só quer jogar conversa fora.
Você passa a rir sozinha, enquanto assiste a uma comédia na TV.
Não tem com quem dividir as guloseimas, nem discutir o final do filme de suspense.
Você não compartilha mais as gargalhadas das manotas que presencia.
Não tem como quem repartir o sucesso, nem com quem comemorar as conquistas.
Você passa a chegar em casa e a comer qualquer coisa.
Deixa de ter os mimos de quem te levava um café na cama e já não pode dormir até mais tarde no domingo.
Você guarda para si as brigas no trânsito, aprende a resolver os problemas, tem de lidar com o mecânico, administrar as finanças e cuidar do supermercado.
Você se vê olhando, sozinha, pacotes de viagens para as férias - não há com quem repartir as ideias.
A cama parece ainda maior - a ausência de alguém se mistura ao encolher das pernas, no cantinho da parede.
O despertador toca e você procura, entre as frestas dos olhos, a quem chamar.
Você não tem a quem mostrar seus resultados médicos, nem tem por que se alegrar por eles.
A longevidade deixa de ser uma felicitação e passa a se arrastar como um dever de casa.
Você não tem a quem dar boa noite, nem bom dia, e os dias já nem são tão bons assim - as noites, muito menos.
Você já nem se importa mais com o cara que te paquera na rua, porque o mais importante mesmo, era a pitadinha de ciúmes que sentiam de você.
Você não tem a quem chamar de amor, nem a quem enviar torpedos - não há qualquer emoção no toque do seu celular.
Você deixa de ter aniversário, aniversário de casamento, de namoro, dia dos namorados, natal e ano novo.
Agora, você só quer olhar para a frente. Ao lado, não há nada - nem ninguém.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Renovo

O que mais me espanta, não é a vida – nem Deus. Esses são os menos culpados nessa história toda. Nunca tive dificuldade em assumir os fracassos das minhas decisões – pelo menos não para mim, no meu silêncio particular. A vida é uma terra fértil. Deus é o sol que fecunda as sementes, a água que rega as raízes, a madrugada que cultiva o orvalho. Somos integralmente responsáveis por aquilo que plantamos. Muitas vezes me peguei na ânsia de cavar mais fundo, me esconder nas profundezas desse jardim sem cores. Tenho, entretanto, ceifado frutos coerentes, buscando amadurecer os caules sem que as aves de rapina os devorem. Não sei quão duradoura será e semeadura e se algum dia prosperará . Tenho salpicado os grãos pelas beiradas da estrada, ainda que saiba que, algumas plantas, necessitam de anos para se consolidar. Ainda que não me sirva de abrigo, as árvores que eu criar serão sombra para a paixão em um dia ensolarado. Que ela seja, pelo menos, o auxilio do renovo – que não me pertença, mas seja parte de mim.

domingo, 31 de julho de 2011

Causa perdida


Um dia você anuncia o divórcio. A família dele, parece festejar o novo “status” de relacionamento. A dela, lamenta. Alguns amigos apóiam, outros, discordam – há os que se calam. Há quem te chame para sair, fazer compras, preencher seu tempo e não permitir que se afunde no vazio do desgosto. Há quem te aconselhe a voltar e quem te incentive a curtir a solteirice. No meio de tudo isso, ele e ela. Ambos confusos e aparentemente certos da decisão. Tudo se mistura, num emaranhado de opiniões. Ainda que escasso, lá no último canto da alma, sempre existe a tristeza da perda, a destruição do lar. Então, os dias se passam, cada qual vai se adaptando a nova vida – ainda que ela se resuma num mundo vazio, desfeito e sem sentido.


Os “amigos” dele combinam as “peladas” semanais, os parentes se encarregam de indicar as amigas. Ele já nem sabe mais se deveria ter se casado algum dia, começa a acreditar que o relacionamento foi um erro. Ele acorda a hora que quer, não precisa se preocupar em pagar as contas ou ser incomodado no meio da madrugada com os choros da criança. Os colegas ressurgem do nada, como se a esposa tivesse sido um furacão que desfez todo um vínculo da infância. Ele se programa para as férias na praia, para as morenas do litoral e as festas com a família, que há tanto não eram curtidas com tanta liberdade.


Ela, esporadicamente, se desfaz dos resquícios das lembranças. Tenta tirar do aparamento objetos que marcaram, de alguma forma, o período em que estiveram juntos. Passa a trabalhar mais, ser responsável por quase tudo, a dormir menos, carregar a criança e as sacolas do supermercado. A família liga – insiste em querer contribuir para a reconstrução do casamento. Ela sabe que não é tão simples. As palavras doem, as recordações doem – não existe o que fazer. Ela tenta colocar seu foco nos estudos e na profissão. As amigas, solícitas, amparam, independente de qual seja a decisão – o mais importante é que ela seja feliz. Se não quer farra, vejamos um filme, não quer ficar em casa, vamos às compras. E os dias se passam, colando retalhos num coração ferido.

O final de semana acaba. Ela senta e respira fundo. Mais uma semana que começa. Mais um dia, mais um mês. Ela já nem pensa em se casar de novo, não olha pros lados na rua nem se importa tanto em se arrumar. O tempo que sobra é para filha ou para adormecer no sofá – pensando ou escondendo-se da enxaqueca constante.

Somos como um rosto de argila. Cada palma que nos toca deixa suas digitais, reproduzem seu reflexo, criam rugas. Somos frutos do meio. Conseguimos, rapidamente, esquecer-nos da solidez de uma família, dos almoços, dos passeios, das ficuldades enfrentadas e superadas - sempre em cumplicidade. Entramos para o time vazio que só quer mais um para tentar se aquecer. E no final, não apenas acreditamos nele, como passamos a pensar como ele. Deveríamos ser como membros de um júri, nos afastar do mundo, nos trancar na esterilidade de informações – ter uma decisão sem moldes. Persuadiram o juiz e eu, perdi a causa.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Solidão

Estou em cima da paineira, mais alta que o muro, observadora muda. A cada hora trocando de selva, de galho, de visão e acompanhamento. Não quero me mexer, não quero voar, tenho medo da amplitude, ainda mais incerta que a ilha que me posto. Aconchego minha alma num espaço vago, há muito mais do que eu possa preencher. Sou a valsa legítima, desacompanhada, em um salão sem música, sem cerimônia e sem convidados. Só me resta a dança sóbria e o eco que me conforta nas doces palavras que eu mesma me dirijo. Sinto o afago do peito que me afasta da realidade fria - me afundo na astúcia dos meus sonhos íntimos, infímos, peculiares. Me desperto na presteza de quem se desliga da verdade, do meu mundo de prazer fictício. Não há com quem dividir o sol, nem apreciar a lua ou contrar as estrelas do céu. Fecho as cortinas, aninho os cobertores da cama e me ajeito entre as pernas que se encolhem. Nada mais há - adormeço, na mais profunda solidão.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Katrina - Luísa e eu


Estava tudo ali, na mais perfeita simetria. A cama, rigorosamente feita, sem rugas. As almofadas, enfileiradas, formavam uma seqüência impecável. Os quadros no lugar, os móveis no lugar, a vida no lugar. As toalhas no banheiro, alvas, denotavam a existência de uma família – éramos três. Sempre tive uma preocupação excessiva com as portas da casa – parte de um medo perturbador de uma invasão inesperada. Enquanto me preocupava em trancar as fechaduras, esqueci-me de conferir as janelas. Um certo dia, uma ventania entrou pelas frestas, derrubou minhas plantas, quebrou meus vasos, desfez minha ordem. Carregou para longe objetos de valor. Transtornou minha história. Espalhou fotografias pelo ar, como partículas que se desmembram pela eternidade. Restou-me entre a bagunça. Eu, os retalhos, os resquícios do furacão Katrina. Já nem me importa tanto, se pagaram gurus para enviar o vento, se afrouxaram as gretas que os deixaram entrar, se fizeram tanto, tanto esforço, tanto apelo, para toda essa devastação. Já nem me importa se me enganei na falsa força de quem não teme inveja, de quem não teme os votos contra e se, nessa confiança enfadonha, me esqueci de me cercar com escudos de proteção. Me importa, agora, respirar bem fundo, sugar todo o fôlego que me resta, catar os cacos com a pá e reconstruir toda essa limpidez. A coragem da construção é menos necessária que a perseverança do recomeço. Mas preciso tentar. Enquanto formos duas. Enquanto houver uma razão que me importe tanto.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Último suspiro


Hoje foi mais um dia daqueles – como qualquer outro. Um dia em busca de um sentido. Um dia comum, incomum. A melhor parte de tudo isso é nomeá-lo sexta-feira. É esse pouquinho de descanso em que nos agarramos – nos motiva a prosseguir. Hoje foi um dia em que recolhi com meu cesto de feira, um bocado de tristeza. Tristeza colhida no pé, fresca, pronta para ser servida. Reuni no meu peito as lágrimas que cultivei por aí, as lágrimas que cultivaram, as lágrimas que inundam a alma. E cá estou, mergulhada num rio profundo – já nem sei separar as fontes. Continuo nadando e tento não olhar para trás. Tento não medir o trajeto que me falta – uma mente cansada desmotiva o corpo. Pela primeira vez, em um tempo incontável, queria curar o mundo, sarar as feridas que deixei por aí, doar sorrisos pras amigas. Queria adiantar o tempo, voltar o tempo, estar no tempo. Queria que as coisas fossem mais fáceis. Queria comprar um tiquinho de felicidade, nem que tivesse que trabalhar por horas e dias e noites e anos... Repartiria para uns dois ou três. Deixaria um tanto no meu peito. Só queria, Deus, de volta, meus sonhos. Queria ler aqueles gibis de romance da adolescência e acreditar na magia de tudo isso. Queria costurar no pensamento meu vestido de noiva, fazê-lo e refazê-lo quantas vezes for preciso sem ter que me preocupar com a alfaiataria. Queria deitar na cama e sentir o cheiro da esperança. Fecharia as janelas da casa, vedaria as gretas, respiraria todo esse aroma até a última partícula de oxigênio. Só, enfim, na última gota, entregaria meus pulmões.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Calendário fictício



Sempre gostei de escrever sobre os anos, no rompimento desses. A virada de um ano é sinônimo de renovação de expectativas. Apesar de ainda estarmos na metade de 2011, não me contive em descrever uma prévia retrospectiva de seus significados. É como uma laranja que esgotou seu sumo – não há mais o que esperar. Acabou-se um ano, ainda antes de acabar. Então, é hora de rever o que passou, mirar o próximo – ainda distante – 2012.

O último ano, que me recordo, tão ruim como esse, foi em 1997. Mortes, tristezas, falta de direção, poeira voando pelo ar. Agora estou aqui, colocando na balança os desprazeres e os gozos – minúsculos, quase inexistentes. E não me refiro apenas a meu mundo particular. As pessoas com quem convivo devem concordar comigo – muitas delas. Términos de relacionamentos, sonhos frustrados, perda de parentes, famílias destruídas, profissões desfeitas.

O que houve, Senhor? Eu me arrisco a perguntar. Não acho que Deus tenha se rebelado. Talvez tenha apenas permitido que nos afoguemos em nossa própria rebelião. É natural que a vida esteja como está. Afogamo-nos a cada dia na nossa falta de valores. Largamos tudo por um “tiquinho” de prazer e tudo isso acaba representando uma socialização cheia de alardes. Mas nosso interior está seco, como um deserto. Não estamos regando a alma, estamos semeando o moderno aceitável.

Quando penso que não pode piorar, sim, estou pior que ontem. Meus amigos também, ainda que não percebam. Estamos trocando ouro por lentilha, jogando pérolas aos porcos. E tenho visto tudo tão distante – o futuro, o passado. Só me resta um presente sem sentido. Não há como resgatar o que perdi, nem projetar o que objetivei. O que fazer? Espero por seis meses vãos, cheio de notícias ruins. E acredito em um 2012 de renovação. É essa nossa cultura de fim de ano, nosso amuleto da perseverança. Mas quando um ano acaba na metade, só nos resta esperar. Viver um dia após o outro, não há mais o que tirar, não há suco, nem essência – somente um período de vagueza. Que passe logo esse limbo que restou. Adeus, 2011. Feliz ano novo a todos – enquanto esperamos, num anestésico calendário fictício.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Transplante de coração


Eu queria um coração novo. Um que batesse com todo o ânimo, que estivesse cheio de sonhos e receptivo ao aprendizado. Queria um coração puro, daqueles que temos na infância. Um que pulasse bem forte e fizesse cócegas na barriga, esfriando até a espinha – um coração adolescente. Queria um coração que estivesse limpo, sem mágoas. Não queria mais esse peito sobrecarregado, decepcionado, cheio de amarguras. Queria abrir meu corpo com faca, retirar dele esse músculo pulsante e colocar um que conseguisse perdoar. Algum que não se lembrasse mais dessas frustrações, que me permitisse acreditar novamente. Um coração que pudesse amar. Que pudesse sentir e que me desse vida. Não apenas sobrevida.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sem alcance




Vivemos sempre na expectativa de um futuro distante. Guiamos nossas pernas sem medir a extensão da caminhada toda e, por isso, quase sempre, nos esquecemos de calçar os pés para os trajetos de cascalhos. Não nos preparamos para as poças, nem para o percurso íngreme, porque fazemos da vida um contexto descontínuo. Passamos pela juventude dotados de beleza, força e disposição e fazemos dos nossos próprios erros, escambo para obter aprendizado. Quando enfim, começamos a notar as escolhas que não deveríamos ter feito ou as oportunidades que deixamos de agarrar, percebemos que só o tempo é capaz de nos mostrar com clareza decisões outrora tomadas. A medida em que nos distanciamos do ápice de nossa presteza, ganhamos mais amplitude de visão, entretanto, menos poder de alcance. Passamos a ser meros admiradores de uma existência que se contradiz em lamentar-se pelo que perdeu e aclamar-se pelo que, afortunadamente, acertou – ainda na ausência da sabedoria

domingo, 26 de junho de 2011

Hora de acordar

Hoje queria acordar sem despertador. Sem hora, para acordar. Sem motivos, para acordar. Hoje queria apenas, acordar e não pentear os cabelos. Queria acordar e não me maquiar. Acordar e não tirar o blusão de frio, nem vestir as calças ou escovar os dentes. Queria ficar zanzando pela casa e não arrumar a bagunça. Queria tropeçar nos brinquedos espalhados, beber água na caneca, sem ter que lavar o copo sujo na pia. Queria chutar para o canto as roupas espalhadas pelo chão, desligar os celulares, não ter de falar com ninguém. Queria hoje, não me preocupar com as gordurinhas a mais, comer um pote de batatas embevecidas em mostarda, depois fazer um misto com duas fatias de cheddar e tomar uma tigela bem grande de açaí. Queria fechar a cortina do quarto, não abrir as janelas nem ver os raios do sol. Simplesmente estar ali. Ligar um pouco a TV, ouvir uma música interessante, assistir um filme e um documentário. Escrever um poema bonito, ler um livro legal. Eu queria acordar desse sonho. E então, voltar a dormir mais um pouco.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Casulo quebrado

Envolvo-me em um casulo fechado, que me afoga, que me afasta. Encolho-me, acolho-me. Entre as frestas, não apenas flores e jardins. Há um infinito desconhecido, um temporal de ventanias que me assombra. São as belas asas da juventude que definem a independencia colorida em seu voo rasante, na fragilidade da pele que nada assegura. Cresço. Me adentro pelos cantos, tentando empurrar o tempo que diminui esse espaço seguro de solidão. As paredes se quebram. Seus cacos, pelo chão, são a amostra de que a vida chegou. Sim, a vida. E quem vive, também morre.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Eu, o matrimônio e a sepração






Cresci ouvindo minha mãe reclamando as "pendengas" da separação. Para mim, ainda pequena, não passavam de balelas, crise dos adultos ou picuinhas bobas que poderiam ser resolvidas com facilidade. Só não me imaginava, anos depois, reclamando das mesmas coisas, tendo a mesma sensação de revolta, decepcionando-me com tamanha brutalidade. O mais engraçado, é que todas essas confusões, que presenciei na infância, não afetaram nem um pouco a minha decisão quanto ao matrimonio.



Casei-me, aos vinte e um anos de idade - bem mais nova do que imaginei. As vezes penso se tudo isso não foi um reflexo da minha carência excessiva que se unia ao desejo de uma liberdade meramente dependente de dois seres: eu e ele. Apesar de já morar sozinha nessa época, ter minha independência financeira e profissional, muito do espaço que conquistei entre as pessoas - como pessoa - foi concretizado após o casamento. Minha filha foi uma grande conquista. A maior de todas elas.



O problema todo é a maneira como agimos, impulsivamente, pelo comando ignorante dos nossos próprios sentimentos. A liberdade que conquistei casando, deixei de ter, abdicando. O ato conjugal, por si só, já é uma maneira de nos desfazermos de parte de nossas origens, de nossos costumes, das práticas do cotidiano. É como misturar corante na água. A textura muda, o sabor muda, o conceito muda, o nome muda. Não é mais água, nem corante. É suco de uva agora.



Fico aqui, matutando toda essa homogeneidade que se cria, no ato da separação. Como definir, extamente, quantos gramas de corante, quantos litros de água? Como separar o caldo, do sólido, o rancor, da paixão? Sobra, enfim, um sentimento de frustração, da porção que se desfaz, da limpidez que não se recupera. Fica o gosto da medida, com o desgosto do descompasso. Não é mais bebida, não é mais pó. É tão somente a água suja de barro, sem vida. Melhor que se esvazie. E se crie outra vez.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Tic tac...




E a vida continua sendo uma grande professora. Quando pensamos que já sabemos o suficiente, descobrimos que ainda estamos no início de um longo processo de aprendizado. Ocupamos nossa bagagem com experiências, suportamos, nas costas, o peso da jornada com as recordações. Sentimos na alma o grito da nostalgia, a saudade dos intocáveis, a alegria vivida que se eternizou na memória. Ouvimos o sussurrar pelas frestas do ouvido e somos incomodados pelo toque dos dedos no vidro, que separa o passado de nossa linha férrea atual.

As vezes penso, que perdi tanto tempo planejando, que muito deixei de fazer, verdadeiramente. Ao meu redor, a estação se perdeu em um vai-vem de pessoas - famílias, solteiros, donzelas e surrupiadores. Deixei o trem partir, enquanto calculava o trajeto da viagem.

Hoje, ainda, um pouco perdida, percebi que alguns destinos possuem conduções únicas, e que a vida, quase sempre, não nos permite embarcar novamente. Estou a deriva, a espera de um bilhete novo, de um destino diferente. Já não sei se a bagagem que levo será adequada para as condições climáticas de onde chegarei.


Mas descobri que, entre os muito valores que não posso abandonar, está o respeito, a sinceridade e a perseverança. Percebi que muito já suportei, e que sou capaz de tolerar muito além que meu coração temeroso possa imaginar. Aprendi que é preciso amar muito mais a mim que a qualquer outra pessoa; que é necessário confiar, lembrando-se sempre de permanecer com um rescaldo de desconfiança. Entendi que a vida é um campo de semeadura, e que o dia da colheita sempre chega. Notei que tudo muda, e que é preciso sempre nos portar da maneira como gostaríamos que nos tratasse, caso ocupássemos o mesmo lugar, naquele momento. E isso me deu forças para seguir. Ainda que esteja aqui, olhando o relógio da estação, esperando que os ponteiros me indiquem uma direção, que me permita dar, pelo menos um primeiro passo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Robôs

Costumava girar a aliança no dedo, enquanto esperava os sinais abrirem. Uma mania corriqueira, que tem sido bastante significante no meu dia-a-dia. Hoje, ainda, sem nada que possa brincar enquanto espero meus intermináveis momentos no trânsito, fico a procura, ansiosamente, por um objeto anelar. O incomodo tomou-me aos prantos um dia desses.
Fico aqui pensando nesse contexto novo, nessas decisões que mudaram todo o rumo de uma estrada que se foi e me fizeram optar por um outro caminho.
Há quem pense, que toda essa história é parte de um sofrimento de perda, quando, na verdade, tudo isso se resume em um comportamento mentalmente ajustável. Somos robôs pensantes, amantes, viventes. Nossa cabeça, soberana, racional, é também, um tanto quanto volúvel ao nossos próprios treinamentos cotidianos. Muito mais que a alma ou o coração, o que se ensina a mente, instintivamente, não se esquece com facilidade.
Talvez, muito do que sinto hoje, seja apenas esse costume memorável, como o pequeno animal que se adestra fielmente. O acordar com a cama vazia. A escolha do filme na locadora que se compartilhava com alguém. A presença no sofá, dividir a pipoca e o refrigerante. Os problemas, as ideias, as histórias que se ouvia no final do dia. Os programas de domingo, as brigas... O dia-a-dia. Tudo pesa, como uma rotina que se desfaz com o vento. E esse costume se vê, de repente, desorientado, procurando as tarefas diárias, as apurrinhações... E é o não encontrar que te faz perceber a ausência. Essa percepção e essa parcela de vazio que se sente são, tão somente, parte das funções programadas para serem exercidas.
Não é o peito que dói. Não é o amor que corrói. Não é a tristeza da perda. Não é a perda. É a mudança. Não é a aliança que o dedo não mais tem. Tudo isso é, meramente, o ato de parar o carro no sinal, girar o objeto entre os dedos e ter de ensinar ao cérebro que, após cinco anos de uma prática rotineira, é necessário encontrar um novo hábito. Não ganhei um coração quebrado. Ganhei um cérebro despreparado.

domingo, 13 de março de 2011

Comendo e rezando


Um contraste de felicidade e tristeza, fé e descrença. O Santo Antônio, de costas para mim (ou eu, de costas para ele?), um dia de sol, um lugar paradisíaco, um coração sonhador... Hoje, comendo, rezando, assistindo um filme de amor. Postando uma fotografia empoeirada, com cheiro de passado intocável, de tempo impalpável, de projetos que se perderam pelos cantos.
Uma história de sucesso mundial: "Comer, rezar e amar", um romance que conta a história da americana Elizabeth Gilbert. Uma biografia que reflete uma mistura de sentimentos e uma pitada circunstancial, do que tenho vivido hoje. Um casamento socialmente aceitável, a união de personalidades diferentes, objetivos diferentes. Um esfriamento mútuo da paixão que um dia se acendeu. A dificuldade de se desfazer uma estabilidade momentânea, uma irmandade bastante suscinta e pouco prazeirosa.
Em baixo da cama, a mesma caixinha que guarda os recortes do National Geografic, o sonho de colocar a bagagem nas costas, ganhar o mundo, seguir, sem destino, deixando meramente que vida se encarregue do amanhã. O divórcio. A mulher que se deita na banheira com o livro nas mãos, como eu -tentando afogar ali o roteiro desfeito, a nova escolha da bifurcação.
E o cara que diz, como que narrando minha própria existência. "E se admitirmos que nossa relação é ruim, mas continuarmos juntos? Aceitarmos que brigamos muito, quase não transamos mais, mas não vivemos um sem o outro. Assim, podemos passar a vida juntos, infelizes, mas felizes por não estarmos separados". A icógnita que gira na mente. A infelicidade de não ter o relacionamento infeliz. A contraditória sensação de ter perdido pouco, muito pouco, mas suficiente para te fazer tremer e temer a cada dia pelo dia que virá.
E então me aparece o David. Aquele mesmo cara pós divórcio, que te faz viver um pouco mais, querer um pouco mais. Que te ajuda a sair da banheira e caminhar pelos parques. O cara não ideal, que não te deixa segura, que não te transfere todo o amor que sua carência necessita, mas te faz sorrir com serenidade e te faz palpitar o peito, como quando tinha apenas 15 anos. É quando você, como a Liz, começa a perceber que, as vezes, é preciso ter um pouco mais de coragem e comprar o bilhete da loteria, ao invés de ficar apenas pedindo que Deus te ajude a ganhar na Mega Sena. E você descobre que, assim como o Augusteum, "todos queremos que as coisas permaneçam iguais. Vivemos infelizes e com medo que uma mudança estrague tudo. E que o mesmo após o caos que esse lugar suportou, o modo com foi adaptado, queimado e pilhado e, depois, reconstuido, é preciso nos tranquilizar. Talvez, a vida não tenha sido tão caótica. A armadilha do mundo é nos apegarmos as coisas. A ruína é uma dádiva. A ruína é o caminho que leva a transformação. Até nesta cidade eterna, o Augusteum mostra que devemos estar preparados para as intermináveis ondas de transformações. Nós dois merecemos mais do que ficarmos juntos por medo de sermos destruídos não ficando". E então, as palavras soavam pelos lábios da Julia Roberts como a letra de uma canção que retrata minha alma. Como alguém, que assim como ela, vê a vida passar em flashs. O casamento. A festa. A valsa. E então, o David. Lembranças repentinas de uma mente confusa, e ao mesmo tempo, certa de que o amar, apesar de representar uma cesta de desilusões, pode estar perdido em algum canto, por aí. Em Bali. Atropelando-nos pelas estradas da Índia. O amor pode ser brasileiro, Italiano, Português. Ainda estou comendo e rezando, apenas. Tentando, como Liz, encontrar esse tal ponto de equilíbrio que se encontra entre o céu e o inferno. Fugindo dos barcos, sofrendo por tudo o que deixei de viver, pelo que tenho vivido. Saudando a liberdade, a juventude e a independência. Aprendendo a encher a banheira com canecos. E tentado acreditar, nas palavras sábias do Richard. "Não vai durar para sempre. Nada dura". Ainda sem ter meu Felipe, escolhi, também, minha palavra: attraversiamo. Significa: vamos atravessar.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Enredo

Hoje acordei brigada com a vida. Sinto uma mágoa profunda desse egoísmo humano, dessa injustiça cotidiana, dessas dificuldades todas que nos esbarram por aí. Sinto, por ter de enfrentar, todos os dias, um trânsito desanimador. Por ter de comer dirigindo, por ter de dirigir comendo e lutando contra o tempo. Por ter de dirigir, com tudo isso aí, e um pouquinho menos de cordialidade e satisfação. Sinto ter de sair de casa e deixar minha filha chorando, por ter de almoçar correndo, por não poder sentar-me na mesa de casa com a família e apreciar o sabor da comida quentinha – mesmo porque, nem família tenho mais, para isso. Sinto pelas noites mal dormidas, pelo sorriso mal distribuído, pelas amizades pouco curtidas. Sinto pelas contas que me pesam mês a mês, nos meus jovens vinte e cinco anos. Sinto pelas responsabilidades – demasiadamente grandes – e também, pelo 62,5% do tempo que passo trabalhando a cada dia. Sinto, por não ter certeza de que todo esse esforço, um dia será recompensado. Por sonhar e batalhar fervorosamente para conquistar minha profissionalização, e saber que o mercado, ingrato, pode não me dar um lugar sequer para exercer meu diploma. E isso tudo, não é excesso de pessimismo ou ser uma pessoa “baixo astral”. Isso é um tiquinho de nada, dessa estafa mental, física e emocional, que alguém, da minha idade, possa apresentar. Isso é um tiquinho dessa mágoa, dessa independência bandida, dessa auto-suficiência miserável, que essa tal de vida, nos obriga a “viver”. Sou o retalho literário da “Ana Terra”, “As parceiras”, “O gato”, “Éramos Seis”... Sou a escrita perfeita, sou a obra que comove, mas que continua tendo o enredo infeliz.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Amor escondido (Fagner)





Quando se tem um amor escondido
Querendo aflorar
É se guardar um rio perdido
Que não encontra o mar
Mas brilha tanto cada sorriso
E brilha mais que o olhar
Quando o desejo é claro e preciso
Quem pode ocultar
Tento esquecer te digo baixinho
Não sei se vou voltar
Mas nada prende mais que um carinho
Já vou te procurar
Vai pensamento voa no vento
Vai bem depressa corre pra lá
Conta pra ela meu sofrimento
Diga pra me esperar
Se passo o dia sem seu carinho
Me sinto sufocar
Pássaro mudo longe do ninho
Sem força pra voar

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pós-liberta

Victor Frank narra, em seu livro, o sentimento de empatia, frieza e banalização que passou a existir em Aushwitz, depois dos primeiros anos de submissão dos Judeus ao nazismo. Enquanto as pessoas caiam, mortas pelos cantos, já não se importava mais, não havia mais um sentimento de espanto, desgosto ou tristeza. A rotina da morte a tornou um acontecimento comum naquele lugar. Reuniam-se para arrastar os corpos, porque não havia forças físicas suficientes em um homem para subir um degrau, apenas. Estava aqui, refletindo em como criamos um costume patético com nosso sofrimento cotidiano, esquecemo-nos do nível de realidade, da sanidade necessária para a situação. É que a surra constante da alma, as vezes cria uma anestesia fictícia, e leva nosso cérebro a esquecer-se da lucidez que projeta e diferencia o bom e o ruim. O autor cita, que muitas daquelas pessoas, depois de libertados, suicidaram-se. O costume com a vida de tortura não os permitiu retornar a serenidade da convivência pacífica e respeitosa. A maneira como essa realidade é exposta pelo psiquiatra, me faz criar um paralelo com minha vida, atualmente. A forma como blindamos nosso coração, com uma camada espessa e impenetrável, depois de tanto sofrimento a que somos condicionados. A princípio, toda a fragilidade da alma se manifesta, as lágrimas correm, o coração se desespera. Você é um ser sensível que se entrega verdadeiramente a um homem, abre seu peito, dedica sua vida e sua existência. E passa a perceber que tudo isso era unilateral. E cria um sentimento profundo, uma dor que fere o corpo por alguns anos, até o levar a acreditar na naturalidade desse relacionamento sem paixão. Você sabe que não está bom. Mas assim como os presidiários de Aushwitz, você passa a ter uma convivência pacífica com a situação. Você a aceita, mesmo que isso não signifique que seja algo verdadeiramente bom. E um dia, quando você se liberta desse campo de concentração sufocante, você começa a perceber o quanto é difícil acordar sem todo o conjunto de defeitos relevantes, o quanto é difícil dormir sem os incômodos menos tolerantes, o quanto é difícil viver, sem as condições massantes a que era submetido. Victor Frank, psiquiatra Judeu, encontrou um sentido para ultrapassar o sofrimento, para não se "acostumar" com a tortura da alma. Ele deu uma razão a sua existência e, segundo ele, apenas tendo algo ou alguém, por quem viver, conseguimos vencer os momentos mais difíceis por que passamos. Hoje me encontro em busca de um sentido. Abriram a porta da prisão. Olhei para os lados, procurei no horizonte, virei-me. Entendi os Judeus pós-libertos.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Monólogo surdo



Toda menina, quando nasce, tem um desejo grande de cultivar sua própria família, trocar as bonecas por filhos, o príncipe pelo marido, a casta pureza da donzela pela soberana senhoria da mulher. Eu, particularmente, sempre fui uma sonhadora à moda antiga, dos bouquets de rosas vermelhas, dos jantares a luz de velas, da cumplicidade eterna, na doença, na alegria, até que a morte os possa, enfim, separar. Sou do tempo da fidelidade, da paixão, das cartas e serenatas. Um tempo que não me pertence - nem aos meus dias, também. Muito já chorei por amor. Muito já menti por amor. Muito já escrevi por amor. Já levei surra por amor. Já briguei por amor. Me casei, por amor. E mesmo que toda essa cerimonia - socialmente aceitável - não correspondesse às idealizações dos romances que um dia li, não há nada, absolutamente, que pudesse comparar ao sentimento de realização e felicidade que me pertencia aquele dia. Então, você passa a planejar todo o seu futuro em conjunto, traz ao mundo novas vidas para fazer parte de seus objetivos. Forma um ciclo fechado de ideais e passa a conseguir se enxergar de cabelos grisalhos, na beirada de um lago, tomando uma sopa bem quente de mãos dadas com seu companheiro de jornada. Um dia enfim, você começa a perceber nem todo amor é eterno, que nem todo segredo é confidencial, que nem toda ternura é compartilhada, que muitos pensamentos são egoístas e que quase sempre um dos lados fará com que seus valores pessoais superem os benefícios de seu próprio coração. E você começa a perceber, que o carinha bonito do cavalo branco também grita, que a mocinha singela de bochechas rosadas também é capaz de ter as faces da bruxa dos contos infantis. A vida seria bem mais fácil se soubéssemos nos aceitar como verdadeiros Sherek e Fiona, sabendo e compreendedo os defeitos físicos e morais, os costumes típicos da raça humana - teoricamente condenáveis. E o mais incrível, de tudo isso, é a forma como um relacionamento pode, ao mesmo tempo, ser imensamente complicado e surpreendentemente simples. As milhares de características familiares, sociais e culturais de nossas origens podem ser obstáculos difícies de lidar, diariamente, quando, na verdade, um parceiro quase sempre irá possuir peculiaridades diferentes. O que as pessoas se esquecem, é que, quase sempre, o diálogo é a base para a solução de qualquer processo conflituoso. Então o tempo aparece como uma ventania forte, que sopra para longe as chamas, apaga da mente os planos, do rosto o sorriso, da alma, a cor. E no final, quando você se dá conta, as cinzas se espalham por aí. Se entregam entre os cantos, perdem seu valor moral, seu significado de existência. Você começa a perceber que lá, na beirada da lagoa, não há prosa, nem parceiro. Ao meu lado estão os erros da juventude, o sussurar da cadeira que balança desgostosamente. Nas mãos, a caneta, no colo, o papel. Minha escritas e eu. Só me resta o monólogo surdo das letras.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"Em farta"

Exercer, as vezes, esse papel da mulher durona, que nunca chora, nunca se emociona, nunca se importa, é mais dolorido que as correntes lacrimais que dois olhos possam derramar. Não há o que dizer, o que pensar, o que decidir. É um misto de descontentamento e loucura, sentimento e frieza, ilusão e decepção. Esse meu perfil projetista, de quem exerga sempre dezenas de anos a frente, tem se tornado um emaranhado confuso de precipitações. Já nem sei mais, se o peso que me ronda é da falta de objetivos concretos ou da existência de ideias vãs. Tudo o que sei é que esperei demais de mim, esperei demais dos outros e hoje quero apenas viver o pouco - quase nada - que me resta. A vida se manifesta nos cantos dos olhos, na amargura da alma cansada, na sabedoria da mente experiente. Ela chega, sorrateira, nos da um pedaço do céu e nos derruba com uma tempestade repentina. Ainda assim, escalei as montanhas do Evereste, saltei do pico, entre as nuvens carregadas, içei meu barco no perdido da maré inalcançavel. Não mais quero, nem me quero, nem te quero. E não quero mais querer. Amor moribundo, deveras, me fartei.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Borboletas


Com o tempo você vai percebendo que para ser feliz com outra pessoa, você precisa em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquela pessoa que você ama ou acha que ama, e que não quer nada com você, definitivamente, não é a pessoa da sua vida.
Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar, não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você..!
Mari Quintana

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Rolha

Certas coisas na vida são bastante curiosas. Algumas descobertas são feitas apenas quando recebemos responsabilidades que outrora não nos perteciam. Essa semana, ao tentar, pela primeira vez, abrir uma garrafa de vinho, percebi que uma tarefa aparentemente simples, as vezes, pode se tornar um verdadeiro desafio. É que, depois de usar todos os instrumentos existentes em minha casa - faca, tesoura, garfo, abridor de latas - notei que não se pode realmente subestimar o poder que uma rolha pode ter. Consegui, surpreendentemente, transformar 3/4 deste objeto - ilusóriamente insignificante e verdadeiramente resistente - em pequenas particulas destroçadas. A parte que sobrou se enterrou no mais profundo do "gargarlo" da garrafa. Não conformada com a situação, decidi, sabiamente, comprar um abridor de rolhas - bastante apropriado para a situação, aliás. Depois de minha exultante felicidade, por ter conseguido encrava-lo até o final do meu "obstáculo", descobri que não tenho forças suficientes para retirá-lo - nem ele, nem a rolha. Cá estou, rendida. A rolha me venceu.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Ossos do ofício

Me mandaram ir, bem ali, onde o rio faz a curva, onde a estrada é de chão, onde não há tanto poste, nem tanta fiação. Estava em busca de uma ossada. O lugar, muito deserto, chegava a arrepiar a espinha.
Lá vem um motoqueiro, ninguém sabe onde fica a tal rua, mas as tais ossadas, eram famosas na região.
- Essa rua? Eu não conheço não. Da ossada eu já ouvi falar, a cada dois dias se encontra um pouco, a última que eu sei, foi ali no ribeirão.
Mais na frente um senhor, concentrado com sua foice, capinando o serrado, debaixo de tanto calor.
Dos tais ossos, é claro que sabia sim. Ele estava era bem informado. É que o último, vinha de uma casa, perto de um tal campinho.
E lá fomos, em busca do pobre coitado.
Da porta da casa simples, no meio de um matagal, veio uma senhora simpática, e a filhinha, de bicicleta, muito esperta, que sabia cada detalhe do corpo do tal difunto.
As partes, segundo ela, foram achadas na entrada. Primeiro a metade do crânio, depois a outra parte também. No outro dia veio um braço, no outro, uma costela. Ontem veio uma perna, mas já não estava com ela.
-A polícia está zangada, disse que não busca mais osso não.
Enquanto ouvia, aquela história estranha, a canela coçava que só! Não sabia se era o mato ou o cãozinho preto que tanto me lambia.
-Mas dona, de onde vieram esses pedaços?
-Foi esse cachorrinho aí, que trouxe um a um.
E o tal canibal, era o descobridor do tesouro. É pena que a busca tenha sido em vão. Eu bem que tentei entrar no meio da mata, procurar o resto que ela disse haver por ali. É que o cinegrafista, amedrontado, peferiu não arriscar.
Voltamos todos frustados, dessa viagenzinha de fim de tarde...
Não havia o que fazer. Esses, são os ossos do ofício.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Capitu


olhos de cigana oblíqua e dissimulada, olhos de ressaca... Como aquela, que chega sorrateira, a menina-moça que encanta, com seu jeito meigo e seus gestos recatados... Não é preciso ser atriz, não é necessário ser puritana, nem santo, nem demônio. Capitu que é Capitu, só precisa ser mulher. E homem, que é homem, só mesmo Machado de Assis.

A pintura, extraordinariamente realista, da mulher que ninguém sabe quem é, que pode ser a vilã ou simplesmente a mocinha, apenas alguém conseguiu retratar.

Mulher, quando quer, engana o pai, o amigo, o vizinho, com a maior facilidade. Ilude marido, engana o patrão, muda o caráter, faz cara de dor e derrama as mais sofridas lágrimas.

Não é atoa, que dizem por aí, que a Eva persuadiu Adão. Essa tal de formosura, é a cobra que voa no esplendor de suas cores de verão. Ela se enrola no pescoço do Bentinho, e ainda hoje, e ainda, nos próximos séculos, nem eu mesma saberei, se Capitu traiu ou não.