quarta-feira, 17 de outubro de 2012

leilão de mim

Me enfeitei para a vida, fantasiei minhas vestis, colori minha face e não havia plateia. Preparei, por anos, a peça: o protagonista, o romance e a utopia. Estudei as cenas e as falas. Fiz da minha vida um sonho enquanto, ao meu redor, havia um emaranhado de realidades. Esculpi a menina inteligente, guerreira e apaixonada, quando o mundo carecia apenas de um ser humano - ainda que sem cultura, de mero esforço e pouco sentimento.  

Acordei 27 anos depois. Sobrara o palco, nada mais. Não havia The New York Times, nem príncipe. Não havia irmão-heroi, nem mãe. Percebi que o colo gostoso da avó se perdera na infância e que as amigas da horta seguiram suas próprias caminhadas. Não escrevi um livro, nem fiz jus ao cargo que me deram. Os tijolos que ajudei a colocar no trabalho não me servem nem para proteger do sol. O J se perdeu na sua própria insignificância. Apagou-se da memória, como a doença de Pick... De novas lembranças têm se fartado: um baú de futilidades, cheio de cupins. O "G" do Gustavo, o "P" de muitos outros pês... O J da escuridão.

Eu estava ali: diploma na mão, aliança no dedo e a pequena do lado. Mas não havia razão. Nem credo. Nem vontade. Não havia enredo, nem ingressos, nem holofotes. Havia um rosto com pequenas rugas. Não havia sorriso. Há dias não os vejo. Nem os sinto também. É como se a alma estivesse chorando. E às vezes paro e olho ao meu redor, feito um leão ferido que procura sua força em algum canto perdido. Mas não há. Estou moribunda, por aí.

O tempo passa. Ele é rápido. Me perdi nos ensaios quando deveria atuar. De tudo, entretanto, soubrou-me o drama, mas este nada vale - como eu. Hoje queria leiloar minha vida: minha casa, minhas roupas, meu carro, meu estudo, meu emprego, meu salário, meu peixe, pais, irmãos, parentes e amigos. Levaria comigo a filha e o marido. E começaria tudo outra vez.

Que arremate o interessado, porque eu vendo o lote inteiro.

domingo, 7 de outubro de 2012

Chance

"O mundo vai muito além disso aqui" - eu dizia a uma funcionaria, dia desses. Muito alem... É o que me faz, tantas vezes, fechar os olhos e viajar por aí. Transporto minha alma pelas vielas de Venice, pelas alamedas gigantes das ondas Irlandesas, pelas tumultuadas avenidas indianas, pelos milenares pilares chineses... É a vida! Tão cheia de amores, sabores e cores. É a vida que passa como um moinho. E cá estou (ainda). Abrem-se os olhos e ainda estou aqui.
Nunca me importei com moda, beleza, salão... Tive uma infância difícil. Me consumi de livros, escrita e utopias. E corri, enlouquecidamente, gritando pelos becos, pedindo à vida uma oportunidade. 
Silêncio, somente isso, além do meu próprio eco. 
Queria, muitas vezes, ter nascido de novo, tido portas maiores - um acesso ao menos que me permitisse tocar. Me ofereci veementemente para a vida, como um ator que se candidata à peça e não é visto. Não tive patrocínio. Deixei pelos cantos da estrada a força, o empenho e a dedicação. Voltei. Não me deixaram ultrapassar o portão. Virei a curva da montanha mas não rompi as linhas do horizonte. E ele não é belo, não mais. É aqui, é isso...Não tive chance. Estou fadada.