terça-feira, 22 de maio de 2012

Seu Juvenil e eu


Ontem pela manhã, enquanto trabalhava, fui surpreendida por um senhor alegre, me chamando de Julinha. Não sou do tipo comunicativa e não tenho o costume de sair fazendo amigos por aí – pelo contrário. Me dividi entre a estranheza da situação e a vontade súbita de descobrir, enfim,  onde aquela pessoa simpática me conhecera, ao ponto de esbanjar tamanha intimidade. Não foi muito difícil, afinal, ele sabia – e me explicou com a maior facilidade. O tal “seu” Junvenil (uma colega de trabalho me ajudou com o nome) compartilhou comigo, há exatos dez anos, aulas de técnico em informática.
Um curso chato, que tomou dois meses dos meus sábados – é o que me lembro. E me lembro ainda de um senhor que, bastante interessado, enchia o professor de perguntas, atrasava as aulas e me rendia um tempo livre para me arrastar nos jogos de paciência. E é aí que entra a ironia da vida. Os resmungos que expeli e as vezes em que repudiei, comigo mesma, aquele senhor de idade avançada que buscava tão somente vencer, me tomaram um dia inteiro de reflexão.
_ Larguei a informática, me contou sorridente. Agora, estou me formando em engenharia civil, no UNI BH. É que já trabalho na área, precisava do diploma , explicou.
 E eu, do outro lado do vidro, por um instante percebi que os limites iam além da informática, do curso e de mim.  
_ E você, ainda está aí? Ele quis saber.
Sim, estou. Na mesma cadeira, no mesmo emprego, carregando a bagagem daquele cursinho de informática que fizemos, pensei. Conquistei um diploma de jornalismo, mas ainda estou aqui.
E o velho senhor, cujo nome esqueci no mesmo dia, tinha a memória melhor que a minha. Aquela adolescente que outrora o xingou pela mente, anda meio esquecida também. Amanhã, se o vir novamente, não saberei quem é. Mas não me esquecerei que o mundo dá voltas – somos nós que ficamos inertes.

sábado, 5 de maio de 2012

O que os outros pensam de mim?

"Você é tímido, mas os outros o consideram arrogante. Por que, afinal, existe sempre uma lacuna entre a forma como nos enxergamos e como as pessoas nos veem?" Inicia-se a fabulosa matéria de capa escrita por Rafael Tonon, na revista Vida Simples deste mês. A razão por eu ter pagado nada menos que doze reais no exemplar? Meu excessivo sincronismo com a chamada principal: A pessoa que você acredita ser não é a mesma que o mundo enxerga.
_ Minhas amigas te acham metida. Minha mãe dizia, inapropriadamente, na minha infância retraida. Não sei se o comportamento é hereditário mas hoje passo a mesma coisa com a minha filha. Nas apresentações da escola é a única que não dança e as palhaçadas típicas da idade só estão presentes quando o círculo de pessoas tem um alto grau de intimidade. E isso é ruim. Eu sei, porque sofro. Não é algo que queria ter passado pelos genes. Daí minha paixão pelas letras - uma forma irrestrita de expressão, uma liberdade incondicional que me permite ser, falar e ilustar o retrato da minha alma. 
Sempre me chamei de "cabeça dura de miolo mole". Hoje, aos 26 anos, ainda me permito nomear assim. Sou a essência da fragilidade humana aconchegada em uma casca dura. Não tenho facilidade de entrosamento social mas isso não me extingue ter carinho com as pessoas - um afago interno, pessoal e inexprimível. Por isso sempre carreguei a fama de chata. Os sapatos que me calçam não compreendem o tamanho dos meus pés. Poupo palavras, mas não poupo amor. 
Hoje é um dia que eu queria ser diferente. Queria abrir meu peito com faca e revelar ao mundo o que se passa aqui. Mas ainda acho que isso pouco importa e, talvez, essa seja uma das razões por eu ter criado um mausoléu para a minha alma - por acreditar piamente na irrelevância da minha existência.
Certa vez ouvi, de forma irônica, meu irmão dizer que "me diminuo o tempo inteiro" e isso o dava preguiça. Em mim também, pensei. Mas sou pequena demais para dizer a ele. E pequena demais para que me vejam. E ainda menor para que consiga mostrar quem sou eu. E isso, meu caro, dá pigritia.
O trabalho é o lugar onde passamos a maior parte do nosso tempo vital. E não era de se esperar que fosse também o local onde a relação essência e aparência fosse mais difícil. Estamos em um tempo onde grande parte dos problemas cotidianos nas empresas são "resolvidos" pelos meios eletrônicos. Desde uma conversa formal a um problema intangível, são resolvidos por e-mails, chats ou sistemas de comunicações digitais. As pessoas não se importam mais em ouvir e isso, cada vez mais, tem me feito cavar um buraco profundo nesse eu desconhecido que há dentro da minha imagem rude.
Às vezes digo que não me importo com o que as pessoas pensam e, de fato, há um quê de irrelevância no "achismo" absoluto. Carrego um conflito diário pela imagem fidedigna de mim enquanto há quem, facilmente, se consolide pela aparêcia efêmera de uma face pré-moldada. E isso me faz ver que a identidade exposta deve ser preservada e o conceito que as pessoas fazem sobre nós ajuda a nos constituir mas, cabe encerrar com a colocação de Tonon quando diz: o que não vale é perder a autenticidade em busca de uma aprovação irrestrita.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Pés no chão


Num desses momentos de nostalgia me lembrei das árvores que subi na infância (muitas árvores, por sinal). Lá do alto conseguia enxergar além dos montes, cruzava fronteiras, voava, pairava pela grande imaginação dos pequenos olhos de criança. Não era dificil conhecer o mundo, os passos eram curtos mas os sonhos imensos o suficiente para me fazer sair dali. Muitas cabanas de folha de bananeira se tornaram mansões e grandes pratos cozinhei nas minhas panelinhas de aço inox. Fazemos um projeto paralelo da realidade sem, de fato, conhecermos as restrições dessa brincadeira no cotidiano adulto. E hoje, um pouco mais crescida e com as mesmas utopias de duas décadas atrás, sinto falta de desenhar minha própria história, desfazer os erros, criar os enredos e mudar os finais quantas vezes achar necessário. Troquei o sabor das comidas de galhos secos e a fragilidade das paredes dos bananais pelo cheiro palpável e os tijolos concretos, mas deixei o horizonte infinito pelas limitações do que eu posso tocar. Sonhei ser médica e ter um Fiat Uno. Sonhei muito, sonhei pequeno. Cresci demais - mais que os meus sonhos. Sou proporcionalmente maior que eles, mas não posso alcança-los. Meus pés estão no chão e meus sonhos pelo ar.