terça-feira, 25 de setembro de 2012

Sem porquês



"Quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como", disse Vitor Frankl – psiquiatra judeu, autor da fabulosa obra “Em Busca de Sentido”. Essa não é a primeira vez que cito ou escrevo sobre o livro. Esta é, aliás, uma das minhas literaturas preferidas. Retrata, não apenas o cotidiano no campo de Auschwitz, mas, a necessidade de termos uma razão para continuarmos a viver. E é este o motivo pelo qual estou parafraseando hoje: meu esgotamento momentâneo do “sentido”.
Acredito que os “porquês” que adquirimos em nossa existência, são proporcionalmente inversos à nossa idade. Quando nascemos, precisamos aprender a andar, falar, escrever... E mais adiante, os primeiros namorados aparecem e, também, a vontade da menina-moça de casar. Talvez por isso, quando uma criança morre, há quem diga: tinha uma vida toda pela frente. Uma vida inteira de “sentidos” e “porquês”.
Criamos o sonho da maternidade (a mulher, como no meu caso), idealizamos os filhos nas bonecas, projetamos a profissão. Estudamos, aprendemos a dirigir, abrimos a primeira conta-corrente, perdemos a virgindade. Mas, e quando já fizemos tudo isso (ou, pelo menos, parte de tudo isso)? É como olhar um horizonte interrompido – nada mais há, senão dois palmos à frente de nós mesmos. Hoje acordei e já não tinha mais objetivos. Tenho uma profissão, um emprego, uma filha, um marido, uma vida de classe média brasileira. E talvez não passe disso mais.
Já houve quem me chamasse de ingrata. Muitos, aliás. Mas para um sonhador, passos limitados sempre serão um Auschwitz para a alma. Não que eu queira largar “tudo” O que tenho, sair feito uma adolescente desregrada pelo mundo... Mudar, apenas, bastaria. Mudar sempre, melhorar sempre, tentar sempre. Sou a dona de um espírito aventureiro, na excessiva responsabilidade precoce. Tenho ambição e tenho medo, tenho coragem e precaução.
Hoje, procurei um “sentido” e não o encontrei. Tenho um marido bom, não melhor a cada dia. Sou uma pessoa boa, não melhor a cada dia. Tenho um dinheiro bom, não melhor a cada dia. Tenho uma profissão boa, não melhor a cada dia. De tudo, apenas, me salva a filha: pequena, como a minha fé. Mas cheia de vida pela frente. Ainda cheia de “sentidos” e “porquês”. Talvez eu pudesse segurar na beirada dela, e tentar consumir os sonhos, que ela ainda nem criou, para abastecer minha resiliência. Mas deixo para ela esse acúmulo de bençãos – migalhas de razões não vão me tirar do lugar.
Talvez, aceitando, a vida fique menos pior. Sem sentido não há melhora, apenas conformismo e inércia. O jeito é aceitar as ervilhas da sopa, preparar os pés para os trilho gelados e se entregar ao tempo, ao meio, campo... O “como” viver só pode ser suportado se tiver “por que”. Não há enfrentamento se não houver razão, nem ascensão se não houver "porquês". Decidi viver com o que tenho e me bastar com o que posso ter. Não é o que as pessoas fazem?

sexta-feira, 21 de setembro de 2012


Tive um sonho estranho. Eu morria, vagarosamente. Ainda não me lembro como, nem por que. Parecia-me algum acidente qualquer. Pouco a pouco, vi minha alma despedindo-se. Lembrava-me da minha filha e de como ficaria com a minha ausência. E quanto mais eu pensava, mais distante ia ficando, inclusive da preocupação. Era como se a vida, os problemas e as pessoas, fossem deixando de me pertencer. Por um instante me vi entre a luz e as trevas e sorri quando senti que descansaria com Deus. Mas, de repente, fui abduzida por um breu. Era tarde, pensei. Estava condenada à escuridão. Abriram-se, então, os meus olhos. Era manhã. Meu coração pulsava, meu corpo estava quente. Ainda havia uma chance (ou várias, talvez). E isso é algo que se deva falar - enquanto se possa falar. Por isso, digo: ainda há tempo. É preciso aproveitá-lo.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Mais ou menos


 Hoje eu queria uma cabine do tempo. Entraria nela e faria tudo, absolutamente tudo, diferente na minha vida. Ainda não decidi onde queria voltar, nem quando. Tive uma infância difícil, mas tenho saudade dela também. Talvez, se tivesse uma chance, uma única chance que seja,  faria uma profunda reflexão do erro principal, que me levou a toda essa frustração. Não sei se foram os traumas, o amadurecimento excessivamente precoce, as dificuldades financeiras, as amizades ruins... 
Hoje, se estivesse lá, com a mesma cabeça que tenho agora e a vivência que adquiri, teria sido mais forte, pensado um pouco mais em mim e menos nas pessoas que eu amo. Teria curtido mais os piques e me preocupado menos com os problemas dos adultos, que ainda não me pertenciam. Voltaria no dia em que Ana Clara, minha prima, chegou na casa da tia Lia, e curtiria bastante, porque agora que eu  conheço a verocidade do tempo, sei que é estranho vê-la nas redes sociais vestindo roupa de festa, depois de tê-la visto nascer. Teria dito palavras de carinho aos meus irmão a todo instante, para conseguir cultivar a união que não se formou.
Se pudesse voltar ao passado, diria à Dedê para aproveitar bastante os pais, que morreram tão cedo! Daria a ela conselhos importantes, que nunca me preocupei em falar. Teria sofrido menos com o lar desestrurado que tive, porque saberia que, no futuro, cada um segue o seu caminho e muitos não se importam com você. Teria me desapegado mais das pessoas e brincado bastante. Não deixaria de me mudar para os Estados Unidos, aos meus 14 anos de idade, por medo de deixar minha mãe. Teria olhado em frente, conhecido pessoas novas, um idioma novo... Teria construído minha própria independência financeira. 
Mas se pudesse voltar, verdadeiramente, acho que escolheria o dia em que caí. Quando deixei o ser mais importante de toda a minha história de vida: Deus. Vestiria de novo aquele uniforme azul e branco e O buscaria com fervor. Porque hoje eu sei, que depois que se saí da presença d'Ele, forma-se uma barreira do mal para que você não volte mais. E também descobri que se estivesse lá, poderia ter confiado mais, deixado de lado essa maldita ansiedade. 
Teria cuidado do meu jardim, para que as borboletas viessem até a mim. Não teria perdido tanto tempo correndo atrás de mariposas. E hoje, eu teria alguém que me chamasse para orar, que lutasse comigo. Que me ligasse sentindo saudade e me respeitasse como à igreja. Porque ele seria escolhido por Deus. Eu teria sido escolhida, e não o contrário. Por isso, não precisaria ficar implorando, descontroladamente, por um pouquinho de atenção. Minha vida hoje não seria mais ou menos.