quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Hora de acordar

O relógio toca insistentemente, parece berrar pelos cantos do ouvido, soando os apitos do quartel da vida. Os olhos brigam: é preciso vencer a força das pálbebras, famintas por um pouco mais desse momento de elevação.
6h00. O sol aparece entre as nuvens, cabreiro, sonolento como eu. Parece espreguiçar nesse dia gostoso de chuva. É como se os raios fortes se aconchegassem preguiçosamente na fofura do algodão umidecido. Sua razão, assim como a minha, o faz se arrastar pelos afazeres entre a multidão de devaneios: chuva e sol, calor e arrepio, pessoas e solidão.
Minha rotina da manhã, como sempre triste e fadigante, é como um dever criterioso e sistematicamente programado. Despertar-me, levantar-me, lavar meu olhos, escovar meus dentes, vestir-me, alimentar-me.
Partir. O coração. Deixar na cama, ainda dormindo, a pequena. Beijá-la, como se o dia representasse toda uma eternidade sem vê-la. Acorda-te! Acorda-te!
É hora de acordar.

sábado, 27 de novembro de 2010

sobrevida

Na minha infância tinha o costume de me esconder dentro do guarda-roupas. Permanecia ali por horas, tentando me esconder das pessoas, de mim... Hoje quis muito menos que isso, uma simples caixinha de fósforo, talvez. Algo que pudesse me deixar bem apertadinha, como meu tamanho: pequena e inexistente. Queria voar por aí, como a poeira que ninguém vê, na mais imperceptível das sensações - estar e não ser notada.
A pior parte da vida é o "precisarmos" de alguma coisa. É você precisar trabalhar para ganhar dinheiro, e não por ter prazer no que faz. É você precisar estudar, porque o mercado exige isso e não porque você quer aumentar seu nível cultural. É você precisar estar casada, porque a dor da separação é maior que a felicidade do relacionamento. É você precisar acordar cedo, porque tem horário e não porque quer ir fazer uma caminhada ou porque vai a praia. Muitas das escolhas que a vida nos cede são apenas retratos camuflados de uma liberdade limitada. Algumas saídas trazem sempre consequências dolorosas. Acho que muitos de nós gostaríamos de ter nascido de outra forma, em outro lugar, de ter conhecido amigos diferentes, vivido coisas diferentes. Não sei se somos eternos infelizes, eternos ingratos ou eternos insatisfeitos, mas sei que eternamente algo nos faltará. Não existe felicidade completa, pessoa completa, realização completamente satisfatória. Não existe vida, que no final, por sua própria inconsistência, não seja, na verdade, sobrevida.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Retalhos

Seria bem mais fácil, se construíssemos nossas vidas com bloquinhos de madeira. Se pudéssemos montá-la e desmontá-la de acordo com nosso estado de espírito, de acordo com as cores da estação. Hoje, pintaria minhas paredes de cinza, fecharia as cortinas da casa e o ziper do meu coração. Deixaria que árvores renovassem suas folhas, se escondessem no luto do inverno rigoroso. Escutaria a triste orquestra do vento, dizendo que é tempo de agasalhar a alma. A vida, porém, é como a água que se polui no orvalho das chaminés. A pureza que se perde no ciclo tira o equilibrio da existência. Deixamos de ser um acerto unânime, para nos tornar uma cadeia de erros, um enlace de retaliações, uma busca infinda por consertos vãos.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Chance

O que fazer? Nada. Esperar, viver.
O que não fazer? Nada. Esperar, morrer.
A vida, as vezes, parece se arrastar por aí, feito a cobra que perdeu asas e pernas, por persuadir a madre à se rebelar contra a pura criação humana. Essa é a maledicência das almas: a própria existência insana, profana. Essa é a vergonha vexatória: a liberdade de escolha. Mais fácil seria, ainda, se nos amarrassem os braços, e as pernas, e cerrassem também a língua, e nos fizessem amar, calar e pensar. E então, nossos braços se cansariam de entreter os murros nas pontas das facas, nossos pés não nos levariam por esses caminhos que não chegam a lugar algum, nossa boca não propagaria a infâmia discórdia que amarga em nossos corações. Seria bom, se nos dessem a chance de não ser, aquilo que não somos mais.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Viver não dói (Carlos Drumond de Andrade)

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos, por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante
e paga pouco, mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim
que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.

domingo, 19 de setembro de 2010

Ignomínia

Estava aqui, a tentar entender essas coisas engraçadas da vida. Essa mania que temos de debatermos visões pessoais, de politizarmos um simples dia de descanso com discursos de ignomínias, que fazem dos salões de valsa meras ante-salas de ringues. Já não sei, se defendo minha tese, se convenço-me de minha insignificância e recolho-me nas entranhas do meu coração. Ás vezes frustramo-nos com nossas próprias proposições. Debulhamos nossa mente no moínho de nossas bocas, com o desabor que nossa alma não conservou em perfeitas condições. O tempo cura, talvez, quase tudo. Não fosse o quase, talvez seria. Ou pelo menos, talvez, quase fosse, melhoraria.

domingo, 12 de setembro de 2010

Mundo virtual

Canadá


Itália





Holanda







Irlanda



Portugal




Estado Unidos




Fico tateando a vida, por esses caminhos vagos que a virtualidade me permite contemplar. É uma realidade elevada a todas as possibilidades da arte, do conhecimento e da expansão, que definitivamente não se permite concretizar. Redescubro os catinhos ermos, as cabanas na beira dos lagos, as metrópoles bem qualificadas, as noites badaladas, as cavernas dos dragões, as torres de babel, que dissiminaram as línguas e separaram os povos nesses descontentes seres que não sabem a onde ir.
Sou belorizontina, mineira, brasileira.
Internauta.
Viajante.
Deslumbrante.
Amante da vida.
Há muito tenho me engajado em uma busca incessante pelo lugar ideal.
Tenho sangue do mundo, veias mochileiras.
Aquela vontade maluca de ser a jornalista das guerras, das favelas, dos aglomerados.
Aquela ilusão utópica de que ainda escalarei as muralhas de Berlim e contarei os casos dos "Diamantes de Sangue" africanos.
É essa prisão de ser estritamente belorizontina, mineira e brasileira, que não me faz convalecer.

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Canadá - País receptivo, democrático, sistema de saúde quase integralmente público, boas estradas, boa qualidade de vida. Idioma oficial: inglês e francês. Tempo de espera para legalização de trabalho: 1 a 2 anos. Necessário carta do empregador convidando-o a trabalhar no país.
Itália - Salário mínimo: 1000 euros / mês para trabalhos menos qualificados (doméstica, lixeiro, faxineiro). Idioma de fácil aprendizado. Além do 13º sálario, existe o 14º salário, que é pago em julho. Necessário cidadania Italiana.
Holanda - Média salarial: 1500 euros / mês. Custo de vida altíssimo. Dificil conseguir emprego ilegalmente. País belo, muitas flores, paisagens incomparáveis.
Irlanda - Custo da carne? 125 euros o kilo. Melhor ser vegetariano. Roupas baratas, camisa nike, adidas a 4 euros. Terra que deu origem a minha banda favorita, de maior requinte do século: U2. Para se trabalhar legalmente é preciso possuir o work permit, carta dada pelo empregador ao governo, para que torne um trabalhado legalizado. Outra opção é ir como estudante, ficar no país por 25 semanas e receber permissão para trabalhar por 4h/dia. Média de salário nessa carga horária: 700 euros / mês.
Portugal - Povo receptivo, espírito brasileiro, condições brasileiras, idioma inevitavelmente português. Faz parte da UE, o que o torna abruptamente um lugar de grande valor cultural e curricular.
Estado Unidos - Terra do Tio Sam. Já fui algumas vezes, e posso garantir que é um lugar de ordem, educação, respeito. New York, terra das baladas, diversidade cultural. Imigrante ilegal? Trocar cultura por humilhação.
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Resumidamente, recortes do tempo que investi em pesquisar.
Continuo a escrever, a ler, a sonhar.
Continuo nessa caminhanda por nuvens, pelo céu, pelas alturas intocáveis, pela baixeza impalpável.
Continuo a crer que ha uma fresta possível, uma legalidade cabível, um lugar que se possa chegar.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Apaixone

Apaixone.
Paixão é amor com tesão, é loucura e formosura, sanidade e intensidade.
O bom mesmo é viver a vida apaixonadamente. É se apaixonar pelo trabalho, pelos amigos, pela família, pelo cara bonito que te olha de soslaio. O legal de tudo isso, é aquela vontade que dá de acordar, abrir a janela do quarto, respirar a brisa gostosa que te recebe a cada amanhecer.
Se apaixone pelas caminhadas, comece a perceber o quanto é melhor subir de escadas, ao invés de usar o elevador. Se apaixone pelas flores, pelas aves, pelo lar.
Estude com paixão, escreva com paixão, aprenda com paixão.
Não caia nessa ladainha de cumplicidade crua, de maturidade pura, de sentimentos tranquilos. O gostoso mesmo é o frio da barriga, o arrepirar da espinha, a juventude travessa na mais bela essência do amor.
Fuja desses paradigmas esteriotipados.
Faça paredes de concretos, alicerces bem fundamentados, mas não tonalize suas pedras de tom pastel. Colora sua vida. Plante seus jardins. Mesmo que as flores murchem e as cores se desbotem, redecore sua vida sempre. É isso que nos motiva. Apaixone-se por você mesmo a cada dia. Trace seus sonhos da maneira que melhor lhe convier. O importante mesmo, é que se consiga fazer o que gosta, com quem gostaria de estar, no lugar onde gostaria de viver.
Apaixonar-se é não privar-se.
Sacuda seus lençóis, nunca é tarde para içar as velas do barco.
E se a tempestade vier, continue velejando.
Sinta o gozo dos trovões, ilumine-se nos raios que clareiam o horizonte.
Apaixone-se por eles também.
Cruze as fronteiras da vida.
Não tenha um lugar em mente.
Apenas continue caminhando com paixão.
Sentir é suficiente.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Quero




Hoje é mais um daqueles dias em que queria não querer...

Queria muito, e muito pouco também.

Queria uma casa na beira da praia, um lugar que fizesse calor tropical de dia e um friozinho gostoso a noite.

Queria avistar o horizonte da janela do meu quarto, uma porção de cobertores macios e um bom livro na cabeceira da cama. Nada de celulares ou despertador.

Queria uma TV com comédias românticas e ao lado potes de batatas-pringles e caixas e caixas de bis.

Queria um jardim com flores, uma bicicleta que me permitisse fazer pequeniques pela manhã.

No entardecer, queria passear pela orla, sentir a brisa bater pelo rosto, sussurrando a despedida de um dia bom.

Queria um banho demorado na banheira, com muita espuma e óleos, com sabão com cheirinho de nenêm.

Queria tomar uma sopa quentinha e degustar-me no prazer de meus sonhos.

Queria fazer com que esse nada que a mente nos permite ter se tornasse nesse tudo que as utopias nos levam a crer.

E viajar.

Nada mais querer...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Lágrimas

Chorei. As vezes choro. O choro é a alma se manifestando pelas janelas dos olhos. Chorar pode parecer desnecessário, e em muitas e muitas vezes não entendi o porquê da existencia das lágrimas. Somos feito um copo vazio que se enche de água paulatinamente, seja ela pura ou impura, sejam tristezas ou felicidades. O que quer que esteja nos preenchendo, precisa sempre estar no espaço ideal. Quando nos excedemos de alegrias e dores, então a alma se espreme pelo corpo, e se materializa através das lágrimas. Esse é o grito do nosso interior, seja de dor, ou de prazer.
Sou o tipo de pessoa que sente vergonha de chorar. Quase sempre me comprimo entre as frestas de meu coração, e evito deixar que essa dor se exteriorize. As prosas da minha alma, quando escritas, são uma maneira que tenho de esvaziar um pouco essa opressão ou gozo que meus olhos teimam em não deixar sair.
As vezes me sinto beneficiada pela vida, por algumas coisas que tenho, as vezes me sinto excessivamente injustiçada também. O fato, é que todos temos queixas e gratidões, o importante é sabermos dosar tudo isso com benevolência. É preciso criar um hemisfério de equilibrio, ao invés de enfatizarmos tanto os problemas e esquecermos das graças que a vida nos concede.
Sempre tive uma tendência muito grande a ter sentimentos muito extremos. Muito amor ou muito ódio, muita conversa ou silêncio total, muita compreensão ou completa falta de entendimento. Minha mãe me chamava de "8 ou 80". Nunca soube mensurar até que ponto isso era bom para mim. O grande problema de tudo isso é que quando caminho para o norte e tentam me levar para o sul, me sinto presa como um pássaro sem asas, e então me aprisiono na gaiola de meu coração.
Sei, que a vida nem sempre é ou será como desejamos. Mas aprendi que o importante é lutarmos sempre por tudo aquilo que queremos, porque mesmo que a conquista não aconteça, a razão que damos as nossas vidas é o que nos faz permanecer. Os sonhos quase sempre valem muito mais que aquilo que é palpável. Porque o real, por melhor que possa ser, nunca será ideal. Esse é o motivo porque devemos fazer da vida uma arte, para que consigamos idealizar o que temos, sendo o que queremos ser, e não precisamente o que realmente somos.
Se for preciso chorar, chore.
Faça o que tem que ser feito, mas nunca deixe de fazer o que quer que seja feito.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A origem


Muitos questionamentos, pensamentos vagos, dúvidas e decepções após assistir o filme "A origem" de Christopher Nolan. Houve quem o achasse cansativo, excelente ou difícil de entender. No meio daquela multidão que sempre sai comentando o filme, ouvi opiniões bastante diferentes. Ha de se dizer que o filme gerou polêmicas. Eu, particularmente, gostei. O filme nos mostra esse mundo obscuro e pouco conhecido que possuimos: a capacidade de sonhar. Nossas mentes são potencialmente capazes de atingir espaços inimagináveis, quer estejamos dormindo ou acordados. O que importa é que, proposital ou não, o sonho pode ser um refúgio para a realidade insaciável. O risco de tudo isso, é sabermos a diferença entre os mundos. É segurar-se para não se jogar de um prédio, simplesmente pela sensação de não sabermos mais diferenciar a qual nível realmente pertencemos. As vezes me sinto como a esposa de Don Cobb (Leonardo Di Caprio). Sinto que estou na pinguela entre o palpável e o imaginável. Viver a origem dos sonhos nos desfaz do tempo presente que passa, nos joga no limbo, mata o corpo e engrandece o prazer dos desejos. E quando enfim, alguém me fizer voltar, terei de convencer a mente da existência da vida e da diferenciação das ideias. Preciso de um amuleto que me faça entender. Preciso de um toten que não pare de girar.

sábado, 7 de agosto de 2010

Sombra


Metade de meio século, 1/4 de um século, ou simplesmente 25 anos de vida. Ainda não sei o que sei, nem se sei ainda. Não sei se aprendi o suficiente para viver, mas sei que já vivi o suficiente para aprender a reconhecer que muito pouco sei. Não sei se sinto saudade da infância, porque minha infância, apesar de prazeirosa, também foi muito sofrida. Talvez, em alguma bifurcação qualquer eu tivesse feito escolhas diferentes, seguido caminhos diferentes, mas penso que, talvez, no fim eu estivesse mesmo aqui. As vezes acho que na pressa, não parei para ler algumas placas, e assim não soube onde iria dar a estrada que percorri. Se as tivesse lido, talvez estivesse em outra direção. Quando penso que sei, descubro que ainda tenho muito, muito o que descobrir sobre minhas teorias pessoais. Hoje estou assim, um pouco confusa, um pouco imatura, mas bastante decidida tambem. Em muito deixei de errar, e por mais que o tempo esteja aos poucos corroendo expectativas, forças e sonhos, tenho me lançado com todo meu empenho em conquistar aquilo que é importante para mim. Ainda não me encontrei, afinal, acho que no fundo não sabemos mesmo quem somos ou quem queremos ser. E mesmo que não consiga criar formas que me definam, quando a luz se posicionar, serei a sombra: intocável e indecifrável, mas cheia de existência. Não me importa concluir provérbios, nem seguir paradigmas. Enquanto tiver a chance, seguirei pelas outras metades de meio séculos que puder ter.

Amanhecer


Despertar

É aquela velha história do coronel em fúria, que despeja sua raiva em seu subordinado, e no final o pobre cachorro leva a culpa de toda a cadeia furiosa. Não entendo por que temos o costume de repassarmos nosso estado de espírito as pessoas - com muito mais intensidade quando se tratam de situações negativas. Deveríamos nos recolher no breu de nossa alma e esperar simplesmente que o sol invada as frestras de nosso coração. A manhã sempre se expande entre as montanhas, porque tudo, absolutamente tudo o que se passa na vida, é terminantemente passageiro. A simplicidade consistem em recobrir o rosto, esperar que a noite parta e que venha entao, o fabuloso despertar.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Hoje queria

Hoje queria..

Uma casinha feita de chocolate,
com uma lareira bem quentinha
cheirinho de amor no ar.

Hoje queria...

Um cobertor bem fofinho,
uma cama macia,
um minutinho de paz.

Hoje queria...

Estar no campo, no inverno.
Estar na praia, no verão.
Estar no jardim, na primavera.

Hoje queria...

Não falar nada.
Não errar nada.
Nada mais que isso...

Viver.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Prisioneiro da liberdade

Tudo o que posso ver é uma cadeira na beira do oceano. Um infinito vago, uma mistura de paz e temor. Eu estou ali, sentada, sem saber se espero que uma onda me arranque da margem, ou se me atiro na bravura dos braços que se atrevem a tentar a travessia. E então, me pego nos meus lapsos de memória, tenho medo de perder a capacidade de relembrar. Luto na contradição desse ímpeto que tenho as vezes de esquecer quem sou, de onde vim, para onde vou. Desligo-me do sons, já que não posso desligá-los. E tranco-me, nesse silêncio vasto, nessa monotonia vã, nesse monólogo surdo. Minha alma sussura com as cordas roucas das letras. Queria escrever minha história, ao invés de escrever sobre ela. Apaga-la, refazê-la, deixá-la em uma prateleira para os utópicos romancistas, para os fascinados roteiristas. A vida, entretanto, é para os aventureiros. Para os que saltam de cordas, para os que se atiram das montanhas. A chance da adrenalina se consiste na escuridão. A possibilidade trágica, a realidade consistente é suficiente para os amantes dessa peça sem ensaios. E então, paralelamente, estão as cadeiras na frente das telas, dos que se imaginam num canto qualquer, com um horizonte qualquer, com pessoas quaisquer, fazendo qualquer coisas. Porque a vida, apesar de bela, polêmica, prazeirosa e perigosa, não é suficiente para um escritor. Na falta de poder escreve-la, ele deixa de vive-la, e passa a se tornar o livro, aprisionando o corpo e libertando a alma.

domingo, 25 de julho de 2010

Caminhadura

Hoje comentava sobre as imaturidades da adolescência. Em como algum dia, lá na frente, enxergamos tudo de maneira diferente. A mente, em outro capítulo, se expande como um lince que se distancia para ampliar sua visão da vida. O corpo, cada vez menos próximo da terra e mais próximo do céu, consegue atingir uma extensão maior de captação de espaço, entendimento e sabedoria. Caminhamos. Nem sempre sei para onde, por quem ou para que. Mas também não consigo parar. As vezes me encontro, na grama que me acolhe na beira do lago, na amizade que me sorri sem nada mais desejar, na filha que me chama com a pureza da alma. Me perco na paixão que consome o peito, nos sonhos que as mãos não apalpam, no cansaço que corrói o corpo e consome a juventude da mente. Sigo, nos encontros, nos desencontros. Não sei, realmente, que caminho é esse. É que dizia o Djavan, dessa semeadura, quem poderá fazer, aquele amor morrer?
"Nossa caminhadura
dura caminhada
pela estrada escura...
Se o amor é como um grão:
morre, nasce trigo.
Vive, morre pão."
Ah de se morrer. Perder.
Ah de se plantar, nascer.
E vivendo, sustentar.
A vida é mesmo assim: se morre, se nasce, se cria, se alimenta.
Essa....
É a nossa caminhadura.
Dura caminhada.

domingo, 18 de julho de 2010

Beija-flor

Quando pequena, me faziam aquelas velhas perguntinhas que todos já devem ter respondido algum dia: qual animal gostaria de ser? Um beija-flor - eu dizia. Ele voa, se alimenta do néctar das flores, quase nunca é caçado ou capturado e é o único pássaro que consegue se manter no ar sem se desolcar. Não conseguia ver apenas a fofura dos ursos pandas, a simpatia dos golfinhos ou a valentia dos leões. Queria ver o mundo de cima, ser apreciada pela nobreza da alma, passear entre os jardins, semear a primavera... Sempre tive uma carga sistemática muito grande, mesmo nessas perguntas mais simples que nos fazem. Querer ser alguma coisa poderia significar bastante sobre mim. Hoje, adulta, descobri que a vida não é feita para beija-flores. Eu diria que me tornei um peixe da espécie Beta. A história dos Betas é bastante interessante. Eles vem das águas rasas da Indonésia, onde não havia diversidade de espécies. Assim, a lei da sobrevivência fez com que os betas passassem a se alimentar uns dos outros. Ainda hoje esse peixe tem a fama de "brigão" ou "peixinho solitário". Eles são fortes, não precisam de muitos recursos também. Sobrevivem em poças ou em um pequeno copinho de água -como eu. O velho beija-flor da infância, se afundou nas águas rasas da vida. Descobriu que quando não temos flores, nem opções, somos obrigados a erguer os braços e brigar. Nos tornamos predadores de nós mesmos. Aprendemos que nem sempre teremos espaço, dinheiro, conforto. Então nos apertamos nas necessidades e não esperamos que nos tragam o oxigênio sem que tenhamos de ir apanhá-lo. E descobrimos que a interação, a comunicação e a convivência, também são armas de guerra. Sou um Beta solitário em um copo apertado, que olha o céu pelo vidro e a vida pelo canto do olho ferido. Lá está o beija-flor. Não é meu, nem sou eu. Ele existe, ainda que não possa ser escolhido.

sábado, 17 de julho de 2010

There are a love...



and can not be touched...
I want.
Do you?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Telespectadora

Hoje queria falar de muita coisa: do trânsito, do meu cansaço físico e mental, do meu estágio, de relacionamentos, paixão, angústia, trabalho... Ainda não decidi se falo um pouco de tudo isso, se falo de alguma coisa apenas, ou se nada falo. Só sei que preciso escrever, porque minha mente borbulha como uma água ao fogo aos 100ºC. Escrever nesse espaço - só meu, e para mim - é algo que alivia meus pensamentos conflitantes, meus sentimentos absurdos. Hoje estou em um daqueles dias em que os nervos parecem florecer na pele, como as raízes dos arbustos que se espalham pelas frestas do chão. Como se eu fosse um pedacinho de carne, ao volante, depois de um dia desgastante, sem sentido, sem lugar, sem direção. Meus membros obedecem o trajeto que meu cérebro determina: minha casa. Não há mais a onde ir. Criei uma fronteira muito próxima, que não me permite acreditar tanto, nem projetar tanto talvez. Tenho lutado com meus sonhos noturnos, com meus pensamentos diurnos, com o olhar que acaricia a alma e surra o peito. É uma irreal sensação de juventude, renovação e motivação. Um recorte da realidade. Uma subestimaçãoo do palpável. Estou em um caminho paralelo, cercada por paredes de vidros. Ao lado, está a escolha que não fiz. Não há como saltar. Meu mundo se sublima em minhas possibilidades de sonhar, e se enrijece em sua capacidade de possuir. Estou aqui, do outro lado da tela - telespectadora.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Incompatibilidade

As vezes sinto que eu e a vida não fomos feitos um para o outro. Não existe uma compatibilidade entre mim e o que eu sou, entre o que eu tenho e o que eu gostaria de ter. Não me sinto a vontade falando o que falo, fazendo o que faço, pensando meus próprios devaneios ou sequer escrevendo essas prosas da minha alma. É que luto, luto, luto. E aí? E daí? Nada. Você se enche de expectativas quando casa e depois de um tempo percebe que não existem relacionamentos perfeitos - ou duradouros talvez. Você escolhe um curso, se apaixona por ele, e depois descobre que pode passar a vida toda sem sequer exercer o diploma que conquistou. Você abre mão do seu dinheiro, da sua liberdade financeira, e se sente descontente convivendo com pessoas que te tratam feito um verme e não dão valor a qualquer tentativa de eficiencia que seja. E então, você novamente se enche de coragem, se dispoe a mudar tudo, pular tudo, se desdobrar ainda mais, e no final descobre que está entre as opções paralelas dos que já foram escolhidos - e que ainda assim faz parte de um novo processo seletivo e que provavelmente também não será chamado. E você se pergunta: o que mais falta abrir mão para conquistar um sonho? Já se foi o dinheiro, o tempo, a dignidade. E agora a esperança também.

Essa vale a pena repetir... Afinal, a vida continua sendo uma arte de engolir sapos!!!




segunda-feira, 5 de julho de 2010

Ser

Hoje estive num daqueles dias descontentes. Tudo parecia incrivelmente inapropriado para mim. A roupas que tenho e as que não tenho. A causa das minhas lutas e dos meus sacrifícios. A avareza de espírito. O egoísmo da vida. Essa mania de alguns terem e outros não. Essa rotina de muitas tentativas e poucas conquistas, muitas possibilidades e poucos caminhos percorríveis. É que hoje, só queria ter um pouco de dinheiro, resposta e um tiquinho de posição. Não que queira assentar-me em cadeira de rei, ou vestir coroas de poder. Queria apenas possuir, estar, ser. Bastaria.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

De quem é a culpa?

E então, de quem é a culpa?
Outro dia parei, e refleti nas palavras do técnico Dunga, em sua coletiva após o transtorno com a poderosa rede Globo. Não coloco em questão os palavrões despejados pelo técnico, extremamente sem sentido, sem respeito e sem compostura de alguém que representa um país em um campeonato esportivo como a copa do mundo. O que me chamou a atenção foi ouvi-lo dizer que "para mim, é mais uma oportunidade para mostrar ao meu pai o que aprendi com tudo o que ele me ensinou. Que tem que ter posição, coerência, transparência, dignidade. E pedir desculpas quando erra." Sim, pedir desculpas quando erra. Não me importa se foi para a torcida, para a Globo, para o jornalista. Pedir desculpas quando erra, é a chave da minha reflexão. Hoje postei um conto magnífico do Artur Azevedo, que li aos meus 17 anos de idade, e jamais consegui esquecer. Ele retrata a busca incessante pelo poder, pela posição, pela razão. A maneira como quase sempre assumimos um erro para ganharmos prestígio, e usamos desse próprio erro para despejarmos em alguém nossas frustrações pessoais, nossa falta de humildade, com o intuito de mantermos nossa pose de poderio e competência vã. Daí a razão dessa insanidade que temos vivido no trânsito, no trabalho, na família. É que despejamos de cima para baixo toda a ignorância que nos dão. Repassamos mais os fatos que os artefatos. Reproduzimos o que recebemos e não o que produzimos. E no final, não é em nós que a humildade está. É no pobre cão, que recebe os chutes e ainda lambe graciosamente os pés que o agrediram, porque o amor, apenas, lhe é suficiente. O poder não está no cargo que ocupamos, no direito que temos de exercermos a crueldade ou exigirmos com rigor àqueles que nos são subordinados. A humildade não consiste no fato de reconhecer com palavras uma atitude indevida, mas em aceitar solenemente que a repreensão foi cabível, e fazê-la de aprendizado e amadurecimento. Se a terra não fosse fértil, fofoca não daria frutos, soberba não daria posição, estupidez não daria sofrimento. Temos de esterelizar nossa alma.
De quem é a culpa?
De quem não sabe assumir a própria culpa.

Aonde vamos?


De cima para baixo

"Naquele dia o ministro chegou de mau humor ao seu gabinete e mandou chamar o diretor - geral da secretaria.
- Estou furioso! - exclamou o conselheiro. - Por sua causa passei uma vergonha diante de sua majestade o imperador! O senhor mandou-me na pasta um decreto de nomeação sem o nome do funcionário nomeado!
- É verdade, passou-me, não sei como isso foi...
(...)
O ministro deu-lhe as costas e encolheu os ombros, dizendo:
- Bom, mande reformar esta porcaria.

O diretor geral saiu, fazendo muitas mensuras, e chegando no seu gabinete, mandou chamar o chefe da 3ª seção que o encontrou fulo de cólera.
- Estou furioso! Por sua causa passei por uma vergonha diante do senhor ministro!
- Por minha causa?
- O Sr. mandou-me na pasta um decreto sem o nome do funcionário nomeado!
E atirou-lhe o papel que caiu no chão.
-Queira vossa senhoria desculpar, Sr. diretor...são coisas que acontecem... havia tanto serviço... e todo tão urgente...
(...)

O chefe da 3ª seção retirou-se confundido e foi ter à mesa do amanuense que tão mal copiara o decreto:
- Estou furioso senhor Godinho! Por sua causa passei por uma vergonha diante do Sr. diretor geral.
- Por minha causa?
- O senhor é um empregado inepto, desidioso, desmazelado, incorrigível! Este decreto não tem o nome do funcionário nomeado!
E atirou o papel que bateu no peito do amanuense.
- O expediente foi tanto que não tive tempo de reler o que escrevi!
(...)

Acabado o serviço, tocou a campainha.
Apareceu um contínuo.
-Por sua causa passei por uma vergonha diante do chefe da seção!
- Por minha causa?
- Sim, por sua causa! Se você ontem não tivesse levado tanto tempo a trazer-me o caderno de papel imperial que lhe pedi, não teria eu passado a limpo este decreto com tanta pressa que comi o nome do nomeado!
(...)

O contínuo saiu dali e foi vingar-se num servente preto, que cochilava no corredor da secretaria.
- Estou furioso! Por tuda causa passei pela vergonha de ser repreendido por um bigorrilhas!
- Por minha causa?
- Sim, quando te mandei ontem buscar na portaria aquele caderno de papel imperial, por que demoraste tanto?
- Porque...
- Cale a boca! Isto aqui é um andar muito direitinho, entendes?
(...)

O preto não redarguiu.
O pobre diabo não tinha ninguém abaixo de si, em quem pudesse desforrar-se da agressão do contínuo; entretanto, quando depois de jantar, sem vontade, no frege-moscas, entrou no pardieiro em que morava, deu um tremendo pontapé no seu cão.
O mísero animal que vinha alegre dar-lhe as boas vindas, grunhiu, grunhiu, grunhiu, e voltou a lamber-lhe humildemente os pés.
O cão pagou pelo servente, pelo contínuo, pelo amanuense, pelo chefe de seção, pelo diretor-geral e pelo ministro! "

Artur de Azevedo - Contos Escolhidos

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Momento

Muito já chorei, muito já sofri, muita angústia vivi, mas não fui privada de momentos inesquecíveis, pessoas especiais, felicidades eternamente relembráveis. É que cada vez que estamos para baixo, com o ego sofrido e a mente desesperançosa, pensamos que os limites estão cerrados, e que não há como escapar. Em minha vida, já chorei de dor, já tive muitas gripes, já precisei tomar soro na veia e fazer cirurgia. E em cada uma delas pensei que nunca havia vivido dor tão grande como aquela. Já chorei por amores não correspondidos, já briguei com amigas, perdi pessoas importantes que cruzaram meu caminho. E ainda assim, a tristeza que tive ou a dor que senti, são memórias vagas em meus pensamentos. Tudo isso que sofremos, que vivemos e pensamos ser angustia permanente, não passa de uma ventania que sopra e arrepia a pele. E quando a ventania cessar e o sol se exibir expledoroso nas alturas, lamentaremos o frescor do vento que partiu. A vida é um recorte de momentos. Nada se eterniza, senão o que é importante relembrar.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Não me importa a ladeira que eu suba, o frio que eu sinta ou o desânimo que me acometa. O que não posso é olhar para trás. Quanto maior o topo, maior a ventania. O cansaço só aparece quando já percorremos caminho suficiente para nos aproximar de nossos objetivos. Eu vou vencer.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

Clarisse Lispector

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Lú,

O tempo passa. Sei que daqui a alguns (poucos) anos, estará dando seus primeiros rasantes na vida. Cairá. Alguns tombos serão mais fortes que os outros. E eu, estarei como espectadora. Claro, sempre estarei apta a ajudar. Minhas mãos estarão sempre prontas, mas nem sempre será o melhor. Os tombos são grandes professores. E apesar de tudo o que já aprendi com os meus, sei que vê-la dar seus tropeços doerá muito mais em mim do que todas as dores que eu já vivi. Fico aqui, me lembrando de quando fui para o hospital, com uma barriga gigante... Um jejum que quase me matou de tanta sede... Mas nada foi maior que a ansiedade de te ter ao meu lado, em meus braços... Um bebezão, cheia de pelinhos pelo corpo, ainda tão frágil e pequena.... 14 de junho de 2008, 8:37 da manhã, minha vida nunca mais seria a mesma. Sei que não entende essas palavras, mas ainda assim as escrevo para você, simplesmente porque sei que você existe. Porque sei que está ali, dormindo com toda a pureza que um ser humano pode ter. Porque sei, que acordarei em cada noite da minha vida para te cobrir, e com esse ritual maluco que tenho, colocarei as mãos em seu peitinho, tentando sentir sua respiração, como faço desde que veio ao mundo. Porque sei, que minhas noites jamais serão como antes, porque sei que preciso estar atenta para que mal algum te acometa.
Filha, só Deus sabe o que há em meu peito, e como esse amor não se compara a nenhum outro. Estava aqui, olhando essa foto, e me lembrando de seus movimentos dentro de mim. Quando te tiraram da minha barriga, foi doloroso me acostumar sem você, virando, de um lado para o outro, em seu cantinho de aconchego. Sabia que estava ali, que era perfeita, mas o elo que nos fazia uma só havia se rompido. As vezes me pego pensando nesses momentos que só eu sei que tivemos, e como foram bons! Cada vez que você mexia, meu coração se apalpava, sim, você estava bem!
Deus sabe como te amei antes mesmo de saber que estava em meu ventre. Hoje te vejo andando de fraldinha, correndo pela casa e gritando "mamãe"!!! Vejo que o tempo realmente passa. E breve será uma menininha linda, e então uma moça de corpo formado, uma mulher de cabeça-feita.... E minha menininha de fraldinhas não correrá mais pela casa e talvez nem me chame mais de mamãe. E sei que lamentarei todos os minutos, todos os segundos que não pude estar com você. Estou aqui, lutando contra os minutos para postar no blog antes da meia noite, porque durante todo o dia estive fora, trabalhando, estudando.... E são os últimos minutos dessa data... Sim, seu aniversário. Minha menininha. Minha pequena. Te amo muito filha. E por mais que eu tente fazer tudo certo, sei que erro e ainda vou errar muito. Só espero que meus erros não superem meus acertos. Que consiga te dar pelo menos um pouco de maturidade, honestidade, nobreza, e quem sabe um tantinho de felicidade também....
O bebezinho que cabia na palma da minha mão cresceu. Hoje me dá dor nas costas, escolhe suas próprias roupas, sua própria comida, e o canal que quer assistir na tv. E só tem dois aninhos, apenas. Não queria que o tempo passasse. Queria te ter para sempre aqui, nos meus braços, me chamando pelos cantos, se escondendo de mim.
Tudo o que posso fazer é desejar que Deus te abençoe. Que te livre desse mundo tão perigoso e cheio de coisas ruins. Que Deus te ponha na palma das mãos dEle, e que te faça ser, para sempre a criança dos olhos dEle.
Te amo muito filha. Você é meu amor maior.
Mamãe

terça-feira, 8 de junho de 2010

Lições.... Para o dia de hoje... Para a vida.

"A humildade não está na pobreza, não está na indigência, na penúria, na necessidade, na nudez e nem na fome. A humildade está na pessoa que, tendo o direito de reclamar, julgar, reprovar, e tomar qualquer atitude compreensível no brio pessoal, e ainda assim abençoa."

"Desprezo da parte de alguém é a aula da vida para aquisição de humildade"

(Emmanuel "Pérolas de luz" )

"O mar é grande porque se coloca abaixo do nível dos rios"

(Autor desconhecido )

"Nunca se viu egoísmo que não se queixe de ingratidão"

(Emmanuel "Pérolas de Luz")

domingo, 6 de junho de 2010

Tudo



Filha....
Tudo...
Minha...
Vida...

Andando em circulos


As vezes sinto que estamos andando em circulos. Não há como quebrar paradigmas. Não há como sucumbir as muralhas da mente, nem do coração. Não nos damos a chance de ser feliz. Somos prisioneiros de nós mesmos, feito cachorros que tentam abocanhar seus próprios rabos. Quem haverá de nos livrar desse cárcere? As mesmas mãos que nos aprisionam.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Aqui

Estava aqui, agora, bem longe e ao mesmo tempo simplesmente "aqui"! Nesse mundinho fechado, pensando, trabalhando, aqui.... E então, me chega o Tião (sim, aquele velho amigo cinegrafista que citei um dia desses).... Veio me fazer um elogio. Descobriu que tenho uma filha, e isso o fez admirar.
_Trabalhar em dois empregos, estudar a noite, e ainda uma filhinha pequena?
_Sim, bem pequeninha mesmo, vai fazer dois aninhos.
E contei das muitas lágrimas que derramo no volante, enquanto deixo para trás a pequena em prantos, os bracinhos esticados e carinha de abandono.
_Precisando de mim, para qualquer coisa nessa vida, seja aqui, seja lá fora, basta chamar o Tião. O trabalho dignifica, você vai superar tudo isso, Deus nos permite passar por isso mas a conquista vem a frente. E você, sempre com esse sorriso no rosto...
E então agradeci.
A ele, pela admiração sincera, pelas palavras sábias. A Deus, pela oportunidade, pelo trabalho, pela dignidade.
E por estar aqui.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Há de ter um lugar...

Há de ter um lugar, onde o tempo há de parar
Onde a paz se faz real e o irreal amor não há não
Sei que há pois Deus diz e eu não posso duvidar
Mesmo que eu não possa imaginar (...)
(...)Há de ter um lugar onde lágrimas não rolarão (...)
(Kim - Santo lugar)

Transição

A vida é um complexo transitório. Iniciamos tudo isso no ventre de nossas mães, com milímetros, centímetros... Tudo extremamente desconhecido e novo. Toda essa adaptação é digna de um processo doloroso, que se chama aprendizado. O instestino sofre ao se acostumar com alimentos novos. Os tombos são inevitáveis nos primeiros passos. As primeiras palavras soam tortas. As primeiras atitudes merecem ser corrigidas pelos pais. O primeiro beijo nem sempre é o mais perfeito. E então surge o primeiro namorado, que nem sempre será o último. E o casamento abre as portas para uma maré de adaptações de convivência e criações distintas, e estas, nem sempre são superadas. E então, nos tornamos pais, sofremos com a falta de experiência. Abdicamos nossas vidas e nos cansamos disso também. Separamo-nos. E então sofremos. E um novo trajeto se abre, novas adaptações, novas fases, novos aprendizados... Novas dores, novos amores, nova transição... Até que passe... E se faça de novo.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

seja vivo enquanto dure...

Hoje não fui à aula. Não tive. Não estive. Cheguei em casa e me submergi em uma banheira de água quente com uma casca de sangue fervente. Inundei meus poros, fiz cair a pressão, afoguei a gripe como um assassino em seu ápice de fúria. E cá estou, despejando o resto dessa amargura que sufoca a alma. Nada de tão cruel ou tão anormal que não se enquadre nesse século de anormalidades. Nada que supere a selva, a elfa. Não me sinto bipolar, nem depressiva, nem agressiva talvez. Sou apenas uma jovem cansada. Sou apenas um pouco cheia demais do que posso suportar. Sou apenas um pouco vazia demais do que deveria ter. Do que gostaria de ter. Sou apenas uma perda brusca de tempo, em busca de um tempo que não sei se um dia poderei desfrutar. A infância da minha filha. A beleza que será sucumbida pelas rugas da fadiga. E então já não mais terei, nem serei, nem poderei. Não verei esse frio na barriga que não quero morrer sem reviver. O fogo da paixão, o sentimento da emoção. A vergonha do primeiro encontro, o prazer do primeiro beijo. Essa conquista diária que pensei existir. Bora Bora. Embora.... Não faça tanto... Não tente tanto... Não seja assim, utópico demais, porém relevante. Que o tempo não passe, que o tempo pare... Que o tempo volte, que o tempo vá... Que me elabore o amor... e com ele me traga a paixão... Que seja vivo enquanto dure... e que dure, enquanto estiver vivo... Que me faça viver.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Viva!

As vezes a vida nos surpreende....
Esquecemos essa correria fadigante, paramos, e mergulhamos na simplicidade do sorriso, na pureza da infância, nos detalhes dessa arte emoldurada da vida....
E notamos o quanto é importante ter amigos...
E como um simples gesto pode significar alguma coisa para alguém.


E percebemos que podemos sonhar....
Que os contos ainda existem... Que as fadas e os doendes estão ali, cercados da magia de uma imaginação...



Passamos, mesmo que por um momento breve, a degustar desse paraíso pessoal: a vida e eu e nada mais.




E o mais engraçado de tudo isso, é a maneira como os olhares conseguem prender imagens sem que o tempo possa desfazer. Ela está ali, cercada de cores, cercada de esplendor. Tudo perfeito demais. O verde e o azul, a pátria! E esse ar que afaga o rosto nos mostrando que estamos ainda mais vivos do que poderíamos imaginar...


... Que ainda podemos ser criança...

E que existem motivos....


Para a felicidade simples....





Sim, ela existe. Está ali, recheada de cor e sabor. Recheada de dengo, recheada de apego, recheada de amor. A vida pode ser ao mesmo tempo rígida e também exuberante. Não é preciso ir longe para notar tudo isso....






Basta perceber.
Esticar os braços, abraçar verdadeiramente.
Ela está ali.
Viva. (!)










quinta-feira, 20 de maio de 2010

Do lado de lá

Um dia, queria saber como é ver a vida lá de cima. Queria estar nos palanques dos políticos, nos palcos dos artistas, nos altares dos louváveis. Queria poder estar no andar reservado, na mesa separada, nos sacos que tantos gostam de puxar. Queria um dia ceder favor, ceder dinheiro, ceder posição. Queria ensinar ao invés de aprender, falar ao invés de me calar, decidir ao invés de inexistir. Queria ver as câmeras do lado de lá. Queria formar e não ser formada, dormir sem pensar em contas, comprar, comprar muito. E então, trocaria de rosto, de carro, de casa e de posição. Deixaria essa alma cansada pra trás e me tornaria uma pessoa melhor. Não que a "elevação" me comprasse a nobreza de espírito, mas teria tempo para polir meus conceitos pessoais. A rigidez da alma e a aspereza de espírito dependem muito do lugar que ocupamos no mundo. A vida é sempre vista de joelhos. Há os que estão ajoelhados, e os que estão de pé.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Motorista nessa terra de desordem


Motorista nessa terra de desordem

Lá vem o motorista nessa terra de desordem. Na rua, um pedestre parado, esperando o sinal abrir. Não está na calçada onde deveria, deve ter pressa em partir. Lá vem o motorista estressado, esperando a manobra do caminhão. E lá perto um ajudante manobrista, parece um malabarista. Mexe os braços, pára tudo. O que está atrás buzina, o que está na frete chinga, o que está do lado tenta passar. O caminhão estaciona, o motorista nervoso aciona, e tudo volta a andar. E então, mais a frente, o catador de papéis. Andando calmamente, parece não se importar. E lá vem o motorista, tentando não mais parar.
O taxista, atrás de seu ganha-pão, encosta ali mesmo na pista. O passageiro entra, a família também. Guarda as malas, guarda a bolsa, o periquito e o papagaio. O motorista vai pro lado, tentando se desviar, o motoqueiro surge do nada, feito uma bomba a estourar. Se arrisca entre um e outro, tentando não se atrasar.
O ônibus do ponto a frente, está cá na pista da esquerda, e lá vem o trocador, com o braço pra fora, pedindo o famoso favor. É preciso deixar passar, se não quer se estrapolar, um gigante e um pequenino, não há como confrontar.
E lá vem o motorista, dessa terra de desordem, passa aqui, passa acolá, tentando não se zangar. Passa as ruas e as pessoas, veículos e motociclista. Cada qual em seu destino, sem saber quem vai chegar.
Juju

Escolha

Últimamente tenho me pegado em um ímpeto de melancolia que nem eu mesma sei por que. Ou sei, talvez. A diferença toda é que tenho dado mais atenção a coisas que antes me passavam despercebidas. Tenho sentido falta da minha filha, tenho sentido falta de resultados, tenho sentido falta de mim. Estou em mais uma daquelas bifurcações da estrada, quando tudo parecia perfeitamente sistemático. As placas, a distância, o destino. Hoje parei, pensei, cogitei. Mas ainda não escolhi.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Aprendendo

Hoje chorei. Há pouco chorei.
Sair de casa e deixar a filha chorando, com os bracinhos esticados, nos passando uma terível sensação de abandono....
Trabalhar, trabalhar feito louca e trabalhar novamente...
Aturar... (...)
Por um momento fiquei olhando esse espetáculo, esse show de descontentamentos...
Cigarros, gritos, soberbas... (...)
Onde chegaremos afinal? Quem queremos ser, aliás?
Nem mesmo nós sabemos. Não sabemos sequer o que somos.
Fui questionada por um cinegrafista hoje se tenho aprendido em meu estágio.
Sim, muita coisa - respondi. A mais preciosa delas se chama paciência - completei.
"A paciência é saber esperar calmamente e alegremente aquilo que lhe é devido", disse-me o Tião. E finalizou dizendo: "Os grandes guerreiros são feitos pela convivência com tiranos".
Não sabia o que dizer. Não havia o que dizer.
Silêncio... (...)
Será que tudo isso vale a pena?
Não sei.
Hoje não foi um bom dia.
Amanhã talvez, o que me é devido esteja mais próximo.
Amanhã talvez, seja mais guerreira que fui hoje.
Amanhã os tiranos estarão lá.
Amanhã talvez, eu aprenda um pouco mais.

sábado, 8 de maio de 2010

Dia das mães











Eu sabia, ela estava ali. Ela me dizia. Me chamava pelas entranhas, como o batucar do peito que já soava junto a alma. Foi a mais maravilhosa notícia, a mais preciosa conquista. Eu sabia, nada seria como antes. Seria deliberadamente diferente. Não mais dormir, não mais sentir a aquietação do peito, ter uma preocupação constante e um medo aterrorizante de que algo ruim aconteça. Uma angústia recompensante, um desconforto prazeiroso. O tão dito "padecer no paraíso". Ainda me lembro dos 5 milímetros que existia em meu ventre, não possuía nem braços, nem pernas, nem nariz, nem formato, mas tinha um pequeno coração que batia valente, me dizendo que estava viva, que já existia em mim. Todo esse trajeto desgastante da gravidez foi o mais ansioso de toda a minha vida. Nunca, em meus 24 anos de vida, vi 9 meses se passarem tão lentamente como estes. Talvez pudesse ter aproveitado mais essa união misteriosa da gestação, se não tivesse tanta pressa em tê-la em meus braços. Uma pressa conflitante com o medo que tinha de ter um parto prematuro. Mais uma dessas contradições da maternidade. E hoje, cá estou, chorando o tempo que se foi, chorando o tempo que tenho vivido, chorando o tempo que ainda vou viver. Porque ser mãe é mesmo assim, um sentimento magnífico e inexplicável. Queremos que o tempo passe, que o tempo fique, que o tempo volte. Queremos o passado, o presente e o futuro dos filhos. Queremos os filhos todinhos pra gente, pra vida nada. Queremos os filhos eternizados, guardados, embrulhados em nossos colos aconchegantes. E quando vemos, a vida os leva, a vida os fazem sentir esse ímpeto de nostalgia, essa abundância de sentimento inacabável....
Mãe.......
Não há o que dizer.
Perco as palavras.
Deixo de existir.
Feliz dia das mães.






sexta-feira, 7 de maio de 2010

Sentida

Estou aqui, nas amarras da vida. Trabalhando, estudando, lamentando. Para quê? Ou melhor, para quem? Para nada, nem para ninguém. Para me esvaziar ainda mais desse vazio. Minha maior recompensa é chegar em minha casa e ser agraciada com o sorriso sincero de minha pequena jóia. Meu maior tesouro, menos guardado e menos dedicado. Sinto saudades... Sinto.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Não sabemos viver


Mas...

Desejamos muito ter filhos, mas passamos mais tempo com os outros do que com eles...
Queremos uma casa nova, mas ficamos mais tempo na rua do que no lar...
Sonhamos com um marido que nos ame, e gastamos todo o nosso tempo despejando nossa raiva ao nosso derredor...
Ajuntamos nossas economias para o carro do ano, e poucas são as vezes que saímos para dar um passeio com a família...
Não queremos envelhecer, mas gastamos nossa juventude por dinheiro, e no final, já não temos mais forças para desfruta-lo...
Colocamos todo o nosso empenho em nossa realização profissional, e o desgaste físico é superior ao prazer de se fazer o que gosta....
Temos medo da morte, mas não sabemos viver.

domingo, 2 de maio de 2010

A lucidez perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer,
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que,
que faço dessa lucidez?
Sei também que essa minha lucidez
pode se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que,
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação -
resignada à realidade
essa clareza de realidade
é um risco

Apagai pois, minha flama, Deus
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me de novo a consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto
eu consisto
Amém.

(Clarisse Lispector)

Não quero consistir
de modos possíveis
quero me alcançar
e me afastar da lucidez vazia
essa clareza de realidade
é um risco
eu não consisto
eu não consito
Amém

Juju

Romance

Procurei alguém...
Ele era bonito, tinha olhos azuis.
Procurei alguém....
Ele era alto, tinha cheiro másculo.
Procurei alguém...
Ele era inteligente, bem sucedido.
Procurei alguém...
Ele era médico e economista.
Procurei alguém carinhoso, bondoso, cheio de amor para mim.
Procurei...
Alguém?
Li romance demais.
Acordei.

Inocência

Ela vai crescer
E vai ser como nós....
Que fique a imagem singela
a face bela
a educação desejável...
Que fique pelo menos com uma parte da inocência...
E todo esse resto de maldade
Se torne em lição...
que a faça virtude e sobrevivência

quinta-feira, 29 de abril de 2010

terça-feira, 27 de abril de 2010

Dai a César

Vinha da faculdade, cansada, os olhos querendo fechar.... Era tarde, mas ainda pude ver batento no pára-brisas um papel pequeno, mas terrivelmente assustador. Uma multa de trânsito. Não posso esconder minha indignação. Não sou contra multas e acho-as perfeitamente louvaveis, quando aplicadas com bom-senso. O problema todo, é que procuram sempre uma brechinha na lei para aumentarem ainda mais os cofres (ou os bolsos) públicos. É incompreensível, que em um país onde se paga tanto imposto (IPVA, ICMS, PIS, COFINS, PASEP, IRF, etc, etc), não tenhamos estradas, médicos, hospitais, segurança pública.... E ainda assim temos pessoas disponíveis a estarem as 8 ou 9 horas da noite """caçando""" carros para cumprirem suas metas de punições. O mais engraçado disso tudo é que tenho parado meu carro em uma rua erma, parada, sem placas de sinalização. E sempre ao chegar na faculdade, sigo caminhando com medo, pelo meio do asfalto esburacado, quase torcendo o pé ou quebrando o salto, porque sinto medo de andar pelos cantos. É que aqui, nesse país em que vivo, não temos liberade de andar com confiança, porque há mais bandidos que policiais. E o mais engraçado disso tudo, é que eles não estão lá para fiscalizarem e protegerem a população, mas estão para aplicarem infrações de trânsito, enquanto estamos em uma sala de aula tentando ter uma profissão digna em um país de corruptos. Tenho 24 anos, já fui assaltada na rua, já me roubaram o carro, já assaltaram meu apartamento e já roubaram toda a loja onde trabalho, enquanto eu estava amarrada em um de seus cômodos. Sei, que nos próximos anos que virão, estou sujeita a coisas piores, porque não há proteção. E isso não é má sorte: é má nacionalidade. Todo bom brasileiro sabe do que estou falando, e se não sabe, é bom ficar esperto. Enquanto tento financiar minha faculdade, porque nosso governo não nos dá direito a ter uma faculdade pública, se não passarmos bons anos estudando em colégios particulares (para quem não sabe, a média de alunos de escolas públicas na federais é de meros 20%), pessoas morrem, cabeças rolam, crianças são jogadas pela janela, assassinos são soltos das penitenciárias para cometerem novos crimes. E deve haver quem diga: tudo isso por uma multa? Não. Não ficarei mais pobre, nem mais rica. Ficarei sim, menos brasileira. Ou mais brasileira talvez. Porque esse sentimento de revolta, ou me afastará mais do amor a pátria, ou me fará como eles: medíocres.
Nunca fui patriota. Acho ridículo vestirmos a bandeira de um país que não tem justiça. Uma terra sem leis. Quem já esteve nos Estados Unidos sabe do que estou falando. E ainda chingam os americanos, que podem ser frios, calculistas, psicopatas, mas sabem punir quando preciso, sabem lutar pela vida e pela dignidade humana. E com certeza, antes de entrarem nas ruas ermas procurando carros para aplicarem multas, disponibilizam faculdades com estacionamentos gigantescos. E apesar de não serem instituições públicas, existe toda uma estrutura de preparo para que as pessoas possam adentrar seus estudos.
Enquanto perderei meus 60, 70 ou 80 reais nessa brincadeira de hoje, aquecerei algum bolso por aí, ou alguns talvez, apesar de já terem dinheiro o suficiente para proliferarem ainda mais esse rastro de desonra brasileira.
Enquanto isso, eu, mera estagiária de jornalismo na tv bandeirantes, tive de ouvir no telefone uma senhora desesperada porque um parente estava a beira da morte sem socorro em um hospital público. É que deve estar gastando um pouquinho a mais com alguns desses impostos brasileiros, e portanto, não deve conseguir pagar por um plano de saúde e ter um pouco de dignidade no atendimento médico.
É preciso pagar, e se adentrar nesse breu de conformismo dessa terra que chamamos de nação. Afinal, já diziam a dois mil anos atrás para "dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus"...... Eu só não tinha percebido, que quando damos a César e não damos a Deus, damos a César o que é de César, e também o que é de Deus....

domingo, 25 de abril de 2010

ali

Lá estava ela.
O corpo era o retrato da sombra.
A alma era a moldura da cor.
O corpo, o contorno. A alma, o recheio.
Nada mais era preciso, apenas estar ali.
A moça sorriu.
Uma era a cor.
A outra, a percepção.
Uma era a vida.
A outra, a existência.
A alma sem o corpo seria a natureza vaga.
O corpo sem a alma seria a menina vã.
A alma estava livre.
O corpo estava ali.

Seres

Ainda outro dia quis mudar a vida. Quis fazê-la mais doce, mais fácil. É o que fazemos sempre. Vivemos tentando mudar a casa, o cabelo, o corpo... Vivemos na tentativa infinda de resgartar os sonhos que alimentam nossas ilusões. O cara perfeito, o dinheiro abundante, a idealização de histórias inalcançáveis. Nos permitimos as tentativas dessa aproximação pelo conto perfeito, que na íntegra não passa de uma parte de nossas conquistas pouco satisfatórias. Muito pouco fazemos por nosso próprio coração. O difiícil mesmo é mudar o ser, que como tudo sólido tem se desfeito no ar. Para onde? Onde resgatar a essência da alma? Continuei seguindo a estrada trabalhosa e trabalhada. Fui trabalhar um pouco mais na vã tentativa de mudar minha principiante carreira profissional. Essas estradas transitadas e congestionadas, feitas por um engenhoso engenheiro. Doutor. Pouco anda, muito diz. Somos transbordantes de racionalidade e inteligência. Lutadores, desbravadores, matadores, amadores. Seres. Será? Fomos.

Crescemos...




Não é mais pique, nem mais pega.
É o esconde-esconde da vida.
Não é mais inocência, é decência.
Não é mais cumplicidade, é responsabilidade.
Nem Pedrinho, nem Julinha.
Nem filhos, nem irmãos.
É papai, é mamãe, é patrão.
Que o tempo não volta jamais.
É nostalgia que angustia.
É titio, é titia.
Que o tempo não deixe levar.
E leva.
Não mais será priminha, nem Lulu, nem Clarinha...
Crescemos.
Cresceremos.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Moça...

Naquele dia, a moça pairava feito uma ave que se eleva pelo ar. Se sustentava sobre as asas da imaginação. Os dias estavam indecisos, como a si mesma. O sol que aquecia os corpos parecia brigar com a gélida sensação dos ventos pálidos de abril. Procurava balbuciar o cântico da sublimação, sua busca era encontrar-se. A estafa a aprisionara nesse casulo que não a pertencia mais. Vivia pelos arredores, se encaixando e se espremendo nesse coração incrédulo. Se encaracolava pelos cantos, e fazia nascer uma angústia profunda na casca anfitriã. Já não mais sabia o sentido dessa aliança entre o corpo e alma. Era preciso desacorrentar-se desses caminhos sem sentido algum. Se agarrava nos objetivos, meramente racionais e muito pouco significativos. Queria mudar, mas não sabia como. Era a moça e nada mais. Aquela mocinha que sente, que ouve e tem sentimentos, mas ninguém vê. Chorou desenfreadamente. A existência de um ser não depende de sua capacidade de ser palpável. Era preciso ser percebida. Ela não estava ali, não era ninguém.

Reclamação????

Bem-vinda à vida senhorita (ops, já é senhora agora).
É chegada novamente a esse mundo de estranhezas. Mais uma vez conhecera essa parcela dolorosa de futilidades.
Para quem escrever, para quem reclamar?
Talvez ao próprio coração.
Se existir ainda...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Alma


Moça

Escureceu. Já era noite. Perambulava pelas ruas, sem saber o que fazer. Não tinha aonde ir nem a quem recorrer. Era mais uma entre o vai-vém de pessoas, nas esquinas recheadas de desdém. Nada assim tão anormal para os dias de hoje. É que vivemos em uma maré de egoísmo tão grande, que nada mais importa, quanto mais alguém. Ficou ali, pensando, desenhando na mente o pôr-do-sol e as árvores que toda infância insiste em colorir nas páginas. Em nossa pouca idade temos um excesso de fantasias prazeirosas, onde espelhamos nossas frustradas projeções. E tudo passa a ser aquilo ali: uma ruazinha erma, um breu de espectativas, uma multidão solitária em sua própria vagueza de espiríto. Os comerciantes abaixavam suas portas, era tudo o que podia ouvir: o barulho do metal anunciando a partida dos trabalhadores. Só não se podia saber quem iria de encontro a família, isso já não existe tanto quanto antes. Muitos andariam por aí, como a moça perdida da esquina, refletindo o que parece não ter mais controle. Muitos se agarrariam nos braços da amante, nas garras da imoralidade, do vício e da deprimente escolha mal feita. É quase sempre assim, pessoas se afundando nas escolhas erradas, mergulhando no abismo que a própria mão aos poucos cavucou. As lágrimas, silenciosas, não se podia ouvir, nem sentir, nem ver. Tudo era estranho demais, frio demais. O vento soprava e arrepiava os poros. O inverno chegara sorrateiro. A moça, cansada, procurava forças para levantar. Tentava ordenar as pernas que caminhassem, que a levassem para um lugar seguro. Já não bastava querer, era preciso mais que isso. Mais que isso sempre, sempre mais. Aquela moça, de família nobre e cultura vasta, já não podia acreditar. Se jogou na realidade incrédula da rotina fracassada. Se afundou na lama das decepções. Ela não sabia que o amor já não importa tanto, as veze até atrapalha. Ela não sabia, que não se pode esperar, é preciso fazer. Então soprou as velas da esperança e abriu as portas da desilusão. Deixou de idealizar. Passou a sonhar mais, e percebeu que é preciso acreditar mais em si do que nas pessoas, e nunca, nunca apostar na vida. Um novo dia nasceria em breve. Se enrolou no afago dos lençóis e os abraçou como se depositasse toda a potência que lhe restara. Era hora de acordar. As buzinas a lembraram. Esse é o sussurrar da vida. Nós a fizemos assim. O medo a prendeu nas entranhas, a impediu de circular livremente entre tudo isso que não mais sabemos. Então, a moça se adentrou no corpo, se ajeitou no canto desse peito que as vezes se aperta e as vezes se esvazia demais. E dormiu. Restaram-lhe as prosas.

terça-feira, 23 de março de 2010

Isabella

É tempo de julgamento. No banco de réu, Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá. Não há quem não os conheça e acredito que ainda serão tema de estudo em muitas universidades brasileiras. Já os estudei em meu curso de jornalismo. Não sei se são culpados, tudo indica que sim. Mas é aquela velha regra: "todos são inocentes até que se prove o contrário"... Então, que se prove ou se entregue à Deus! Esse fato lamentável aconteceu quando estava grávida de minha pequena. Chorei desenfreadamente. Não consigo olhar aquela fotinha sorridente que me desmorono imediatamente. Pensei em colocá-la aqui nesse meu espaço pessoal, mas não seria forte o suficiente para conviver com essa imagem. Sei perfeitamente, que crimes como este ou de pior proporção acontecem diariamente. Mas não podemos negar que aquele rostinho cativou milhares de pessoas em todo o mundo. Uma judiação. Lendo os jornais pela manhã, vi o relato da mãe, Ana Carolina, e a descrição de suas lágrimas durante o seu depoimento. "Aí, logo vi minha filha caída na grama, do lado direito de quem entra no prédio. Quando cheguei, eu a vi. Ajoelhei na frente dela. Coloquei a mão no coraçãozinho dela, que batia bem rápido..." Fico aqui pensando em minha pequena. Não sei se saberia suportar a dor de perdê-la. É imensurável. Penso que perder um filho seja como perder uma alma, ter um corpo com casca e sem conteúdo. Como aqueles caramujos que encontramos perdidos na infância. Geralmente secos, sem vida. Porque não há mais ninguém ali. Chego a sentir uma incrível sensação de desespero só de pensar por um momento.... Tenho pena dessa mãe. Tenho pena dessa criança linda que perdeu a vida, mas tenho plena convicção de que esteja com Deus. Não há como conduzir uma escrita imparcial sobre esse assunto, sem me voltar para esse lado materno inexplicável que trazemos conosco. Que seja feita justiça. E que haja conforto.