sábado, 27 de novembro de 2010

sobrevida

Na minha infância tinha o costume de me esconder dentro do guarda-roupas. Permanecia ali por horas, tentando me esconder das pessoas, de mim... Hoje quis muito menos que isso, uma simples caixinha de fósforo, talvez. Algo que pudesse me deixar bem apertadinha, como meu tamanho: pequena e inexistente. Queria voar por aí, como a poeira que ninguém vê, na mais imperceptível das sensações - estar e não ser notada.
A pior parte da vida é o "precisarmos" de alguma coisa. É você precisar trabalhar para ganhar dinheiro, e não por ter prazer no que faz. É você precisar estudar, porque o mercado exige isso e não porque você quer aumentar seu nível cultural. É você precisar estar casada, porque a dor da separação é maior que a felicidade do relacionamento. É você precisar acordar cedo, porque tem horário e não porque quer ir fazer uma caminhada ou porque vai a praia. Muitas das escolhas que a vida nos cede são apenas retratos camuflados de uma liberdade limitada. Algumas saídas trazem sempre consequências dolorosas. Acho que muitos de nós gostaríamos de ter nascido de outra forma, em outro lugar, de ter conhecido amigos diferentes, vivido coisas diferentes. Não sei se somos eternos infelizes, eternos ingratos ou eternos insatisfeitos, mas sei que eternamente algo nos faltará. Não existe felicidade completa, pessoa completa, realização completamente satisfatória. Não existe vida, que no final, por sua própria inconsistência, não seja, na verdade, sobrevida.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Retalhos

Seria bem mais fácil, se construíssemos nossas vidas com bloquinhos de madeira. Se pudéssemos montá-la e desmontá-la de acordo com nosso estado de espírito, de acordo com as cores da estação. Hoje, pintaria minhas paredes de cinza, fecharia as cortinas da casa e o ziper do meu coração. Deixaria que árvores renovassem suas folhas, se escondessem no luto do inverno rigoroso. Escutaria a triste orquestra do vento, dizendo que é tempo de agasalhar a alma. A vida, porém, é como a água que se polui no orvalho das chaminés. A pureza que se perde no ciclo tira o equilibrio da existência. Deixamos de ser um acerto unânime, para nos tornar uma cadeia de erros, um enlace de retaliações, uma busca infinda por consertos vãos.