domingo, 31 de julho de 2011

Causa perdida


Um dia você anuncia o divórcio. A família dele, parece festejar o novo “status” de relacionamento. A dela, lamenta. Alguns amigos apóiam, outros, discordam – há os que se calam. Há quem te chame para sair, fazer compras, preencher seu tempo e não permitir que se afunde no vazio do desgosto. Há quem te aconselhe a voltar e quem te incentive a curtir a solteirice. No meio de tudo isso, ele e ela. Ambos confusos e aparentemente certos da decisão. Tudo se mistura, num emaranhado de opiniões. Ainda que escasso, lá no último canto da alma, sempre existe a tristeza da perda, a destruição do lar. Então, os dias se passam, cada qual vai se adaptando a nova vida – ainda que ela se resuma num mundo vazio, desfeito e sem sentido.


Os “amigos” dele combinam as “peladas” semanais, os parentes se encarregam de indicar as amigas. Ele já nem sabe mais se deveria ter se casado algum dia, começa a acreditar que o relacionamento foi um erro. Ele acorda a hora que quer, não precisa se preocupar em pagar as contas ou ser incomodado no meio da madrugada com os choros da criança. Os colegas ressurgem do nada, como se a esposa tivesse sido um furacão que desfez todo um vínculo da infância. Ele se programa para as férias na praia, para as morenas do litoral e as festas com a família, que há tanto não eram curtidas com tanta liberdade.


Ela, esporadicamente, se desfaz dos resquícios das lembranças. Tenta tirar do aparamento objetos que marcaram, de alguma forma, o período em que estiveram juntos. Passa a trabalhar mais, ser responsável por quase tudo, a dormir menos, carregar a criança e as sacolas do supermercado. A família liga – insiste em querer contribuir para a reconstrução do casamento. Ela sabe que não é tão simples. As palavras doem, as recordações doem – não existe o que fazer. Ela tenta colocar seu foco nos estudos e na profissão. As amigas, solícitas, amparam, independente de qual seja a decisão – o mais importante é que ela seja feliz. Se não quer farra, vejamos um filme, não quer ficar em casa, vamos às compras. E os dias se passam, colando retalhos num coração ferido.

O final de semana acaba. Ela senta e respira fundo. Mais uma semana que começa. Mais um dia, mais um mês. Ela já nem pensa em se casar de novo, não olha pros lados na rua nem se importa tanto em se arrumar. O tempo que sobra é para filha ou para adormecer no sofá – pensando ou escondendo-se da enxaqueca constante.

Somos como um rosto de argila. Cada palma que nos toca deixa suas digitais, reproduzem seu reflexo, criam rugas. Somos frutos do meio. Conseguimos, rapidamente, esquecer-nos da solidez de uma família, dos almoços, dos passeios, das ficuldades enfrentadas e superadas - sempre em cumplicidade. Entramos para o time vazio que só quer mais um para tentar se aquecer. E no final, não apenas acreditamos nele, como passamos a pensar como ele. Deveríamos ser como membros de um júri, nos afastar do mundo, nos trancar na esterilidade de informações – ter uma decisão sem moldes. Persuadiram o juiz e eu, perdi a causa.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Solidão

Estou em cima da paineira, mais alta que o muro, observadora muda. A cada hora trocando de selva, de galho, de visão e acompanhamento. Não quero me mexer, não quero voar, tenho medo da amplitude, ainda mais incerta que a ilha que me posto. Aconchego minha alma num espaço vago, há muito mais do que eu possa preencher. Sou a valsa legítima, desacompanhada, em um salão sem música, sem cerimônia e sem convidados. Só me resta a dança sóbria e o eco que me conforta nas doces palavras que eu mesma me dirijo. Sinto o afago do peito que me afasta da realidade fria - me afundo na astúcia dos meus sonhos íntimos, infímos, peculiares. Me desperto na presteza de quem se desliga da verdade, do meu mundo de prazer fictício. Não há com quem dividir o sol, nem apreciar a lua ou contrar as estrelas do céu. Fecho as cortinas, aninho os cobertores da cama e me ajeito entre as pernas que se encolhem. Nada mais há - adormeço, na mais profunda solidão.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Katrina - Luísa e eu


Estava tudo ali, na mais perfeita simetria. A cama, rigorosamente feita, sem rugas. As almofadas, enfileiradas, formavam uma seqüência impecável. Os quadros no lugar, os móveis no lugar, a vida no lugar. As toalhas no banheiro, alvas, denotavam a existência de uma família – éramos três. Sempre tive uma preocupação excessiva com as portas da casa – parte de um medo perturbador de uma invasão inesperada. Enquanto me preocupava em trancar as fechaduras, esqueci-me de conferir as janelas. Um certo dia, uma ventania entrou pelas frestas, derrubou minhas plantas, quebrou meus vasos, desfez minha ordem. Carregou para longe objetos de valor. Transtornou minha história. Espalhou fotografias pelo ar, como partículas que se desmembram pela eternidade. Restou-me entre a bagunça. Eu, os retalhos, os resquícios do furacão Katrina. Já nem me importa tanto, se pagaram gurus para enviar o vento, se afrouxaram as gretas que os deixaram entrar, se fizeram tanto, tanto esforço, tanto apelo, para toda essa devastação. Já nem me importa se me enganei na falsa força de quem não teme inveja, de quem não teme os votos contra e se, nessa confiança enfadonha, me esqueci de me cercar com escudos de proteção. Me importa, agora, respirar bem fundo, sugar todo o fôlego que me resta, catar os cacos com a pá e reconstruir toda essa limpidez. A coragem da construção é menos necessária que a perseverança do recomeço. Mas preciso tentar. Enquanto formos duas. Enquanto houver uma razão que me importe tanto.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Último suspiro


Hoje foi mais um dia daqueles – como qualquer outro. Um dia em busca de um sentido. Um dia comum, incomum. A melhor parte de tudo isso é nomeá-lo sexta-feira. É esse pouquinho de descanso em que nos agarramos – nos motiva a prosseguir. Hoje foi um dia em que recolhi com meu cesto de feira, um bocado de tristeza. Tristeza colhida no pé, fresca, pronta para ser servida. Reuni no meu peito as lágrimas que cultivei por aí, as lágrimas que cultivaram, as lágrimas que inundam a alma. E cá estou, mergulhada num rio profundo – já nem sei separar as fontes. Continuo nadando e tento não olhar para trás. Tento não medir o trajeto que me falta – uma mente cansada desmotiva o corpo. Pela primeira vez, em um tempo incontável, queria curar o mundo, sarar as feridas que deixei por aí, doar sorrisos pras amigas. Queria adiantar o tempo, voltar o tempo, estar no tempo. Queria que as coisas fossem mais fáceis. Queria comprar um tiquinho de felicidade, nem que tivesse que trabalhar por horas e dias e noites e anos... Repartiria para uns dois ou três. Deixaria um tanto no meu peito. Só queria, Deus, de volta, meus sonhos. Queria ler aqueles gibis de romance da adolescência e acreditar na magia de tudo isso. Queria costurar no pensamento meu vestido de noiva, fazê-lo e refazê-lo quantas vezes for preciso sem ter que me preocupar com a alfaiataria. Queria deitar na cama e sentir o cheiro da esperança. Fecharia as janelas da casa, vedaria as gretas, respiraria todo esse aroma até a última partícula de oxigênio. Só, enfim, na última gota, entregaria meus pulmões.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Calendário fictício



Sempre gostei de escrever sobre os anos, no rompimento desses. A virada de um ano é sinônimo de renovação de expectativas. Apesar de ainda estarmos na metade de 2011, não me contive em descrever uma prévia retrospectiva de seus significados. É como uma laranja que esgotou seu sumo – não há mais o que esperar. Acabou-se um ano, ainda antes de acabar. Então, é hora de rever o que passou, mirar o próximo – ainda distante – 2012.

O último ano, que me recordo, tão ruim como esse, foi em 1997. Mortes, tristezas, falta de direção, poeira voando pelo ar. Agora estou aqui, colocando na balança os desprazeres e os gozos – minúsculos, quase inexistentes. E não me refiro apenas a meu mundo particular. As pessoas com quem convivo devem concordar comigo – muitas delas. Términos de relacionamentos, sonhos frustrados, perda de parentes, famílias destruídas, profissões desfeitas.

O que houve, Senhor? Eu me arrisco a perguntar. Não acho que Deus tenha se rebelado. Talvez tenha apenas permitido que nos afoguemos em nossa própria rebelião. É natural que a vida esteja como está. Afogamo-nos a cada dia na nossa falta de valores. Largamos tudo por um “tiquinho” de prazer e tudo isso acaba representando uma socialização cheia de alardes. Mas nosso interior está seco, como um deserto. Não estamos regando a alma, estamos semeando o moderno aceitável.

Quando penso que não pode piorar, sim, estou pior que ontem. Meus amigos também, ainda que não percebam. Estamos trocando ouro por lentilha, jogando pérolas aos porcos. E tenho visto tudo tão distante – o futuro, o passado. Só me resta um presente sem sentido. Não há como resgatar o que perdi, nem projetar o que objetivei. O que fazer? Espero por seis meses vãos, cheio de notícias ruins. E acredito em um 2012 de renovação. É essa nossa cultura de fim de ano, nosso amuleto da perseverança. Mas quando um ano acaba na metade, só nos resta esperar. Viver um dia após o outro, não há mais o que tirar, não há suco, nem essência – somente um período de vagueza. Que passe logo esse limbo que restou. Adeus, 2011. Feliz ano novo a todos – enquanto esperamos, num anestésico calendário fictício.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Transplante de coração


Eu queria um coração novo. Um que batesse com todo o ânimo, que estivesse cheio de sonhos e receptivo ao aprendizado. Queria um coração puro, daqueles que temos na infância. Um que pulasse bem forte e fizesse cócegas na barriga, esfriando até a espinha – um coração adolescente. Queria um coração que estivesse limpo, sem mágoas. Não queria mais esse peito sobrecarregado, decepcionado, cheio de amarguras. Queria abrir meu corpo com faca, retirar dele esse músculo pulsante e colocar um que conseguisse perdoar. Algum que não se lembrasse mais dessas frustrações, que me permitisse acreditar novamente. Um coração que pudesse amar. Que pudesse sentir e que me desse vida. Não apenas sobrevida.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sem alcance




Vivemos sempre na expectativa de um futuro distante. Guiamos nossas pernas sem medir a extensão da caminhada toda e, por isso, quase sempre, nos esquecemos de calçar os pés para os trajetos de cascalhos. Não nos preparamos para as poças, nem para o percurso íngreme, porque fazemos da vida um contexto descontínuo. Passamos pela juventude dotados de beleza, força e disposição e fazemos dos nossos próprios erros, escambo para obter aprendizado. Quando enfim, começamos a notar as escolhas que não deveríamos ter feito ou as oportunidades que deixamos de agarrar, percebemos que só o tempo é capaz de nos mostrar com clareza decisões outrora tomadas. A medida em que nos distanciamos do ápice de nossa presteza, ganhamos mais amplitude de visão, entretanto, menos poder de alcance. Passamos a ser meros admiradores de uma existência que se contradiz em lamentar-se pelo que perdeu e aclamar-se pelo que, afortunadamente, acertou – ainda na ausência da sabedoria