
quinta-feira, 29 de abril de 2010
terça-feira, 27 de abril de 2010
Dai a César
Vinha da faculdade, cansada, os olhos querendo fechar.... Era tarde, mas ainda pude ver batento no pára-brisas um papel pequeno, mas terrivelmente assustador. Uma multa de trânsito. Não posso esconder minha indignação. Não sou contra multas e acho-as perfeitamente louvaveis, quando aplicadas com bom-senso. O problema todo, é que procuram sempre uma brechinha na lei para aumentarem ainda mais os cofres (ou os bolsos) públicos. É incompreensível, que em um país onde se paga tanto imposto (IPVA, ICMS, PIS, COFINS, PASEP, IRF, etc, etc), não tenhamos estradas, médicos, hospitais, segurança pública.... E ainda assim temos pessoas disponíveis a estarem as 8 ou 9 horas da noite """caçando""" carros para cumprirem suas metas de punições. O mais engraçado disso tudo é que tenho parado meu carro em uma rua erma, parada, sem placas de sinalização. E sempre ao chegar na faculdade, sigo caminhando com medo, pelo meio do asfalto esburacado, quase torcendo o pé ou quebrando o salto, porque sinto medo de andar pelos cantos. É que aqui, nesse país em que vivo, não temos liberade de andar com confiança, porque há mais bandidos que policiais. E o mais engraçado disso tudo, é que eles não estão lá para fiscalizarem e protegerem a população, mas estão para aplicarem infrações de trânsito, enquanto estamos em uma sala de aula tentando ter uma profissão digna em um país de corruptos. Tenho 24 anos, já fui assaltada na rua, já me roubaram o carro, já assaltaram meu apartamento e já roubaram toda a loja onde trabalho, enquanto eu estava amarrada em um de seus cômodos. Sei, que nos próximos anos que virão, estou sujeita a coisas piores, porque não há proteção. E isso não é má sorte: é má nacionalidade. Todo bom brasileiro sabe do que estou falando, e se não sabe, é bom ficar esperto. Enquanto tento financiar minha faculdade, porque nosso governo não nos dá direito a ter uma faculdade pública, se não passarmos bons anos estudando em colégios particulares (para quem não sabe, a média de alunos de escolas públicas na federais é de meros 20%), pessoas morrem, cabeças rolam, crianças são jogadas pela janela, assassinos são soltos das penitenciárias para cometerem novos crimes. E deve haver quem diga: tudo isso por uma multa? Não. Não ficarei mais pobre, nem mais rica. Ficarei sim, menos brasileira. Ou mais brasileira talvez. Porque esse sentimento de revolta, ou me afastará mais do amor a pátria, ou me fará como eles: medíocres.
Nunca fui patriota. Acho ridículo vestirmos a bandeira de um país que não tem justiça. Uma terra sem leis. Quem já esteve nos Estados Unidos sabe do que estou falando. E ainda chingam os americanos, que podem ser frios, calculistas, psicopatas, mas sabem punir quando preciso, sabem lutar pela vida e pela dignidade humana. E com certeza, antes de entrarem nas ruas ermas procurando carros para aplicarem multas, disponibilizam faculdades com estacionamentos gigantescos. E apesar de não serem instituições públicas, existe toda uma estrutura de preparo para que as pessoas possam adentrar seus estudos.
Enquanto perderei meus 60, 70 ou 80 reais nessa brincadeira de hoje, aquecerei algum bolso por aí, ou alguns talvez, apesar de já terem dinheiro o suficiente para proliferarem ainda mais esse rastro de desonra brasileira.
Enquanto isso, eu, mera estagiária de jornalismo na tv bandeirantes, tive de ouvir no telefone uma senhora desesperada porque um parente estava a beira da morte sem socorro em um hospital público. É que deve estar gastando um pouquinho a mais com alguns desses impostos brasileiros, e portanto, não deve conseguir pagar por um plano de saúde e ter um pouco de dignidade no atendimento médico.
É preciso pagar, e se adentrar nesse breu de conformismo dessa terra que chamamos de nação. Afinal, já diziam a dois mil anos atrás para "dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus"...... Eu só não tinha percebido, que quando damos a César e não damos a Deus, damos a César o que é de César, e também o que é de Deus....
domingo, 25 de abril de 2010
ali
Lá estava ela.
O corpo era o retrato da sombra.
A alma era a moldura da cor.
O corpo, o contorno. A alma, o recheio.
Nada mais era preciso, apenas estar ali.
A moça sorriu.
Uma era a cor.
A outra, a percepção.
Uma era a vida.
A outra, a existência.
A alma sem o corpo seria a natureza vaga.
O corpo sem a alma seria a menina vã.
A alma estava livre.
O corpo estava ali.
Seres
Ainda outro dia quis mudar a vida. Quis fazê-la mais doce, mais fácil. É o que fazemos sempre. Vivemos tentando mudar a casa, o cabelo, o corpo... Vivemos na tentativa infinda de resgartar os sonhos que alimentam nossas ilusões. O cara perfeito, o dinheiro abundante, a idealização de histórias inalcançáveis. Nos permitimos as tentativas dessa aproximação pelo conto perfeito, que na íntegra não passa de uma parte de nossas conquistas pouco satisfatórias. Muito pouco fazemos por nosso próprio coração. O difiícil mesmo é mudar o ser, que como tudo sólido tem se desfeito no ar. Para onde? Onde resgatar a essência da alma? Continuei seguindo a estrada trabalhosa e trabalhada. Fui trabalhar um pouco mais na vã tentativa de mudar minha principiante carreira profissional. Essas estradas transitadas e congestionadas, feitas por um engenhoso engenheiro. Doutor. Pouco anda, muito diz. Somos transbordantes de racionalidade e inteligência. Lutadores, desbravadores, matadores, amadores. Seres. Será? Fomos.
Crescemos...
Não é mais pique, nem mais pega.
É o esconde-esconde da vida.
Não é mais inocência, é decência.
Não é mais cumplicidade, é responsabilidade.
Nem Pedrinho, nem Julinha.
Nem filhos, nem irmãos.
É papai, é mamãe, é patrão.
Que o tempo não volta jamais.
É nostalgia que angustia.
É titio, é titia.
Que o tempo não deixe levar.
E leva.
Não mais será priminha, nem Lulu, nem Clarinha...
Crescemos.
Cresceremos.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Moça...
Naquele dia, a moça pairava feito uma ave que se eleva pelo ar. Se sustentava sobre as asas da imaginação. Os dias estavam indecisos, como a si mesma. O sol que aquecia os corpos parecia brigar com a gélida sensação dos ventos pálidos de abril. Procurava balbuciar o cântico da sublimação, sua busca era encontrar-se. A estafa a aprisionara nesse casulo que não a pertencia mais. Vivia pelos arredores, se encaixando e se espremendo nesse coração incrédulo. Se encaracolava pelos cantos, e fazia nascer uma angústia profunda na casca anfitriã. Já não mais sabia o sentido dessa aliança entre o corpo e alma. Era preciso desacorrentar-se desses caminhos sem sentido algum. Se agarrava nos objetivos, meramente racionais e muito pouco significativos. Queria mudar, mas não sabia como. Era a moça e nada mais. Aquela mocinha que sente, que ouve e tem sentimentos, mas ninguém vê. Chorou desenfreadamente. A existência de um ser não depende de sua capacidade de ser palpável. Era preciso ser percebida. Ela não estava ali, não era ninguém.
Reclamação????
Bem-vinda à vida senhorita (ops, já é senhora agora).
É chegada novamente a esse mundo de estranhezas. Mais uma vez conhecera essa parcela dolorosa de futilidades.
Para quem escrever, para quem reclamar?
Talvez ao próprio coração.
Se existir ainda...
É chegada novamente a esse mundo de estranhezas. Mais uma vez conhecera essa parcela dolorosa de futilidades.
Para quem escrever, para quem reclamar?
Talvez ao próprio coração.
Se existir ainda...
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Moça
Escureceu. Já era noite. Perambulava pelas ruas, sem saber o que fazer. Não tinha aonde ir nem a quem recorrer. Era mais uma entre o vai-vém de pessoas, nas esquinas recheadas de desdém. Nada assim tão anormal para os dias de hoje. É que vivemos em uma maré de egoísmo tão grande, que nada mais importa, quanto mais alguém. Ficou ali, pensando, desenhando na mente o pôr-do-sol e as árvores que toda infância insiste em colorir nas páginas. Em nossa pouca idade temos um excesso de fantasias prazeirosas, onde espelhamos nossas frustradas projeções. E tudo passa a ser aquilo ali: uma ruazinha erma, um breu de espectativas, uma multidão solitária em sua própria vagueza de espiríto. Os comerciantes abaixavam suas portas, era tudo o que podia ouvir: o barulho do metal anunciando a partida dos trabalhadores. Só não se podia saber quem iria de encontro a família, isso já não existe tanto quanto antes. Muitos andariam por aí, como a moça perdida da esquina, refletindo o que parece não ter mais controle. Muitos se agarrariam nos braços da amante, nas garras da imoralidade, do vício e da deprimente escolha mal feita. É quase sempre assim, pessoas se afundando nas escolhas erradas, mergulhando no abismo que a própria mão aos poucos cavucou. As lágrimas, silenciosas, não se podia ouvir, nem sentir, nem ver. Tudo era estranho demais, frio demais. O vento soprava e arrepiava os poros. O inverno chegara sorrateiro. A moça, cansada, procurava forças para levantar. Tentava ordenar as pernas que caminhassem, que a levassem para um lugar seguro. Já não bastava querer, era preciso mais que isso. Mais que isso sempre, sempre mais. Aquela moça, de família nobre e cultura vasta, já não podia acreditar. Se jogou na realidade incrédula da rotina fracassada. Se afundou na lama das decepções. Ela não sabia que o amor já não importa tanto, as veze até atrapalha. Ela não sabia, que não se pode esperar, é preciso fazer. Então soprou as velas da esperança e abriu as portas da desilusão. Deixou de idealizar. Passou a sonhar mais, e percebeu que é preciso acreditar mais em si do que nas pessoas, e nunca, nunca apostar na vida. Um novo dia nasceria em breve. Se enrolou no afago dos lençóis e os abraçou como se depositasse toda a potência que lhe restara. Era hora de acordar. As buzinas a lembraram. Esse é o sussurrar da vida. Nós a fizemos assim. O medo a prendeu nas entranhas, a impediu de circular livremente entre tudo isso que não mais sabemos. Então, a moça se adentrou no corpo, se ajeitou no canto desse peito que as vezes se aperta e as vezes se esvazia demais. E dormiu. Restaram-lhe as prosas.
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