terça-feira, 19 de outubro de 2010

Chance

O que fazer? Nada. Esperar, viver.
O que não fazer? Nada. Esperar, morrer.
A vida, as vezes, parece se arrastar por aí, feito a cobra que perdeu asas e pernas, por persuadir a madre à se rebelar contra a pura criação humana. Essa é a maledicência das almas: a própria existência insana, profana. Essa é a vergonha vexatória: a liberdade de escolha. Mais fácil seria, ainda, se nos amarrassem os braços, e as pernas, e cerrassem também a língua, e nos fizessem amar, calar e pensar. E então, nossos braços se cansariam de entreter os murros nas pontas das facas, nossos pés não nos levariam por esses caminhos que não chegam a lugar algum, nossa boca não propagaria a infâmia discórdia que amarga em nossos corações. Seria bom, se nos dessem a chance de não ser, aquilo que não somos mais.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Viver não dói (Carlos Drumond de Andrade)

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos, por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante
e paga pouco, mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim
que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.