quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Amor escondido (Fagner)





Quando se tem um amor escondido
Querendo aflorar
É se guardar um rio perdido
Que não encontra o mar
Mas brilha tanto cada sorriso
E brilha mais que o olhar
Quando o desejo é claro e preciso
Quem pode ocultar
Tento esquecer te digo baixinho
Não sei se vou voltar
Mas nada prende mais que um carinho
Já vou te procurar
Vai pensamento voa no vento
Vai bem depressa corre pra lá
Conta pra ela meu sofrimento
Diga pra me esperar
Se passo o dia sem seu carinho
Me sinto sufocar
Pássaro mudo longe do ninho
Sem força pra voar

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pós-liberta

Victor Frank narra, em seu livro, o sentimento de empatia, frieza e banalização que passou a existir em Aushwitz, depois dos primeiros anos de submissão dos Judeus ao nazismo. Enquanto as pessoas caiam, mortas pelos cantos, já não se importava mais, não havia mais um sentimento de espanto, desgosto ou tristeza. A rotina da morte a tornou um acontecimento comum naquele lugar. Reuniam-se para arrastar os corpos, porque não havia forças físicas suficientes em um homem para subir um degrau, apenas. Estava aqui, refletindo em como criamos um costume patético com nosso sofrimento cotidiano, esquecemo-nos do nível de realidade, da sanidade necessária para a situação. É que a surra constante da alma, as vezes cria uma anestesia fictícia, e leva nosso cérebro a esquecer-se da lucidez que projeta e diferencia o bom e o ruim. O autor cita, que muitas daquelas pessoas, depois de libertados, suicidaram-se. O costume com a vida de tortura não os permitiu retornar a serenidade da convivência pacífica e respeitosa. A maneira como essa realidade é exposta pelo psiquiatra, me faz criar um paralelo com minha vida, atualmente. A forma como blindamos nosso coração, com uma camada espessa e impenetrável, depois de tanto sofrimento a que somos condicionados. A princípio, toda a fragilidade da alma se manifesta, as lágrimas correm, o coração se desespera. Você é um ser sensível que se entrega verdadeiramente a um homem, abre seu peito, dedica sua vida e sua existência. E passa a perceber que tudo isso era unilateral. E cria um sentimento profundo, uma dor que fere o corpo por alguns anos, até o levar a acreditar na naturalidade desse relacionamento sem paixão. Você sabe que não está bom. Mas assim como os presidiários de Aushwitz, você passa a ter uma convivência pacífica com a situação. Você a aceita, mesmo que isso não signifique que seja algo verdadeiramente bom. E um dia, quando você se liberta desse campo de concentração sufocante, você começa a perceber o quanto é difícil acordar sem todo o conjunto de defeitos relevantes, o quanto é difícil dormir sem os incômodos menos tolerantes, o quanto é difícil viver, sem as condições massantes a que era submetido. Victor Frank, psiquiatra Judeu, encontrou um sentido para ultrapassar o sofrimento, para não se "acostumar" com a tortura da alma. Ele deu uma razão a sua existência e, segundo ele, apenas tendo algo ou alguém, por quem viver, conseguimos vencer os momentos mais difíceis por que passamos. Hoje me encontro em busca de um sentido. Abriram a porta da prisão. Olhei para os lados, procurei no horizonte, virei-me. Entendi os Judeus pós-libertos.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Monólogo surdo



Toda menina, quando nasce, tem um desejo grande de cultivar sua própria família, trocar as bonecas por filhos, o príncipe pelo marido, a casta pureza da donzela pela soberana senhoria da mulher. Eu, particularmente, sempre fui uma sonhadora à moda antiga, dos bouquets de rosas vermelhas, dos jantares a luz de velas, da cumplicidade eterna, na doença, na alegria, até que a morte os possa, enfim, separar. Sou do tempo da fidelidade, da paixão, das cartas e serenatas. Um tempo que não me pertence - nem aos meus dias, também. Muito já chorei por amor. Muito já menti por amor. Muito já escrevi por amor. Já levei surra por amor. Já briguei por amor. Me casei, por amor. E mesmo que toda essa cerimonia - socialmente aceitável - não correspondesse às idealizações dos romances que um dia li, não há nada, absolutamente, que pudesse comparar ao sentimento de realização e felicidade que me pertencia aquele dia. Então, você passa a planejar todo o seu futuro em conjunto, traz ao mundo novas vidas para fazer parte de seus objetivos. Forma um ciclo fechado de ideais e passa a conseguir se enxergar de cabelos grisalhos, na beirada de um lago, tomando uma sopa bem quente de mãos dadas com seu companheiro de jornada. Um dia enfim, você começa a perceber nem todo amor é eterno, que nem todo segredo é confidencial, que nem toda ternura é compartilhada, que muitos pensamentos são egoístas e que quase sempre um dos lados fará com que seus valores pessoais superem os benefícios de seu próprio coração. E você começa a perceber, que o carinha bonito do cavalo branco também grita, que a mocinha singela de bochechas rosadas também é capaz de ter as faces da bruxa dos contos infantis. A vida seria bem mais fácil se soubéssemos nos aceitar como verdadeiros Sherek e Fiona, sabendo e compreendedo os defeitos físicos e morais, os costumes típicos da raça humana - teoricamente condenáveis. E o mais incrível, de tudo isso, é a forma como um relacionamento pode, ao mesmo tempo, ser imensamente complicado e surpreendentemente simples. As milhares de características familiares, sociais e culturais de nossas origens podem ser obstáculos difícies de lidar, diariamente, quando, na verdade, um parceiro quase sempre irá possuir peculiaridades diferentes. O que as pessoas se esquecem, é que, quase sempre, o diálogo é a base para a solução de qualquer processo conflituoso. Então o tempo aparece como uma ventania forte, que sopra para longe as chamas, apaga da mente os planos, do rosto o sorriso, da alma, a cor. E no final, quando você se dá conta, as cinzas se espalham por aí. Se entregam entre os cantos, perdem seu valor moral, seu significado de existência. Você começa a perceber que lá, na beirada da lagoa, não há prosa, nem parceiro. Ao meu lado estão os erros da juventude, o sussurar da cadeira que balança desgostosamente. Nas mãos, a caneta, no colo, o papel. Minha escritas e eu. Só me resta o monólogo surdo das letras.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"Em farta"

Exercer, as vezes, esse papel da mulher durona, que nunca chora, nunca se emociona, nunca se importa, é mais dolorido que as correntes lacrimais que dois olhos possam derramar. Não há o que dizer, o que pensar, o que decidir. É um misto de descontentamento e loucura, sentimento e frieza, ilusão e decepção. Esse meu perfil projetista, de quem exerga sempre dezenas de anos a frente, tem se tornado um emaranhado confuso de precipitações. Já nem sei mais, se o peso que me ronda é da falta de objetivos concretos ou da existência de ideias vãs. Tudo o que sei é que esperei demais de mim, esperei demais dos outros e hoje quero apenas viver o pouco - quase nada - que me resta. A vida se manifesta nos cantos dos olhos, na amargura da alma cansada, na sabedoria da mente experiente. Ela chega, sorrateira, nos da um pedaço do céu e nos derruba com uma tempestade repentina. Ainda assim, escalei as montanhas do Evereste, saltei do pico, entre as nuvens carregadas, içei meu barco no perdido da maré inalcançavel. Não mais quero, nem me quero, nem te quero. E não quero mais querer. Amor moribundo, deveras, me fartei.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Borboletas


Com o tempo você vai percebendo que para ser feliz com outra pessoa, você precisa em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquela pessoa que você ama ou acha que ama, e que não quer nada com você, definitivamente, não é a pessoa da sua vida.
Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar, não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você..!
Mari Quintana

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Rolha

Certas coisas na vida são bastante curiosas. Algumas descobertas são feitas apenas quando recebemos responsabilidades que outrora não nos perteciam. Essa semana, ao tentar, pela primeira vez, abrir uma garrafa de vinho, percebi que uma tarefa aparentemente simples, as vezes, pode se tornar um verdadeiro desafio. É que, depois de usar todos os instrumentos existentes em minha casa - faca, tesoura, garfo, abridor de latas - notei que não se pode realmente subestimar o poder que uma rolha pode ter. Consegui, surpreendentemente, transformar 3/4 deste objeto - ilusóriamente insignificante e verdadeiramente resistente - em pequenas particulas destroçadas. A parte que sobrou se enterrou no mais profundo do "gargarlo" da garrafa. Não conformada com a situação, decidi, sabiamente, comprar um abridor de rolhas - bastante apropriado para a situação, aliás. Depois de minha exultante felicidade, por ter conseguido encrava-lo até o final do meu "obstáculo", descobri que não tenho forças suficientes para retirá-lo - nem ele, nem a rolha. Cá estou, rendida. A rolha me venceu.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Ossos do ofício

Me mandaram ir, bem ali, onde o rio faz a curva, onde a estrada é de chão, onde não há tanto poste, nem tanta fiação. Estava em busca de uma ossada. O lugar, muito deserto, chegava a arrepiar a espinha.
Lá vem um motoqueiro, ninguém sabe onde fica a tal rua, mas as tais ossadas, eram famosas na região.
- Essa rua? Eu não conheço não. Da ossada eu já ouvi falar, a cada dois dias se encontra um pouco, a última que eu sei, foi ali no ribeirão.
Mais na frente um senhor, concentrado com sua foice, capinando o serrado, debaixo de tanto calor.
Dos tais ossos, é claro que sabia sim. Ele estava era bem informado. É que o último, vinha de uma casa, perto de um tal campinho.
E lá fomos, em busca do pobre coitado.
Da porta da casa simples, no meio de um matagal, veio uma senhora simpática, e a filhinha, de bicicleta, muito esperta, que sabia cada detalhe do corpo do tal difunto.
As partes, segundo ela, foram achadas na entrada. Primeiro a metade do crânio, depois a outra parte também. No outro dia veio um braço, no outro, uma costela. Ontem veio uma perna, mas já não estava com ela.
-A polícia está zangada, disse que não busca mais osso não.
Enquanto ouvia, aquela história estranha, a canela coçava que só! Não sabia se era o mato ou o cãozinho preto que tanto me lambia.
-Mas dona, de onde vieram esses pedaços?
-Foi esse cachorrinho aí, que trouxe um a um.
E o tal canibal, era o descobridor do tesouro. É pena que a busca tenha sido em vão. Eu bem que tentei entrar no meio da mata, procurar o resto que ela disse haver por ali. É que o cinegrafista, amedrontado, peferiu não arriscar.
Voltamos todos frustados, dessa viagenzinha de fim de tarde...
Não havia o que fazer. Esses, são os ossos do ofício.