sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

anestesia geral

Fiquei pensando onde iria nossa mente quando tomamos uma anestesia geral. Esse era meu maior medo, me perder de meu corpo e não encontrá-lo novamente. Perder o controle de meus batimentos, de minha respiração. Fazer uma cirurgia já traz um medo de morte incomparável. Isso é natural do ser humano, por mais simples que seja o procedimento, há sempre a temerosa margem de risco. Mas uma anestesia geral já tem sua fama na praça. Quando estamos ali, deitados em uma cama em um bloco cirúrgico, como se fossemos o próximo abate do açougue, tudo e nada ao mesmo tempo conseguem transcorrer nossos pensamentos. A despedida da vida, súbita e incontrolável, mesmo que no fundo saibamos que estaremos de volta. As lágrimas e a descrença, afiveladas na fé do sucesso que o peito almeja. É um pacote de emoções. E os doutores, sempre sábios e portadores de auto-controle, me disseram que a parte boa da cirurgia é a anestesia geral, quando viram minha repulsa pelo procedimento. "Vai dormir um soninho gostoso, e a parte chata é ser acordada depois". Eles só não sabiam que eu só queria despertar. E eu, inexperiente paciente, não sabia que dormir era a fatia prazeirosa da história toda. Sonhei. Não me lembro com o que, mas lembro-me que sonhei. Acordei com a voz firme me chamando pelo nome. O pós-operatório, doloroso, tem me acompanhado dia-a-dia. É que em uma cirurgia, o medo chega primeiro. Depois descansamos. Depois sofremos. E então, entendemos. Seria bom se pudéssemos nos anestesiar da vida.

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