sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Bem x mal


Nunca perdi alguém de grande estima. Meu avô materno morreu, eu era muito nova, não sabia bem o que estava acontecendo. Ao meu avô paterno nunca fui muito ligada. Os dois foram os de maior afinidade, que vi partir da minha vida. Agora, aos vinte e seis anos, estou sentindo uma dor sufocante, acho que a mesma dor da morte – porém, sem que ninguém tenha, de fato, deixado de viver. É como se existissem dois seres: alguém que você conheceu um dia e alguém que você não sabe quem é. E isso, para mim, traz um sofrimento tão intenso quanto a própria morte. Vejo, a cada dia, a doçura do sorriso, a pureza do olhar, as palavras serenas e a cumplicidade do afago – e tudo isso gira e embrulha minha mente, como uma camada espessa que me impede de tocar. O que tenho, porém, é um tanto de futilidade, uma vida vazia, uma felicidade tola. Como a infância que cresce, deixa de existir. E tudo o que nos resta é uma realidade mórbida, uma expressão desconhecida, uma face envelhecida. Toda a beleza do passado, a gentileza, o abraço e aquele toque da família, se perdeu pelas fumaças pretas que se exalam das almas poluídas. Restaram as carcaças de um ser estranho, os resquícios de um coração gelado. E no final de todo o enredo, a vilã pegou a estrada do bem e o mocinho se perdeu na escuridão. Faz parte da modernidade a ausência da ordem cronologicamente esperada – mas o final continua sendo o mesmo: cores ao bem, nude ao mal.

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