Ontem pela manhã, enquanto trabalhava, fui surpreendida por
um senhor alegre, me chamando de Julinha. Não sou do tipo comunicativa e não
tenho o costume de sair fazendo amigos por aí – pelo contrário. Me dividi entre
a estranheza da situação e a vontade súbita de descobrir, enfim, onde aquela pessoa simpática me conhecera, ao
ponto de esbanjar tamanha intimidade. Não foi muito difícil, afinal, ele sabia –
e me explicou com a maior facilidade. O tal “seu” Junvenil (uma colega de trabalho me ajudou com o
nome) compartilhou comigo, há exatos dez anos, aulas de técnico em informática.
Um curso chato, que tomou dois meses dos meus sábados – é o
que me lembro. E me lembro ainda de um senhor que, bastante interessado, enchia
o professor de perguntas, atrasava as aulas e me rendia um tempo livre para me
arrastar nos jogos de paciência. E é aí que entra a ironia da vida. Os
resmungos que expeli e as vezes em que repudiei, comigo mesma, aquele senhor de
idade avançada que buscava tão somente vencer, me tomaram um dia inteiro de reflexão.
E eu, do outro lado
do vidro, por um instante percebi que os limites iam além da informática, do
curso e de mim.
_ E você, ainda está aí? Ele quis saber.
Sim, estou. Na mesma cadeira, no mesmo emprego, carregando a
bagagem daquele cursinho de informática que fizemos, pensei. Conquistei um
diploma de jornalismo, mas ainda estou aqui.
E o velho senhor, cujo nome esqueci no mesmo dia, tinha a
memória melhor que a minha. Aquela adolescente que outrora o xingou pela mente,
anda meio esquecida também. Amanhã, se o vir novamente, não saberei quem é. Mas
não me esquecerei que o mundo dá voltas – somos nós que ficamos inertes.


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