"Quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como", disse Vitor Frankl – psiquiatra judeu, autor da fabulosa obra “Em Busca de Sentido”. Essa não é a primeira vez que cito ou escrevo sobre o livro. Esta é, aliás, uma das minhas literaturas preferidas. Retrata, não apenas o cotidiano no campo de Auschwitz, mas, a necessidade de termos uma razão para continuarmos a viver. E é este o motivo pelo qual estou parafraseando hoje: meu esgotamento momentâneo do “sentido”.
Acredito
que os “porquês” que adquirimos em nossa existência, são
proporcionalmente inversos à nossa idade. Quando nascemos,
precisamos aprender a andar, falar, escrever... E mais adiante, os
primeiros namorados aparecem e, também, a vontade da menina-moça de
casar. Talvez por isso, quando uma criança morre, há quem diga:
tinha uma vida toda pela frente. Uma vida inteira de “sentidos” e
“porquês”.
Criamos
o sonho da maternidade (a mulher, como no meu caso), idealizamos os
filhos nas bonecas, projetamos a profissão. Estudamos, aprendemos a
dirigir, abrimos a primeira conta-corrente, perdemos a virgindade.
Mas, e quando já fizemos tudo isso (ou, pelo menos, parte de tudo
isso)? É como olhar um horizonte interrompido – nada mais há,
senão dois palmos à frente de nós mesmos. Hoje acordei e já não
tinha mais objetivos. Tenho uma profissão, um emprego, uma filha, um
marido, uma vida de classe média brasileira. E talvez não passe
disso mais.
Já
houve quem me chamasse de ingrata. Muitos, aliás. Mas para um
sonhador, passos limitados sempre serão um Auschwitz para a alma.
Não que eu queira largar “tudo” O que tenho, sair feito uma
adolescente desregrada pelo mundo... Mudar, apenas, bastaria. Mudar
sempre, melhorar sempre, tentar sempre. Sou a dona de um espírito
aventureiro, na excessiva responsabilidade precoce. Tenho ambição e
tenho medo, tenho coragem e precaução.
Hoje,
procurei um “sentido” e não o encontrei. Tenho um marido bom,
não melhor a cada dia. Sou uma pessoa boa, não melhor a cada dia.
Tenho um dinheiro bom, não melhor a cada dia. Tenho uma profissão
boa, não melhor a cada dia. De tudo, apenas, me salva a filha:
pequena, como a minha fé. Mas cheia de vida pela frente. Ainda cheia
de “sentidos” e “porquês”. Talvez eu pudesse segurar na
beirada dela, e tentar consumir os sonhos, que ela ainda nem criou,
para abastecer minha resiliência. Mas deixo para ela esse acúmulo
de bençãos – migalhas de razões não vão me tirar do lugar.
Talvez,
aceitando, a vida fique menos pior. Sem sentido não há melhora,
apenas conformismo e inércia. O jeito é aceitar as ervilhas da
sopa, preparar os pés para os trilho gelados e se entregar ao tempo,
ao meio, campo... O “como” viver só pode ser suportado se tiver
“por que”. Não há enfrentamento se não houver razão, nem ascensão se não houver "porquês". Decidi
viver com o que tenho e me bastar com o que posso ter. Não é o que as pessoas fazem?


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