"Naquele dia o ministro chegou de mau humor ao seu gabinete e mandou chamar o diretor - geral da secretaria.
- Estou furioso! - exclamou o conselheiro. - Por sua causa passei uma vergonha diante de sua majestade o imperador! O senhor mandou-me na pasta um decreto de nomeação sem o nome do funcionário nomeado!
- É verdade, passou-me, não sei como isso foi...
(...)
O ministro deu-lhe as costas e encolheu os ombros, dizendo:
- Bom, mande reformar esta porcaria.
O diretor geral saiu, fazendo muitas mensuras, e chegando no seu gabinete, mandou chamar o chefe da 3ª seção que o encontrou fulo de cólera.
- Estou furioso! Por sua causa passei por uma vergonha diante do senhor ministro!
- Por minha causa?
- O Sr. mandou-me na pasta um decreto sem o nome do funcionário nomeado!
E atirou-lhe o papel que caiu no chão.
-Queira vossa senhoria desculpar, Sr. diretor...são coisas que acontecem... havia tanto serviço... e todo tão urgente...
(...)
O chefe da 3ª seção retirou-se confundido e foi ter à mesa do amanuense que tão mal copiara o decreto:
- Estou furioso senhor Godinho! Por sua causa passei por uma vergonha diante do Sr. diretor geral.
- Por minha causa?
- O senhor é um empregado inepto, desidioso, desmazelado, incorrigível! Este decreto não tem o nome do funcionário nomeado!
E atirou o papel que bateu no peito do amanuense.
- O expediente foi tanto que não tive tempo de reler o que escrevi!
(...)
Acabado o serviço, tocou a campainha.
Apareceu um contínuo.
-Por sua causa passei por uma vergonha diante do chefe da seção!
- Por minha causa?
- Sim, por sua causa! Se você ontem não tivesse levado tanto tempo a trazer-me o caderno de papel imperial que lhe pedi, não teria eu passado a limpo este decreto com tanta pressa que comi o nome do nomeado!
(...)
O contínuo saiu dali e foi vingar-se num servente preto, que cochilava no corredor da secretaria.
- Estou furioso! Por tuda causa passei pela vergonha de ser repreendido por um bigorrilhas!
- Por minha causa?
- Sim, quando te mandei ontem buscar na portaria aquele caderno de papel imperial, por que demoraste tanto?
- Porque...
- Cale a boca! Isto aqui é um andar muito direitinho, entendes?
(...)
O preto não redarguiu.
O pobre diabo não tinha ninguém abaixo de si, em quem pudesse desforrar-se da agressão do contínuo; entretanto, quando depois de jantar, sem vontade, no frege-moscas, entrou no pardieiro em que morava, deu um tremendo pontapé no seu cão.
O mísero animal que vinha alegre dar-lhe as boas vindas, grunhiu, grunhiu, grunhiu, e voltou a lamber-lhe humildemente os pés.
O cão pagou pelo servente, pelo contínuo, pelo amanuense, pelo chefe de seção, pelo diretor-geral e pelo ministro! "
Artur de Azevedo - Contos Escolhidos
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