
Um contraste de felicidade e tristeza, fé e descrença. O Santo Antônio, de costas para mim (ou eu, de costas para ele?), um dia de sol, um lugar paradisíaco, um coração sonhador... Hoje, comendo, rezando, assistindo um filme de amor. Postando uma fotografia empoeirada, com cheiro de passado intocável, de tempo impalpável, de projetos que se perderam pelos cantos.
Uma história de sucesso mundial: "Comer, rezar e amar", um romance que conta a história da americana Elizabeth Gilbert. Uma biografia que reflete uma mistura de sentimentos e uma pitada circunstancial, do que tenho vivido hoje. Um casamento socialmente aceitável, a união de personalidades diferentes, objetivos diferentes. Um esfriamento mútuo da paixão que um dia se acendeu. A dificuldade de se desfazer uma estabilidade momentânea, uma irmandade bastante suscinta e pouco prazeirosa.
Em baixo da cama, a mesma caixinha que guarda os recortes do National Geografic, o sonho de colocar a bagagem nas costas, ganhar o mundo, seguir, sem destino, deixando meramente que vida se encarregue do amanhã. O divórcio. A mulher que se deita na banheira com o livro nas mãos, como eu -tentando afogar ali o roteiro desfeito, a nova escolha da bifurcação.
E o cara que diz, como que narrando minha própria existência. "E se admitirmos que nossa relação é ruim, mas continuarmos juntos? Aceitarmos que brigamos muito, quase não transamos mais, mas não vivemos um sem o outro. Assim, podemos passar a vida juntos, infelizes, mas felizes por não estarmos separados". A icógnita que gira na mente. A infelicidade de não ter o relacionamento infeliz. A contraditória sensação de ter perdido pouco, muito pouco, mas suficiente para te fazer tremer e temer a cada dia pelo dia que virá.
E então me aparece o David. Aquele mesmo cara pós divórcio, que te faz viver um pouco mais, querer um pouco mais. Que te ajuda a sair da banheira e caminhar pelos parques. O cara não ideal, que não te deixa segura, que não te transfere todo o amor que sua carência necessita, mas te faz sorrir com serenidade e te faz palpitar o peito, como quando tinha apenas 15 anos. É quando você, como a Liz, começa a perceber que, as vezes, é preciso ter um pouco mais de coragem e comprar o bilhete da loteria, ao invés de ficar apenas pedindo que Deus te ajude a ganhar na Mega Sena. E você descobre que, assim como o Augusteum, "todos queremos que as coisas permaneçam iguais. Vivemos infelizes e com medo que uma mudança estrague tudo. E que o mesmo após o caos que esse lugar suportou, o modo com foi adaptado, queimado e pilhado e, depois, reconstuido, é preciso nos tranquilizar. Talvez, a vida não tenha sido tão caótica. A armadilha do mundo é nos apegarmos as coisas. A ruína é uma dádiva. A ruína é o caminho que leva a transformação. Até nesta cidade eterna, o Augusteum mostra que devemos estar preparados para as intermináveis ondas de transformações. Nós dois merecemos mais do que ficarmos juntos por medo de sermos destruídos não ficando". E então, as palavras soavam pelos lábios da Julia Roberts como a letra de uma canção que retrata minha alma. Como alguém, que assim como ela, vê a vida passar em flashs. O casamento. A festa. A valsa. E então, o David. Lembranças repentinas de uma mente confusa, e ao mesmo tempo, certa de que o amar, apesar de representar uma cesta de desilusões, pode estar perdido em algum canto, por aí. Em Bali. Atropelando-nos pelas estradas da Índia. O amor pode ser brasileiro, Italiano, Português. Ainda estou comendo e rezando, apenas. Tentando, como Liz, encontrar esse tal ponto de equilíbrio que se encontra entre o céu e o inferno. Fugindo dos barcos, sofrendo por tudo o que deixei de viver, pelo que tenho vivido. Saudando a liberdade, a juventude e a independência. Aprendendo a encher a banheira com canecos. E tentado acreditar, nas palavras sábias do Richard. "Não vai durar para sempre. Nada dura". Ainda sem ter meu Felipe, escolhi, também, minha palavra: attraversiamo. Significa: vamos atravessar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário