Hoje acordei brigada com a vida. Sinto uma mágoa profunda desse egoísmo humano, dessa injustiça cotidiana, dessas dificuldades todas que nos esbarram por aí. Sinto, por ter de enfrentar, todos os dias, um trânsito desanimador. Por ter de comer dirigindo, por ter de dirigir comendo e lutando contra o tempo. Por ter de dirigir, com tudo isso aí, e um pouquinho menos de cordialidade e satisfação. Sinto ter de sair de casa e deixar minha filha chorando, por ter de almoçar correndo, por não poder sentar-me na mesa de casa com a família e apreciar o sabor da comida quentinha – mesmo porque, nem família tenho mais, para isso. Sinto pelas noites mal dormidas, pelo sorriso mal distribuído, pelas amizades pouco curtidas. Sinto pelas contas que me pesam mês a mês, nos meus jovens vinte e cinco anos. Sinto pelas responsabilidades – demasiadamente grandes – e também, pelo 62,5% do tempo que passo trabalhando a cada dia. Sinto, por não ter certeza de que todo esse esforço, um dia será recompensado. Por sonhar e batalhar fervorosamente para conquistar minha profissionalização, e saber que o mercado, ingrato, pode não me dar um lugar sequer para exercer meu diploma. E isso tudo, não é excesso de pessimismo ou ser uma pessoa “baixo astral”. Isso é um tiquinho de nada, dessa estafa mental, física e emocional, que alguém, da minha idade, possa apresentar. Isso é um tiquinho dessa mágoa, dessa independência bandida, dessa auto-suficiência miserável, que essa tal de vida, nos obriga a “viver”. Sou o retalho literário da “Ana Terra”, “As parceiras”, “O gato”, “Éramos Seis”... Sou a escrita perfeita, sou a obra que comove, mas que continua tendo o enredo infeliz.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário