domingo, 18 de julho de 2010

Beija-flor

Quando pequena, me faziam aquelas velhas perguntinhas que todos já devem ter respondido algum dia: qual animal gostaria de ser? Um beija-flor - eu dizia. Ele voa, se alimenta do néctar das flores, quase nunca é caçado ou capturado e é o único pássaro que consegue se manter no ar sem se desolcar. Não conseguia ver apenas a fofura dos ursos pandas, a simpatia dos golfinhos ou a valentia dos leões. Queria ver o mundo de cima, ser apreciada pela nobreza da alma, passear entre os jardins, semear a primavera... Sempre tive uma carga sistemática muito grande, mesmo nessas perguntas mais simples que nos fazem. Querer ser alguma coisa poderia significar bastante sobre mim. Hoje, adulta, descobri que a vida não é feita para beija-flores. Eu diria que me tornei um peixe da espécie Beta. A história dos Betas é bastante interessante. Eles vem das águas rasas da Indonésia, onde não havia diversidade de espécies. Assim, a lei da sobrevivência fez com que os betas passassem a se alimentar uns dos outros. Ainda hoje esse peixe tem a fama de "brigão" ou "peixinho solitário". Eles são fortes, não precisam de muitos recursos também. Sobrevivem em poças ou em um pequeno copinho de água -como eu. O velho beija-flor da infância, se afundou nas águas rasas da vida. Descobriu que quando não temos flores, nem opções, somos obrigados a erguer os braços e brigar. Nos tornamos predadores de nós mesmos. Aprendemos que nem sempre teremos espaço, dinheiro, conforto. Então nos apertamos nas necessidades e não esperamos que nos tragam o oxigênio sem que tenhamos de ir apanhá-lo. E descobrimos que a interação, a comunicação e a convivência, também são armas de guerra. Sou um Beta solitário em um copo apertado, que olha o céu pelo vidro e a vida pelo canto do olho ferido. Lá está o beija-flor. Não é meu, nem sou eu. Ele existe, ainda que não possa ser escolhido.

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