Tudo o que posso ver é uma cadeira na beira do oceano. Um infinito vago, uma mistura de paz e temor. Eu estou ali, sentada, sem saber se espero que uma onda me arranque da margem, ou se me atiro na bravura dos braços que se atrevem a tentar a travessia. E então, me pego nos meus lapsos de memória, tenho medo de perder a capacidade de relembrar. Luto na contradição desse ímpeto que tenho as vezes de esquecer quem sou, de onde vim, para onde vou. Desligo-me do sons, já que não posso desligá-los. E tranco-me, nesse silêncio vasto, nessa monotonia vã, nesse monólogo surdo. Minha alma sussura com as cordas roucas das letras. Queria escrever minha história, ao invés de escrever sobre ela. Apaga-la, refazê-la, deixá-la em uma prateleira para os utópicos romancistas, para os fascinados roteiristas. A vida, entretanto, é para os aventureiros. Para os que saltam de cordas, para os que se atiram das montanhas. A chance da adrenalina se consiste na escuridão. A possibilidade trágica, a realidade consistente é suficiente para os amantes dessa peça sem ensaios. E então, paralelamente, estão as cadeiras na frente das telas, dos que se imaginam num canto qualquer, com um horizonte qualquer, com pessoas quaisquer, fazendo qualquer coisas. Porque a vida, apesar de bela, polêmica, prazeirosa e perigosa, não é suficiente para um escritor. Na falta de poder escreve-la, ele deixa de vive-la, e passa a se tornar o livro, aprisionando o corpo e libertando a alma.
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