sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pós-liberta

Victor Frank narra, em seu livro, o sentimento de empatia, frieza e banalização que passou a existir em Aushwitz, depois dos primeiros anos de submissão dos Judeus ao nazismo. Enquanto as pessoas caiam, mortas pelos cantos, já não se importava mais, não havia mais um sentimento de espanto, desgosto ou tristeza. A rotina da morte a tornou um acontecimento comum naquele lugar. Reuniam-se para arrastar os corpos, porque não havia forças físicas suficientes em um homem para subir um degrau, apenas. Estava aqui, refletindo em como criamos um costume patético com nosso sofrimento cotidiano, esquecemo-nos do nível de realidade, da sanidade necessária para a situação. É que a surra constante da alma, as vezes cria uma anestesia fictícia, e leva nosso cérebro a esquecer-se da lucidez que projeta e diferencia o bom e o ruim. O autor cita, que muitas daquelas pessoas, depois de libertados, suicidaram-se. O costume com a vida de tortura não os permitiu retornar a serenidade da convivência pacífica e respeitosa. A maneira como essa realidade é exposta pelo psiquiatra, me faz criar um paralelo com minha vida, atualmente. A forma como blindamos nosso coração, com uma camada espessa e impenetrável, depois de tanto sofrimento a que somos condicionados. A princípio, toda a fragilidade da alma se manifesta, as lágrimas correm, o coração se desespera. Você é um ser sensível que se entrega verdadeiramente a um homem, abre seu peito, dedica sua vida e sua existência. E passa a perceber que tudo isso era unilateral. E cria um sentimento profundo, uma dor que fere o corpo por alguns anos, até o levar a acreditar na naturalidade desse relacionamento sem paixão. Você sabe que não está bom. Mas assim como os presidiários de Aushwitz, você passa a ter uma convivência pacífica com a situação. Você a aceita, mesmo que isso não signifique que seja algo verdadeiramente bom. E um dia, quando você se liberta desse campo de concentração sufocante, você começa a perceber o quanto é difícil acordar sem todo o conjunto de defeitos relevantes, o quanto é difícil dormir sem os incômodos menos tolerantes, o quanto é difícil viver, sem as condições massantes a que era submetido. Victor Frank, psiquiatra Judeu, encontrou um sentido para ultrapassar o sofrimento, para não se "acostumar" com a tortura da alma. Ele deu uma razão a sua existência e, segundo ele, apenas tendo algo ou alguém, por quem viver, conseguimos vencer os momentos mais difíceis por que passamos. Hoje me encontro em busca de um sentido. Abriram a porta da prisão. Olhei para os lados, procurei no horizonte, virei-me. Entendi os Judeus pós-libertos.

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