sábado, 12 de fevereiro de 2011

Monólogo surdo



Toda menina, quando nasce, tem um desejo grande de cultivar sua própria família, trocar as bonecas por filhos, o príncipe pelo marido, a casta pureza da donzela pela soberana senhoria da mulher. Eu, particularmente, sempre fui uma sonhadora à moda antiga, dos bouquets de rosas vermelhas, dos jantares a luz de velas, da cumplicidade eterna, na doença, na alegria, até que a morte os possa, enfim, separar. Sou do tempo da fidelidade, da paixão, das cartas e serenatas. Um tempo que não me pertence - nem aos meus dias, também. Muito já chorei por amor. Muito já menti por amor. Muito já escrevi por amor. Já levei surra por amor. Já briguei por amor. Me casei, por amor. E mesmo que toda essa cerimonia - socialmente aceitável - não correspondesse às idealizações dos romances que um dia li, não há nada, absolutamente, que pudesse comparar ao sentimento de realização e felicidade que me pertencia aquele dia. Então, você passa a planejar todo o seu futuro em conjunto, traz ao mundo novas vidas para fazer parte de seus objetivos. Forma um ciclo fechado de ideais e passa a conseguir se enxergar de cabelos grisalhos, na beirada de um lago, tomando uma sopa bem quente de mãos dadas com seu companheiro de jornada. Um dia enfim, você começa a perceber nem todo amor é eterno, que nem todo segredo é confidencial, que nem toda ternura é compartilhada, que muitos pensamentos são egoístas e que quase sempre um dos lados fará com que seus valores pessoais superem os benefícios de seu próprio coração. E você começa a perceber, que o carinha bonito do cavalo branco também grita, que a mocinha singela de bochechas rosadas também é capaz de ter as faces da bruxa dos contos infantis. A vida seria bem mais fácil se soubéssemos nos aceitar como verdadeiros Sherek e Fiona, sabendo e compreendedo os defeitos físicos e morais, os costumes típicos da raça humana - teoricamente condenáveis. E o mais incrível, de tudo isso, é a forma como um relacionamento pode, ao mesmo tempo, ser imensamente complicado e surpreendentemente simples. As milhares de características familiares, sociais e culturais de nossas origens podem ser obstáculos difícies de lidar, diariamente, quando, na verdade, um parceiro quase sempre irá possuir peculiaridades diferentes. O que as pessoas se esquecem, é que, quase sempre, o diálogo é a base para a solução de qualquer processo conflituoso. Então o tempo aparece como uma ventania forte, que sopra para longe as chamas, apaga da mente os planos, do rosto o sorriso, da alma, a cor. E no final, quando você se dá conta, as cinzas se espalham por aí. Se entregam entre os cantos, perdem seu valor moral, seu significado de existência. Você começa a perceber que lá, na beirada da lagoa, não há prosa, nem parceiro. Ao meu lado estão os erros da juventude, o sussurar da cadeira que balança desgostosamente. Nas mãos, a caneta, no colo, o papel. Minha escritas e eu. Só me resta o monólogo surdo das letras.

Um comentário:

  1. Julia! Ficou lindo e verídico também, pois se pararmos pra pensar seu texto faz tanto sentido. E vejo as vezes, que seu olhar revela um pouco algumas de suas palavras.

    ResponderExcluir