Escureceu. Já era noite. Perambulava pelas ruas, sem saber o que fazer. Não tinha aonde ir nem a quem recorrer. Era mais uma entre o vai-vém de pessoas, nas esquinas recheadas de desdém. Nada assim tão anormal para os dias de hoje. É que vivemos em uma maré de egoísmo tão grande, que nada mais importa, quanto mais alguém. Ficou ali, pensando, desenhando na mente o pôr-do-sol e as árvores que toda infância insiste em colorir nas páginas. Em nossa pouca idade temos um excesso de fantasias prazeirosas, onde espelhamos nossas frustradas projeções. E tudo passa a ser aquilo ali: uma ruazinha erma, um breu de espectativas, uma multidão solitária em sua própria vagueza de espiríto. Os comerciantes abaixavam suas portas, era tudo o que podia ouvir: o barulho do metal anunciando a partida dos trabalhadores. Só não se podia saber quem iria de encontro a família, isso já não existe tanto quanto antes. Muitos andariam por aí, como a moça perdida da esquina, refletindo o que parece não ter mais controle. Muitos se agarrariam nos braços da amante, nas garras da imoralidade, do vício e da deprimente escolha mal feita. É quase sempre assim, pessoas se afundando nas escolhas erradas, mergulhando no abismo que a própria mão aos poucos cavucou. As lágrimas, silenciosas, não se podia ouvir, nem sentir, nem ver. Tudo era estranho demais, frio demais. O vento soprava e arrepiava os poros. O inverno chegara sorrateiro. A moça, cansada, procurava forças para levantar. Tentava ordenar as pernas que caminhassem, que a levassem para um lugar seguro. Já não bastava querer, era preciso mais que isso. Mais que isso sempre, sempre mais. Aquela moça, de família nobre e cultura vasta, já não podia acreditar. Se jogou na realidade incrédula da rotina fracassada. Se afundou na lama das decepções. Ela não sabia que o amor já não importa tanto, as veze até atrapalha. Ela não sabia, que não se pode esperar, é preciso fazer. Então soprou as velas da esperança e abriu as portas da desilusão. Deixou de idealizar. Passou a sonhar mais, e percebeu que é preciso acreditar mais em si do que nas pessoas, e nunca, nunca apostar na vida. Um novo dia nasceria em breve. Se enrolou no afago dos lençóis e os abraçou como se depositasse toda a potência que lhe restara. Era hora de acordar. As buzinas a lembraram. Esse é o sussurrar da vida. Nós a fizemos assim. O medo a prendeu nas entranhas, a impediu de circular livremente entre tudo isso que não mais sabemos. Então, a moça se adentrou no corpo, se ajeitou no canto desse peito que as vezes se aperta e as vezes se esvazia demais. E dormiu. Restaram-lhe as prosas.
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