terça-feira, 27 de abril de 2010

Dai a César

Vinha da faculdade, cansada, os olhos querendo fechar.... Era tarde, mas ainda pude ver batento no pára-brisas um papel pequeno, mas terrivelmente assustador. Uma multa de trânsito. Não posso esconder minha indignação. Não sou contra multas e acho-as perfeitamente louvaveis, quando aplicadas com bom-senso. O problema todo, é que procuram sempre uma brechinha na lei para aumentarem ainda mais os cofres (ou os bolsos) públicos. É incompreensível, que em um país onde se paga tanto imposto (IPVA, ICMS, PIS, COFINS, PASEP, IRF, etc, etc), não tenhamos estradas, médicos, hospitais, segurança pública.... E ainda assim temos pessoas disponíveis a estarem as 8 ou 9 horas da noite """caçando""" carros para cumprirem suas metas de punições. O mais engraçado disso tudo é que tenho parado meu carro em uma rua erma, parada, sem placas de sinalização. E sempre ao chegar na faculdade, sigo caminhando com medo, pelo meio do asfalto esburacado, quase torcendo o pé ou quebrando o salto, porque sinto medo de andar pelos cantos. É que aqui, nesse país em que vivo, não temos liberade de andar com confiança, porque há mais bandidos que policiais. E o mais engraçado disso tudo, é que eles não estão lá para fiscalizarem e protegerem a população, mas estão para aplicarem infrações de trânsito, enquanto estamos em uma sala de aula tentando ter uma profissão digna em um país de corruptos. Tenho 24 anos, já fui assaltada na rua, já me roubaram o carro, já assaltaram meu apartamento e já roubaram toda a loja onde trabalho, enquanto eu estava amarrada em um de seus cômodos. Sei, que nos próximos anos que virão, estou sujeita a coisas piores, porque não há proteção. E isso não é má sorte: é má nacionalidade. Todo bom brasileiro sabe do que estou falando, e se não sabe, é bom ficar esperto. Enquanto tento financiar minha faculdade, porque nosso governo não nos dá direito a ter uma faculdade pública, se não passarmos bons anos estudando em colégios particulares (para quem não sabe, a média de alunos de escolas públicas na federais é de meros 20%), pessoas morrem, cabeças rolam, crianças são jogadas pela janela, assassinos são soltos das penitenciárias para cometerem novos crimes. E deve haver quem diga: tudo isso por uma multa? Não. Não ficarei mais pobre, nem mais rica. Ficarei sim, menos brasileira. Ou mais brasileira talvez. Porque esse sentimento de revolta, ou me afastará mais do amor a pátria, ou me fará como eles: medíocres.
Nunca fui patriota. Acho ridículo vestirmos a bandeira de um país que não tem justiça. Uma terra sem leis. Quem já esteve nos Estados Unidos sabe do que estou falando. E ainda chingam os americanos, que podem ser frios, calculistas, psicopatas, mas sabem punir quando preciso, sabem lutar pela vida e pela dignidade humana. E com certeza, antes de entrarem nas ruas ermas procurando carros para aplicarem multas, disponibilizam faculdades com estacionamentos gigantescos. E apesar de não serem instituições públicas, existe toda uma estrutura de preparo para que as pessoas possam adentrar seus estudos.
Enquanto perderei meus 60, 70 ou 80 reais nessa brincadeira de hoje, aquecerei algum bolso por aí, ou alguns talvez, apesar de já terem dinheiro o suficiente para proliferarem ainda mais esse rastro de desonra brasileira.
Enquanto isso, eu, mera estagiária de jornalismo na tv bandeirantes, tive de ouvir no telefone uma senhora desesperada porque um parente estava a beira da morte sem socorro em um hospital público. É que deve estar gastando um pouquinho a mais com alguns desses impostos brasileiros, e portanto, não deve conseguir pagar por um plano de saúde e ter um pouco de dignidade no atendimento médico.
É preciso pagar, e se adentrar nesse breu de conformismo dessa terra que chamamos de nação. Afinal, já diziam a dois mil anos atrás para "dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus"...... Eu só não tinha percebido, que quando damos a César e não damos a Deus, damos a César o que é de César, e também o que é de Deus....

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