
Estava tudo ali, na mais perfeita simetria. A cama, rigorosamente feita, sem rugas. As almofadas, enfileiradas, formavam uma seqüência impecável. Os quadros no lugar, os móveis no lugar, a vida no lugar. As toalhas no banheiro, alvas, denotavam a existência de uma família – éramos três. Sempre tive uma preocupação excessiva com as portas da casa – parte de um medo perturbador de uma invasão inesperada. Enquanto me preocupava em trancar as fechaduras, esqueci-me de conferir as janelas. Um certo dia, uma ventania entrou pelas frestas, derrubou minhas plantas, quebrou meus vasos, desfez minha ordem. Carregou para longe objetos de valor. Transtornou minha história. Espalhou fotografias pelo ar, como partículas que se desmembram pela eternidade. Restou-me entre a bagunça. Eu, os retalhos, os resquícios do furacão Katrina. Já nem me importa tanto, se pagaram gurus para enviar o vento, se afrouxaram as gretas que os deixaram entrar, se fizeram tanto, tanto esforço, tanto apelo, para toda essa devastação. Já nem me importa se me enganei na falsa força de quem não teme inveja, de quem não teme os votos contra e se, nessa confiança enfadonha, me esqueci de me cercar com escudos de proteção. Me importa, agora, respirar bem fundo, sugar todo o fôlego que me resta, catar os cacos com a pá e reconstruir toda essa limpidez. A coragem da construção é menos necessária que a perseverança do recomeço. Mas preciso tentar. Enquanto formos duas. Enquanto houver uma razão que me importe tanto.

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