quinta-feira, 14 de julho de 2011

Calendário fictício



Sempre gostei de escrever sobre os anos, no rompimento desses. A virada de um ano é sinônimo de renovação de expectativas. Apesar de ainda estarmos na metade de 2011, não me contive em descrever uma prévia retrospectiva de seus significados. É como uma laranja que esgotou seu sumo – não há mais o que esperar. Acabou-se um ano, ainda antes de acabar. Então, é hora de rever o que passou, mirar o próximo – ainda distante – 2012.

O último ano, que me recordo, tão ruim como esse, foi em 1997. Mortes, tristezas, falta de direção, poeira voando pelo ar. Agora estou aqui, colocando na balança os desprazeres e os gozos – minúsculos, quase inexistentes. E não me refiro apenas a meu mundo particular. As pessoas com quem convivo devem concordar comigo – muitas delas. Términos de relacionamentos, sonhos frustrados, perda de parentes, famílias destruídas, profissões desfeitas.

O que houve, Senhor? Eu me arrisco a perguntar. Não acho que Deus tenha se rebelado. Talvez tenha apenas permitido que nos afoguemos em nossa própria rebelião. É natural que a vida esteja como está. Afogamo-nos a cada dia na nossa falta de valores. Largamos tudo por um “tiquinho” de prazer e tudo isso acaba representando uma socialização cheia de alardes. Mas nosso interior está seco, como um deserto. Não estamos regando a alma, estamos semeando o moderno aceitável.

Quando penso que não pode piorar, sim, estou pior que ontem. Meus amigos também, ainda que não percebam. Estamos trocando ouro por lentilha, jogando pérolas aos porcos. E tenho visto tudo tão distante – o futuro, o passado. Só me resta um presente sem sentido. Não há como resgatar o que perdi, nem projetar o que objetivei. O que fazer? Espero por seis meses vãos, cheio de notícias ruins. E acredito em um 2012 de renovação. É essa nossa cultura de fim de ano, nosso amuleto da perseverança. Mas quando um ano acaba na metade, só nos resta esperar. Viver um dia após o outro, não há mais o que tirar, não há suco, nem essência – somente um período de vagueza. Que passe logo esse limbo que restou. Adeus, 2011. Feliz ano novo a todos – enquanto esperamos, num anestésico calendário fictício.

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