Há pouco descobri que me tornei uma pessoa que não consegue mais chorar. Minhas lágrimas secaram, como um lago que não existe mais. E isso é muito, muito estranho. Só vivendo para saber como é. Pelo menos, para quem chorava a cada folha que caía ao vento, não conseguir chorar nem mesmo na pior situação, pode ser verdadeiramente uma calamidade. Isso me assusta bastante. As vezes páro e faço meu auto-retrato, como uma máquina de raixo-x que percorre todo o corpo, a alma e o coração. E não me encontro. Tudo o que vejo é um monte de carne e uma porção de sangue. Alguns ossos, alguma veias e órgãos também. Mas eu não estou ali. Não me acho, por mais que me chame ou grite meu nome.
A parte sensível que sobrou em mim, é Deus, minha filha e a escrita. O primeiro, soberano, não sei se está tão perto assim. A segunda, sinônimo de pureza, é a transmissão daquele amor incondicional e verdadeiro, que ninguém mais um dia haverá de ter por mim. Pelo menos enquanto ainda for criança. E é isso que me dá forças pra querer, buscar e continuar. Porque o ser humano, como um todo, já não me importa mais. Não é egoísmo da minha parte. Apenas deixei de acreditar nesse amor adulto que nem sei se existe. Um amor que trouxe comigo da infância, cheio de sonhos e ilusões. Não mais acredito nele. Existem pessoas boas, gentis. Mas nunca o suficiente para se entregar por completo, abrir mão de si próprio, sofrer com a distância, querer sempre um pouco mais. É aquele frio na barriga que perdeu uma parte de suas cócegas. E isso não me fez menos feliz ou mais sofredora. Me fez mais acordada e um tanto madura, talvez.
A escrita é o pedaço do retrós que me permite degustar de um pouco de esperança. Me permite raspar o tacho desse coração vazio. Penso, que se um dia não conseguir me aproximar de Deus, e minha filha crescendo e se unindo a essa teia de desapego da vida crescida, me sobrará tão somente as letras que me permitem susurrar. Serei eu e a escrita. Estaremos anciãs, em uma cadeira de balanço, retratando um velho coração vivdo. Lendo e saboreando. Esperando que me enterrem, com meus davenios, e minha solidão.

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