O filho perguntava, insistentemente, ao pai, o que era a fé. O pai sempre tentava achar uma maneira de descrever à criança o significado da palavra, mas nunca conseguia encontrar uma maneira clara para isso. Em uma ocasião, ele arrumava as ferramentas no alçapão e o filho, lá de cima, o gritou. Então, ele decidiu aproveitar o momento para mostrá-lo como funciona a fé. Ele o ordenou que pulasse em seus braços e o menino, amedrontado, respondia: pai, eu não te vejo, está muito escuro aí em baixo. E o pai, bastante confiante, disse: Mas eu te vejo, perfeitamente. Confia em mim que eu te seguro. O pequeno, então, saltou. O pai o amparou e lhe disse: filho, isso é a fé. Você não sabia onde eu realmente estava, não podia me enxergar, nem me tocar. Ainda assim você acreditou, teve atitude e se lançou – e eu te protegi.
E assim, eu tenho aprendido que a fé é exatamente aquilo que não podemos ver. É sabermos que, ainda que tudo pareça turvo e perigoso, estamos seguros. É acreditar que há muito mais para nós do que possamos projetar. Venho percebendo que o medo ou a escolha do palpável, quase sempre, nos impedem de dar um passo a frente. É preciso ter coragem, ter certeza de que vai dar certo e de que, para isso, não é preciso termos provas – basta nos lançar. Tenho esvaziado, pouco a pouco, essa carga ansiosa que trazia dentro de mim. E pelo caminho, venho percebendo que as preocupações, quase sempre, nos impedem de apreciar as peculiaridades que a vida nos oferece. Há muito mais que um trânsito intenso, que um casamento desfeito ou um dia extremamente cansativo. Há, sobre mim, um céu resplandecente e, sobre ele, um Deus forte, fiel e poderoso. Ao meu redor existem pessoas carentes como eu, que necessitam tão somente receber um pouquinho do carinho que espero tanto e não encontro. Por que não, dar ao invés de receber? Por que não, plantar as flores, ao invés de lamentar a escassez da primavera? Chega uma hora, que é preciso mudar. É preciso pensar um pouco menos, sentir um pouco menos e fazer um pouco mais. Em um momento de nossas vidas, precisamos ouvir a voz que nos convida, ter certeza de que, ainda que me pareça tão distante e imperceptível, é preciso abrir os braços, deixar soprar a brisa no rosto e nos lançar em queda livre. Porque, finalmente, lá em baixo, haverá um solo firme, um braço estendido, um sorriso cativante. Ele estará lá, me dizendo: filha, eu te chamei e você me ouviu. Jamais te deixaria esmorecer. Ainda que não possa me tocar, eu estou aqui. Deixa-me te guiar, confia em mim. Isso se chama fé.

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