sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Primavera

Costumamos enfatizar muitas coisas em nossas vidas, em uma proporção desnecessária. Em muitos instantes do meu dia me pego agindo como uma lida com a morte. Sim, para a morte não há jeito, há lembranças, saudade, choro e sofrimento. É um pouco como uma paixão platônica da TV, que você assiste e não pode alcançar. Ainda hoje, seis meses após a separação, me pego girando no dedo a aliança. Me recordo de momentos, em cada lugar conhecido – nos restaurantes, shopping, supermercados e locadoras. Mas a pior parte mesmo é a noite, quando o silêncio preenche os cantos da casa. E no meio de todo esse espaço vago, escuto vozes, vasilhas, passos, pessoas. Fantasmas. O passado virou um fantasma, que me assombra pelas beiradas. Exatamente como a morte. Não há ressurreição, é muito mais distante do que eu possa alcançar. Sobram-me apenas as recordações. Aí, eu me lembro que o tempo não volta e que não devemos esperar que alguém parta, para que possamos fazer tudo diferente. Então, eu respiro bem fundo, enxugo as lágrimas e olho pra frente. E começo a perceber, que enquanto tenho desperdiçado minhas pétalas sobre o peito gélido de um túmulo, deveria estar cultivando flores para o meu jardim. A primavera está chegando, e os vivos poderão apreciá-la.

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