domingo, 21 de agosto de 2011

Escolha

Um dia você se dá conta dos seus erros e decide corrigi-los. Resolve fazer a coisa certa, resgatar a essência da sua origem – a pureza, força e retidão da infância. E você se entrega de corpo, alma e espírito. Mas então, você começa a perceber que talvez seja muito tarde para retomar valores que independem de você. E você percebe que é hora de mudar seu objetivo, traçar novos caminhos, perseguir focos diferentes.

Você passa a entender que algumas pessoas nunca te pertenceram de fato e que todo o amor que você dedicou algum dia, talvez não tenha representado nada. Então você se torna uma pessoa mais sensata, menos utópica e um tanto perseverante. Você trabalha mais, aproveita menos, sonha menos. Em contrapartida, passa a acreditar em si mesmo, em Deus. Você sente seu corpo cansado, sua mente exausta. E mais a frente, alguns meses para a graduação, alguns anos para a prosperidade, algum tempo para a felicidade e uma vida para a sabedoria.

Você passa seus finais de semana trabalhando, até de noite. Quase não vê sua filha. E quando te sobra tempo, acorda bem cedo para ir à igreja – é preciso se lembrar de oferecer à Ele um pouco do que temos também. Você se arruma, arruma a casa, arruma o café, arruma a criança. E ela, acaba escolhendo o vestido mais amarrotado do armário. Você passa a roupa também. Passa na padaria. Enfrenta uma fila gigantesca para deixá-la na escolhinha da igreja, e uma nova fila para retirá-la de lá. A filha chora, esperneia, todo mundo olha. Ela quer ir embora dali. E você, depois, a leva no shopping.

Ela pede batata, você compra batata. Ela pede pizza, você compra pizza. Ela quer sorvete, você compra sorvete. Ela quer ir ao parque, você diz que não, ela chora, todo mundo olha. Ela quer pirulito, ela chora, todo mundo olha. Você aproveita o “passeio” para comprar umas peças de roupa para ela – se você não fizer isso ela não terá o que vestir. E você perde mais um tempo do seu raro instante de folga na fila, para pagar as compras. Enquanto isso, você começa a se preocupar com o que deve no fim do mês, e no mês que vem, e no ano que vem também. E por falar em comprar, é dia de supermercado.

Novas filas, novos afazeres. E a pequena, é claro, contribuindo com um desnecessário coco na calça. Então você tem que se preocupar com o mau cheio da criança, as sacolas, a conta. E você sobe dois andares carregando o peso e a filha “cagada”.

Você a repreende, pega a fama de carrasco e ela chama pelo pai – ele é o amigo dela, o grande herói de tudo isso. Você dá nela um banho e decide colocá-la na banheira, com dezenas de brinquedos. Quem sabe assim você consegue descansar um pouco. E quando você começa a respirar, ela faz coco na sua banheira toda. Novo banho, nova limpeza.

Aí você se lembra que as compras ainda estão no chão da sala, você precisa guardá-las. E quando está quase acabando, você deixa os ovos caírem no chão da cozinha. E quando você termina de arrumar tudo, a pequena grita que fez coco de novo (putz, está com dor de barriga?!). Aí você a limpa e resolve escrever um pouco. Enquanto isso, os vizinhos fazem um churrasco. O som batuca alto, as vozes se misturam a estafa que sussurra no peito. As mãos fedem ovos, as unhas fedem fezes. E você pensa... Sim, a vida é feita de escolhas.

Algumas pessoas preferem a vida mais fácil, o caminho mais curto. Outras optam pelo trajeto mais longo, entretanto, mais seguro. Escolher a Deus, a família e ao trabalho, não é algo que se possa lamentar. E você decide olhar para a frente, ainda que te tenham abandonado no meio de tudo isso, você é capaz de prosseguir sozinho. Tudo passa. Menos a justiça. Não há por que retroceder. Vai dar tudo certo.

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